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Mostrando postagens de novembro, 2020

O MAÇO DE CIGARROS

  E nquanto o sargento Glober bebia, de um gole só, a dose de conhaque servida pelo garçom, André, do bar no Largo dos Paranhos, o apelidado Gordo, cliente contumaz, que sempre andava com cabelo preso num rabo de cavalo e le­vava consigo um maço de cigarros tipo boxe recheado de baseados, observava-o da sua mesa, curioso e, ao mesmo tempo, hesitante. Escamoteava, por trás de uma vitrine, uma estufa de salgados, que ficava em cima do balcão. A viatura estava parada ao lado do estabelecimento, virada no sentido para sair da Rua Cosme de Farias. Um dos policiais estava dentro do carro; os outros dois, con­versando do lado de fora, encostados no paralamas, um de­les fumando nervosamente. Aquela dose era a terceira do sargento durante a ronda que faziam. Gordo mirava e ria cinicamente, arquitetava um flagrante no policial que be­bia em serviço. Manuseou o telefone celular cheio de apli­cativos, procurando um ângulo para registrar a fotografia. A estufa de salgados, logo à frente, difi...

ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE

    E ra véspera de Sexta-Feira Santa. Oyá queria ser no­tada de qualquer forma, trovões e raios enlouqueci­dos subiam, ou desciam, naqueles dias de Páscoa. Nos últimos tempos, algo revitalizava o comércio da Baixa dos Sapateiros. As pessoas andavam e pesquisavam desde o Largo do Aquidabã até a Barroquinha. Em tempos em que os shopping centers determinavam as ofertas, deman­das e promoções, as pequenas lojas, que serviam a pobres e desfavorecidos, criavam saídas para a crise: ofereciam pro­moções de ovos de chocolate e brinquedos frágeis e fajutos para as crianças, além de lingeries baratas para as moças. Sem estoque de material, mas com esperança na base da pirâmide social. Todos circulavam, iam, vinham. Um pano­rama difícil. E o sistema nunca foi definido. − O verdadeiro ladrão é eleito pelo povo e assume car­gos de confiança, diz que acredita em Deus e o esnoba en­tre as paredes... É aplaudido, ou vaiado, tanto faz para ele, durante um tempo indeterminado. Às vezes, ...

BACULEJO

  F im de tarde de um novembro calorento, lá pelas seis horas: a hora do bicho. Marivaldo mijava e escorava, com a testa, a parede do banheiro imundo de Dona Maria, na Favela da Rocinha, nos confins do Pelourinho, Centro Histórico de Salvador. De dentro do mictório, ouvia Gil Macedo e Jorge Elias conversarem: − Não acredito em porra nenhuma disso aí − Gil falou. − Pois acredite. Depois de tudo, ainda ouvi uma risada maligna da porra! Sei lá, algo do além, como se tirasse sar­ro da minha cara. − Você deve ter fumado tanta maconha que começou a ouvir vozes... − Porra nenhuma, rapaz! Dia desses, uma mulher, que nunca vi na vida, me parou na rua e falou um monte de coisas! − Você é um otário, vive comendo pilha de macumbeiro, de Alan Kardec... Morreu, fodeu, meu irmão! − Não acho, não... − Talvez Jorge tenha razão − Marivaldo comentou, amarrando na cintura a calça de algodão que vestia para jogar capoeira sobre as pedras portuguesas do Pelourinho. − E quem disse a você ...

OS DOIS RISOS DE VERÔNICA

  I     Na verdade, ninguém se preocupou em saber como eles se conheceram. Todos os dias, ao final da tarde, ela contor­nava a esquina, entrava pelo portão da rua e subia fuman­do. Verônica era clara, não branca. O corpo esguio, sem ancas, não tinha volumes e não aparentava uma baiana em brasa, inquieta, daquelas que dançam, até o chão, o pagode envenenado e estúpido que as emissoras das rádios baia­nas tocam. Também não era das mais recatadas, que não dançam, nem gostam desse gênero musical, mas que se en­tregam à maneira típica, peculiar e desleixada do falar baiano e suas expressões cheias de criatividade e compara­ções inusitadas. Tampouco parecia uma baiana religiosa, católica ou crente nas criaturas das matas, das águas, dos raios, dos Orixás, que regem as cabeças de seus filhos. Não, ela não era nenhuma dessas. Era, sim, enigmática, magra e vestia uma estranha seriedade que lhe dava a aparência de algoz do limite da existência. Não há relato, entre a vizi­nhanç...

PASSATEMPO

  U m murro na boca e um chute no saco. O negro rodopiou e, zonzo, tentou se aprumar. Como um bólido, o punho do branco castigou-lhe a costela. Ele se contorceu. Mesmo assim, conseguiu ficar de pé e em guarda. Mirou os olhos e o queixo do outro e, num rápido jab , amassou o nariz do desgraçado. Depois, mandou um aú de capoeira e uma meia-lua de compasso, que lhe tirou sangue da orelha. Vermelho e fungando de raiva, o branco abraçou o negro e o derrubou; colocou-o por baixo e so­cou-lhe a cara. No terceiro soco, o negro se desvencilhou, levantou e chutou o lombo do adversário. O branco urrou. Caído, com as mãos nas costas, gritou: – Filho da puta! O negro o chutou duas vezes mais: uma, na caixa dos peitos; depois, trocou de perna e deu no pescoço, como um lance elástico de futebol. Quando novamente trocava de perna, o branco segurou-lhe pelo pé e o torceu. O negro se desmantelou em cima das pedras portuguesas do Pelouri­nho. Percebeu, então, que seria chutado por trás, na bu...