OS DOIS RISOS DE VERÔNICA
I
Na verdade, ninguém se preocupou em saber como eles se conheceram. Todos os dias, ao final da tarde, ela contornava a esquina, entrava pelo portão da rua e subia fumando. Verônica era clara, não branca. O corpo esguio, sem ancas, não tinha volumes e não aparentava uma baiana em brasa, inquieta, daquelas que dançam, até o chão, o pagode envenenado e estúpido que as emissoras das rádios baianas tocam. Também não era das mais recatadas, que não dançam, nem gostam desse gênero musical, mas que se entregam à maneira típica, peculiar e desleixada do falar baiano e suas expressões cheias de criatividade e comparações inusitadas. Tampouco parecia uma baiana religiosa, católica ou crente nas criaturas das matas, das águas, dos raios, dos Orixás, que regem as cabeças de seus filhos. Não, ela não era nenhuma dessas. Era, sim, enigmática, magra e vestia uma estranha seriedade que lhe dava a aparência de algoz do limite da existência. Não há relato, entre a vizinhança, sobre um riso daquela criatura. Na verdade, ninguém se atrevia a encará-la ou engatar qualquer conversa fiada, a não ser ele. A mulher tinha um campo energético bem negativo, cabelos enrolados como serpentes e olhar de Medusa. Eliseu era estranho, mas não tanto: quando não estava sobre efeito de drogas, tinha humor. Um homem cinza, também muito magro e de rosto chupado − como caveira de grupo heavy metal −, dizia que gostava dela. Somente dela. Os vizinhos odiavam a ambos. Menos dona Geórgia, a beata, e a vizinha Loreta, que sempre davam a misericórdia do ser humano àquele casal Klingon. Mas Eliseu não se intimidava com ninguém e botava a mão no fogo por Verônica. Ele dizia a todos que ela era cantora, que cantava em bares. Às vezes, ela também dizia isso; às vezes, não. Ficava parada e mirava com olhar perdido, sem brilho e sem foco, as coisas e as pessoas que passavam. Em seguida, se chateava com algo, ou com nada que lhe dissesse respeito, e saía andando. Eliseu, quase sempre, levantava-se do chão sujo e corria atrás dela. Um vácuo nebuloso e uma fumaça preta os acompanhavam. Recentemente, Eliseu, que tinha um defeito na mão direita, em consequência de um golpe de facão que levou depois de roubar uma bicicleta, descobriu duas hérnias inguinais, sofria de dores quando andava muito ou pegava algum peso fortuito. E de hora em hora atacava-lhe uma tosse crônica renitente. Subiu, desceu. Procurou um e outro na rua, mas poucos lhe davam atenção. Nem sinal de Geórgia ou Loreta. Uma em ocupações na igreja, e a outra na fila do SUS para tratar de reumatismo. Encontrou o motorista − lotado na prefeitura de Salvador − que dirigia um caminhão para uma empresa de podas. Um homem que não dava bolas para Eliseu, como todos na rua, e nem para ninguém. Vivia para ele mesmo. Sempre trazia na carroceria restos de árvores do Rio Vermelho, da Vitória, da Graça, do Canela. Nunca trazia restos do Subúrbio Ferroviário, ou do Vale das Pedrinhas, ou da Baixa do Tubo. Contou uma vez que seu patrão nunca andou por aquelas regiões populosas, e, como nunca andou, as árvores em bairros pobres de Salvador se erguiam em direção ao céu, levavam fios de alta tensão, galhos caíam nos becos, às vezes em cima de um carro popular, outras, na cabeça de um morador qualquer da região de pobres etc. Eliseu indagou ao motorista sobre um remédio para dores. O homem, desconfiado, e ainda assim com a bondade do coração, voltou, subiu ao caminhão e, pelo lado de fora da porta, enfiou o braço através do quebra-vento, destampou um compartimento no painel. Tudo sob as vistas de Eliseu, que acompanhava minuciosamente cada movimento do caminhoneiro. Em seguida, o motorista voltou e entregou o analgésico ao dolorido. No dia seguinte, encontrou o caminhão arrombado. Levaram um rolo de papel higiênico, um alicate, que servia para suspender e abaixar o vidro da janela do carona, e deixaram a tampa do compartimento fora do lugar, atravessada erroneamente no painel. O caminhoneiro deu um muxoxo e praguejou contra o desgraçado que fez aquilo, sem ter como provar. O caminhão ficava em frente a um sobrado, no fim da rua. Uma mulher velha, que ficava as madrugadas atrás de uma cortina de uma das janelas do sobrado, no fim da rua onde morava, confessou que viu um homem debruçado no lado do motorista e que provavelmente poderia reconhecê-lo, mas, como as pessoas ultimamente estavam violentas e desrespeitosas, preferiu não dizer nada ao caminhoneiro, que prometia matar o desgraçado que roubou seu papel higiênico. Passado esse episódio, Eliseu andava sozinho pela rua, vestia sempre o mesmo calção imundo. A mulher que o amava de fato, chamada na rua pelos moleques de Lili-Alien, lavava suas roupas e cozinhava para ele. Cansou de levar porrada de Eliseu e fugiu com o pescador que lhe trazia peixes, com os quais Alien fazia moquecas ou fritava um a um para o caveirão heavy metal. Quando acordou de ressaca de drogas pesadas, lá pela tarde alta de sol a pino, depois da última surra que deu em Alien, Eliseu soube que, enquanto ele dormia, ela havia vendido o fogão, a geladeira e a televisão para o gari que também a assediava. Vendeu por preços módicos, de liquidação Black Friday e sumiu com o pescador. Andou, perambulou e praguejou contra a mulher. Chorou e pediu a morte. Disse que estava arrependido e que a amava como um bruto que um dia ou outro amanhece de coração mole. Tentou se matar ateando fogo na casa. Foi salvo pelo negro que vendia cachaça num cacete armado a dez metros da casa dele. Deu sorte, pois naquele dia e naquela hora o negrão não fritava pititinga no óleo saturado, para tira-gosto, se não, não sentiria o cheiro da fumaça de incêndio. Quando todos pensavam que Eliseu havia se consertado, tomado jeito ou coisa parecida, roubou o sofá que ficava na varanda de uma igreja evangélica no Bonocô. Não conseguiu carregar, o peso esmagava suas hérnias, os crentes evangélicos que faziam vigília na madrugada, e viram a tentativa do roubo, levantaram-se contra Eliseu e, na contramão das palavras de Cristo, que ensejam paz e misericórdia, desceram a madeira violentamente no lombo do meliante. Eliseu ainda gritou desesperado “irmãos, devemos perdoar e buscar humildemente o perdão para pessoas imperfeitas como eu; irmãos, tenham piedade, irmãos”, não adiantou, apanhou muito. Chamaram a viatura. Foi preso. O delegado o reconheceu de imediato. Há anos Eliseu vendia drogas para estudantes nas escolas do Pelourinho, havia sido preso por ele dezenas de vezes no Centro Histórico, quando o bacharel estivera lotado ali. Uma vez, nessa mesma época, com mato seco grudado à roupa, Eliseu chegou algemado por policiais detetives. Foi o flagrante que lhe deram no quintal de um vizinho, quando ele morava na Palma. Sem querer, o dono da casa acabou descobrindo, numa madrugada de insônia, que Eliseu enterrava a erva em sua propriedade. Enquanto Eliseu cavava o quintal, o insone chamou a polícia, e o flagrante espetacular aconteceu. Depois da queixa efetuada pelo pastor da igreja em relação ao sofá, ele, ousado, exigiu exame de corpo delito. As autoridades constataram as duas hérnias inguinais e a suspeita de HIV, revelada pelo próprio Eliseu. Ficaram na dúvida e o fizeram assinar um termo de responsabilidade, ou boletim criminal, para pagar uma cesta básica, mensalmente, no valor de duzentos reais, e o liberaram tão rapidamente quanto Eliseu roubava suas vítimas. Depois o bacharel virou para o escrivão e os agentes que estavam na sala e disse que não ia onerar os impostos dos cidadãos de bem. Se mandasse aquele meliante para a cadeia, ele teria que ser tratado daquelas enfermidades terríveis. Depois de recuperado, cumpriria pena, muito provavelmente um castigo de poucos dias, e, então, seria posto em liberdade, devolvido ao convívio social, forte e saudável, essa era a obrigação do Estado. No entanto, num breve julgamento à revelia, feito pelo doutor, foi perdoada a mea culpa do homem cinza e este liberado com seus crancos. Dessa forma, Eliseu que sofresse e talvez morresse à míngua do lado de fora, e que Deus protegesse quem cruzasse o mesmo caminho daquela escória. Foi então que Verônica, a magra, feia e enigmática cantora, entrou na vida dele. Ao sair da delegacia, ouviu a voz cantante e dissonante da mulher. Eliseu parou, com a cara arrebentada, com o calção sujo, a camisa rasgada, e balançou levemente a cabeça para cima e para baixo como alguém que ignora um fato histórico e, em sua imaginação, finge ser profundo conhecedor de tudo e qualquer coisa que exista no planeta. Ela terminou a música e foi ao encontro da escória a que o delegado se referiu e que se isentou de tratar como ser humano, merecesse ou não. De imediato, uma intimidade espiritual secular ou um demônio qualquer que tivesse interesse em unir aquelas duas cabeças para intensificar atrocidades pelo mundo afora, uma coisa ou outra, envolveu aquele casal. A mulher, sem acanhamento, decidida como fêmea que açoita seu parceiro, mandou Eliseu comprar drogas na Feira das Sete Portas para os dois usarem. Verônica lembrava muito Lili-Alien. Eliseu riu de boca fechada e olhou no fundo dos olhos sombrios da mulher como um bruto apaixonado. Guardou o dinheiro que ela colocou nas mãos dele dentro do calção imundo e desceu a Ladeira dos Galés em direção às Sete Portas, obedecendo como um cego e débil eunuco. Meia hora depois, parou na porta do bar que ela cantava e esperou. Saíram juntos naquele primeiro dia; Eliseu a levou para a casa onde morava, ainda cheia de fuligem e gordura presa nas paredes. Enquanto andava ao lado da mulher, os dois calados, raciocinou como raramente dava-se a esse luxo, que espécie de mulher era aquela que ia no primeiro encontro. “Ah, não, ela era safa, sabia o que fazia” e se apaixonou. Um dia, a vidente Dona Joana que previa a vida dos clientes olhando dentro de um copo com água, passou em frente à casa de Eliseu e se arrepiou fortemente. Olhou para o lado e viu, debruçada na grade do portão da casa de Eliseu, a sombra de uma criatura na escuridão, com quatro braços, olhos em brasa arregalados e cornos nas extremidades da cabeça. Dona Joana se benzeu e largou “te esconjuro, desgraça” e apertou o passo sem se virar. Nos dias seguintes, Verônica, no fim da tarde, provavelmente acompanhada de tal horrenda criatura, subia a rua, passava pelo cacete armado do negrão que vendia cachaça e tira-gosto de pititinga frita, e batia no cadeado da grade. Um vento frio e um negrume, que parecia se esconder nos escombros da alma da magricela, a seguiam, e passavam como tornado às suas costas. Quem estivesse por ali tomava uma topada, ou torcia o pé, ou algum objeto que alguém estivesse carregando caía inexplicavelmente ao chão, os cachorros uivavam e os gatos se eriçavam. Eliseu abria a casa e os dentes com uma certeza de incauto, ao contrário de como sempre fazia. Ela entrava sob os olhares ocultos da vizinhança e, minutos depois, o cheiro de erva exalava na rua. Depois, Eliseu saía, melhor vestido e calçado num tênis velho que um antigo professor viciado lhe presenteou, descia a ladeira que sai no Bonocô e comprava mais drogas pesadas para usar com Verônica. Na volta, subia a mesma ladeira ofegante com a respiração apitando. Um dia, sentiu uma dor forte no coração, debruçou no poste no meio da ladeira e puxou ar. As vistas escureceram, mas em seguida ele se recuperou e seguiu. Nesse meio tempo, a rua ficava sob suspense; há muito, desde que Lili-Alien fugiu, Eliseu não se drogava tão sôfrego e fissurado. Mas todos percebiam que Verônica não compartilhava da mesma natureza de Alien. Dona Joana avisou a todos que se consideravam do bem que se afastassem daquela mulher. A magrela tinha olhar duro e gelado, opaco, desfilava ao lado de Eliseu como uma noiva cadáver. Era cética, e a frieza doía nos ossos de quem cruzava o mesmo caminho. Lili-Alien diferia pelo laivo de bom senso e humor que, vez por outra, a tomava quando ela acordava sem drogas no juízo. Assim, ela varria a frente da casa de Dona Vilma, a vizinha do lado direito e, vez por outra, enfiava sua cara maldita pela janela da cozinha da mulher e pedia temperos, quando não os roubava. Varria também a frente da casa de Solange, a vizinha de corpo modelito da frente e amenizava os quatro biquínis que roubou da mulata cheirosa e vendeu para namoradas de traficantes em troca de balas de crack. Perguntava a seu Adolfo se ele queria que ela comprasse pão e leite para o café da manhã, ele dava o dinheiro, com uma sobra, para Lili, e assim ela atenuava os furtos que realizava na carteira do homem quando, sempre com outras intenções, sentava com ele para beber e jogava Flunitrazepam em seu copo. O velho dormia como recém-nascido e Lili-Alien levava tudo que seus olhos alcançavam. Acompanhava a pequena Priscila, filha de Renata, que morava a seis metros de Eliseu, até o ponto do transporte escolar e mitigava a culpa que sentia por roubar os doces da criança na larica de maconha. E nunca, jamais, deixava de atender aos desejos de Eliseu. No entanto, o hábito de viver sob o perigo da marginalidade já a havia tomado por inteiro, e nunca Lili-Alien deixava de pular muros. Verônica não fazia nada disso. Aliás, ela não dirigia a palavra a ninguém da rua. Entrava na casa de Eliseu às quatro da tarde e saía às nove, dez da noite.
II
O mau caratismo de Eliseu punha em dúvida o exercício de
cidadania e humanidade das outras pessoas. Ninguém tinha a consciência de que
um ser humano pode pender de lados diferentes em questão de segundos. No
entanto, todos acreditavam em maniqueísmo. Dona Loreta chamava Eliseu todos os
dias e dava-lhe uma vasilha com feijão, arroz, salada de alface e tomate e um
pedaço de carne ou frango. Assis, o marido de Loreta, não sabia disso. Também
não sabia que Eliseu entregava à mulher dele, de vez em quando, um pacote bem
vedado para ela guardar. Eliseu nunca disse a Loreta o que havia naquele
pacote, muito menos ela se preocupou em perguntar. A beata Geórgia, por sua
vez, inscreveu Eliseu na paróquia de Bom Jesus dos Milagres, para ele receber
toda terça-feira o pão de Santo Antônio e, ao fim de cada quinzena, uma cesta
básica. Os pães ele comia de fato, a cesta básica, às vezes vendia, outras
vezes deixava com Loreta para uma ou outra comida que ela fizesse. Isso durou
até o dia em que o negrão do Cacete Armado, onde todos os homens da rua
bebiam, falou em cochicho para Assis o que se passava com sua mulher enquanto
ele trabalhava num prédio comercial, próximo ao Shopping da Bahia. Loreta ficou
meses morando com a irmã no interior, em Crisópolis, de onde Assis a havia
tirado. Voltou porque o filho único intercedeu pela mãe, que jurou deixar
Eliseu morrer de fome. Ficaram sem saber, Assis e o filho único, sobre o pacote
que Loreta deixou guardado dentro da cômoda todos aqueles meses. No dia
seguinte, no primeiro dia da volta ao lar, assim que Assis deu as costas,
Loreta correu e jogou o pacote através da grade da casa repleta de fuligem e
gordura grudada na parede. Depois trancou-se e só abriu a porta quando Assis
retornou ao fim da tarde. Eliseu conversava com Geórgia dentro da igreja,
conversa fiada, de malandro. Tudo fazia parte de uma trama para que Verônica,
livre dos olhos da beata, passeasse pelos corredores da igreja e, todo compartimento
ou gaveta que surpreendentemente aparecesse na frente da magricela, ela fizesse
a revista, como um policial novato na corporação, que não deixa um buraco
sossegado. Até que achou a gaveta do dízimo, com os recibos. Se aquele valor
era para manter seus pastores e tudo pertencia a Deus, Verônica não pensou duas
vezes. Melhor, pensou, afinal, sou serva do Senhor. Colocou tudo dentro do
saco, que levou escamoteado dentro da calcinha minúscula que envolvia seu sexo.
Em seguida, com um volume muito parecido com um saco escrotal na altura de sua
virilha, Verônica apareceu, repentinamente, por trás da beata e acenou com a
mão espalmada, olhos e boca abertas. Eliseu levantou-se da cadeira onde,
sentado, conversava com a beata e foi embora, sem ao menos cumprimentar a
mulher de Deus. No dia seguinte, fingiu que estava com dor, ou não fingiu,
mesmo assim entrou na casa de Patrícia, a vizinha dos fundos, e pediu água e
analgésico, como fizera com o motorista que teve o papel higiênico roubado.
Contorcia-se e fazia barulhos horríveis, asquerosos e repulsivos com a
garganta, parecia Gollum fissurado pelo anel do Senhor. Ao voltar, com o
remédio, a vizinha não encontrou mais o personagem real com suas supostas dores
e o nauseante barulho gutural que fazia propositalmente. Também não encontrou
seu celular LG Prime, que estava em cima da mesa, em frente ao Hobbit
corrupto. Eliseu sumiu por uns dias e depois reapareceu, acompanhado de
Verônica, a esquisita. À noite, depois de drogar-se com a mulher companheira,
magricela e feia, ficou na penumbra de um poste. Tomou chuva para esperar as
vítimas e tossiu desesperadamente. Com uma faca de cozinha, acossou a irmã de
Solange, que voltava da faculdade. Tentou disfarçar colocando um capuz de capa
de chuva, mas ela o reconheceu quando ele tossiu e espargiu os perdigotos em
seu rosto. Contou a todos quem era ele, enquanto chorava assustada, temerosa da
violência das ruas de Salvador e enojada com as gotículas contaminadas que
matizaram sua face. Era a quarta vez que era roubada por Eliseu, enquanto
voltava para casa depois de estudar Pedagogia, esperançosa por um país melhor.
Dois dias depois, ele extorquiu o professor viciado, que lhe deu um tênis usado
e, de vez em quando, levava marmita de churrasco para Eliseu. O professor bebia
no Cacete Armado, do negrão e, por vezes seguidas, por meio da boa oratória
e persuasão que lhe mereciam talento, conseguiu evitar que a turma o pegasse
para um breve linchamento. Os homens que bebiam com o professor indignaram-se
com a atitude do licenciado. O professor, uma vez ou outra, quando ficava sem
dinheiro, situação comum dos professores no país, fazia dívida de droga com o
traficante, eis a razão da extorsão. Soube-se, semanas depois, que um casal de
feiosos, cujo homem tinha um defeito numa das mãos, aterrorizava mocinhas e
idosas na Rua dos Cornos, uma das entradas de Cosme de Farias. Segundo o relato
de uma das vítimas, a mulher era feia e séria. Tinha uma voz dissonante,
desarmônica e ameaçava as mocinhas com seu semblante magricela e horrendo de
Sexta-Feira 13, como se fosse um pesadelo, acompanhada de um homem caveiroso,
com uma mãozinha deficiente e que tossia renitente. Eliseu e Verônica
sumiram, têm-se notícias de que se refugiavam na casa da prima da magricela, em
Itaparica. Ficaram lá até terminar o dinheiro dos golpes, depois voltaram para
a casa, ainda crispada de fuligem e engordurada.
III
O casal não era muito de conversar. Às vezes trocavam
ideias sobre o modus operandi nessa ou naquela vítima, e só. Começavam a
se drogar e brevemente engatavam uma ou outra palavra a respeito da qualidade
da droga. Também era só. Um dia, refugiados na Ilha de Itaparica, um rabecão
passou por eles com alguns corpos. Verônica comentou que nunca vira alguém
morrer, de fato. Tinha visto morto, de lábios cerrados, com expressão de dor na
face fúnebre, talvez, e esbranquiçado, com os olhos fechados, como o padrasto
dela, que a mãe matou, enganada pela filha... Fora há tempos: o homem negou
dinheiro para ela ir à boca comprar erva. Quando a mãe chegou, ela simulou
abuso. De madrugada, o homem recebeu trinta e duas facadas. Antes que o
levassem para o Instituto Médico Legal, ela invadiu o quarto e ficou absorta,
de olhos arregalados, como se denunciasse ela própria em frente ao cadáver. No
entanto, em seu íntimo, não parecia haver arrependimento. Lembrou da cena
quando viu a camionete da Secretaria de Segurança Pública passar com os corpos
que a polícia abatera. Comentou isso com Eliseu. Ele, por sua vez, contou
alguns crimes de sua responsabilidade, além dos que ela já sabia. Um dos casos
era parecido com o de Verônica. Há oito anos ele matou, pela ganância, um
colega de uso de drogas. O rapaz, em dado momento, não quis mais fazer a cabeça
do homem cinza. Queria ir embora. Segundo Eliseu, ele queria guardar para o dia
seguinte. Ora, onde já se viu guardar drogas para o dia seguinte? Foi o que ele
colocou para o parceiro. O outro não deu atenção e, com um gesto de ombros e um
muxoxo, virou as costas para ir embora. Eliseu deu a primeira cacetada no
parietal, o outro sentiu e começou a desabar. Em seguida, como numa tacada de
golfe, destruiu o occipital, na base da nuca. O sangue jorrou como se tivessem
aberto as comportas da represa. Ele foi aos bolsos do parceiro, apanhou a droga
e terminou de matá-lo com mais duas cacetadas: uma no temporal e, a de
misericórdia, no frontal. Ficou preso um ano; a avó que o amava era viva e
tinha posses, pagou ao juiz, e ele saiu. O que morreu tinha mulher e uma filha
de nove anos. Verônica esboçou um riso para ele, pela primeira vez, em
meses.
A tosse vinha cada vez mais intensa. Às vezes, ele era
acometido por uma crise, passava de quinze a vinte minutos tossindo. Verônica
parava e esperava o homem tossir, como se os bofes fossem sair boca afora.
Impassível, mas ao lado dele. O negrão do Cacete Armado, não era nenhum
santo, andava em viaturas policiais e era tido, pelos jovens maconheiros e
drogados de raios enlouquecidos, como X9. De fato, o negrão apontava de dentro
da viatura quem fumava, quem cheirava e quem vendia. Todos o chamavam de Negro
Kong. Kong enquanto conversava com os homens que bebiam em seu estabelecimento
e fritava pititinga com óleo saturado contou a todos que viu Eliseu cair duas
vezes na rua. Disse que uma vez ele chegou para comprar pititinga e limão para
espremer e beber o suco. Estava diferente, mais pálido e mais cinza, o pequeno
universo preto e branco do Klingon estava se fechando sob sua cabeça
ordinária. Disse um monte de asneiras para o negrão Kong e acabou confessando
que tinha medo de morrer. Mostrou as duas hérnias inguinais do tamanho de uma
bola de tênis de mesa, e tossia desesperadamente. Mas ninguém se importava.
Kong disse ainda que ele perguntou se dentre aqueles que bebiam ali, algum
tinha conhecimento de médico que pudesse facilitar a cirurgia de hérnia. O
“foda-se” foi unânime. Depois que voltaram de Itaparica, cerca de três a quatro
meses depois, o casal resolveu aquietar-se. Trancavam-se dentro da casa, ainda
com fuligem e gordura grudada na parede, e só saíam no comecinho da noite,
segundo eles, para a igreja evangélica que ficava na Baixa do Tubo. Outras
pessoas, que não eram videntes, e até alguns que não se importavam se Deus
existia ou não, começaram a perceber o vulto de quatro braços que acompanhava
Verônica. Além disso, a fedentina da casa impregnou o casal. O odor era
inebriante, nauseabundo. Dona Joana, que passava todas as tardes para fazer
cura espirituais em outras casas, quase foi tomada de cavalo pela criatura, que
se acomodou na casa de Eliseu. A sensitiva debateu-se, soltou um urro, e
Caboclo Sultão da Mata, que se rebela contra as maldades e injustiças, veio
para socorrê-la, se apossou da mulher e recitou “Quando eu vinha da minha
aldeia/ rastando minha percata/ na chegada dessa casa/ caboclo velho é sultão
das matas”. Tudo sob as vistas imperturbáveis de Verônica, que assistia a luta
do Caboclo Sultão das Matas contra o demônio de quatro braços para se apoderar
de Dona Joana. A magrela, inabalável, estava parada do lado de dentro da grade
da casa de Eliseu. Imediatamente, Dona Joana se recompôs, ordenada pelo
Caboclo; se benzeu como nas outras dezenas de vezes que por ali passou e seguiu
caminho sem olhar para a criatura. Verônica passou a andar pela rua a qualquer
hora do dia. Parecia que tinha conhecimento de que sua presença causava horror
nas pessoas. Sentava no chão, no portão da rua, ou em qualquer lugar por ali, e
fumava Dunhill de quinze em quinze minutos. Quando a carteira de cigarro
acabava, ela mandava Eliseu comprar mais. O homem cinza descia toda a extensão
inclinada e quase íngreme, ao final da rua, e comprava Dunhill, para ela
só Dunhill, na vendinha de Dona Santa, perto do Bonocô. Voltava
ofegante, tossia e parava para respirar. Verônica observava satisfeita toda a
trajetória do homem do cume da ladeira. Eliseu fazia isso duas a três vezes ao
dia. Sempre na última, ele parava e se escorava no poste do meio da ladeira
para respirar, levava a mão à altura do coração, puxava ar e continuava. Na
Sexta-Feira Santa, quando todos bebiam vinho depois de comer azeite e
frigideiras de bacalhau, Eliseu desceu pela terceira vez para comprar Dunhill.
Quando estava ao meio da ladeira, descendo, ouviu um grito. A magrela, sem nenhum
motivo aparente, resolveu ir com o Cinza. Foram, compraram, beberam, cada um o
seu copo de vinho, oferecido misericordiosamente por Dona Santa, e tornaram a
marchar ladeira acima. Muitas pessoas nas portas das casas, crianças e
adolescentes. Adultos bebendo à Paixão de Cristo. Eliseu caiu inerte. Babava.
Falou algo ininteligível. Todos voltaram-se e agruparam-se ao redor do corpo
sem ânimo, estendido no asfalto quente das três da tarde. Verônica permanecia
parada, olhava o homem cinza, em seu final. Todos olhavam sem reação, sem
aflição ou tormenta. Eliseu morria como viveu. Verônica riu pela segunda
vez.
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