BACULEJO

 

Fim de tarde de um novembro calorento, lá pelas seis horas: a hora do bicho. Marivaldo mijava e escorava, com a testa, a parede do banheiro imundo de Dona Maria, na Favela da Rocinha, nos confins do Pelourinho, Centro Histórico de Salvador. De dentro do mictório, ouvia Gil Macedo e Jorge Elias conversarem:

− Não acredito em porra nenhuma disso aí − Gil falou.

− Pois acredite. Depois de tudo, ainda ouvi uma risada maligna da porra! Sei lá, algo do além, como se tirasse sar­ro da minha cara.

− Você deve ter fumado tanta maconha que começou a ouvir vozes...

− Porra nenhuma, rapaz! Dia desses, uma mulher, que nunca vi na vida, me parou na rua e falou um monte de coisas!

− Você é um otário, vive comendo pilha de macumbeiro, de Alan Kardec... Morreu, fodeu, meu irmão!

− Não acho, não...

− Talvez Jorge tenha razão − Marivaldo comentou, amarrando na cintura a calça de algodão que vestia para jogar capoeira sobre as pedras portuguesas do Pelourinho.

− E quem disse a você que eu estava falando de mor­te?! − Jorge Elias respondeu. ─ Preste atenção: eu falava de uma entidade que veio me avisar de um perigo iminente!

− Viadagem! Você está andando muito com Cinha. Acre­dita em velhas que param os outros no meio da rua para vaticinar! Ora, meu irmão, de adivinho a Bahia está cheia. Dona Maria, cerveja na mesa!

 

Dona Maria, mulher de uns sessenta anos, robusta e desprovida de elegância, caminhou lentamente com as suas pernas grossas, com dores de artrose, e com o astig­matismo, que separava os olhos, abriu o freezer, pegou e colocou sobre o balcão a garrafa coberta de gelo.

Marivaldo levantou para pegar a cerveja. A conversa continuou.

− Cinha não tem nada a ver com isso. É certo que ela tem lá suas visões, mas não tem nada a ver com o que acon­teceu comigo.

− Ela só tem visões, Jorge, quando está travada de pó. Aí até eu poderia ver coisas.

− Nisso, Gil tem razão − Marivaldo disse. Cinha tem muita conversa, a família dela gosta dessas coisas: uma parte, de macumba; a outra, vive em centro espírita. Ela mesma não se decide para onde ir.

− Enquanto isso, Jorge Elias vai pegar pó para ela lá na Vinte e Oito de Setembro − Gil falou, em tom de troça.

Marivaldo e a velha Antônia, que ajudava Dona Maria, sorriram juntos.

− Será que Antônia entende alguma coisa? − indagou Marivaldo, curioso.

A velha corcunda murmurou uns grunhidos, depois sorriu, lamentando ainda pelo príncipe encantado que há tempos viria buscá-la.

− Um homem não deve ser tão descrente assim, Gil − advertiu Jorge Elias.

− Para mim, essa é uma questão simples e facilmente re­solvida: não acredito em nada que a minha visão não possa registrar. E ponto final − Gil sentenciou.─ Quero que me deem provas de que o invisível existe, só peço isso...

− E você, Marivaldo? − perguntou Jorge Elias.

 

* * *

 

Naquele momento, um homem passava na rua e olhava curioso para dentro do bar. Levantou o polegar direito e, com uma piscadela, avisou para Jorge Elias, em tom dis­simulado:

− Tô na sinuca de Capixaba!

 

* * *

 

− Eu? − Marivaldo respondeu. ─ Não sei, talvez você e Cinha tenham razão. De qualquer forma, acredito nos Ori­xás... Quem era aquele cara?

− Que cara?

− Aquele que falou com você agora, parecido com o “Ho­mem de Areia”...

− É o barão do Pelourinho − Gil respondeu, antes mes­mo que Jorge Elias se pronunciasse.

− Fala baixo, porra!

− E aí? − instigou Marivaldo.

− E aí, o quê?

− Vamos colocar uns raios enlouquecidos nessa capa de CD dos Stones que você carrega pra todo lugar?  − Gil per­guntou.

− Comprar cocaína na Vinte e Oito?

− Não é pra lá que ele vai?

− É, mas aquele lugar é visado, toda hora a polícia está por ali.

− Ora, pede proteção e fica invisível na hora do baculejo... Você anda querendo regulamentar a crença... − ironizou Gil.

− Não quero regulamentar porra nenhuma! Não sou crente, trabalho com a dúvida − Jorge respondeu. Logo de­pois, mudou o rumo da conversa:

 − Vamos agora?

─Agora. Pague à tia Maria aí, Marivaldo.

− Vou pagar tudo sozinho, é?!

− Jorge vai entrar na boca, eu vou dar o dinheiro do pó... Sobrou a conta da tia pra você.

Minutos depois, os três rapazes saíram da Favela da Ro­cinha e entraram na Ladeira do Pelourinho. Caminharam sob a sombra dos casarões antigos, como o da antiga Fa­culdade de Medicina − alguns poucos reformados −, depois passaram pela Cantina da Lua e não deixaram de procurar por alguém conhecido. Chegaram à Praça do Terreiro de Je­sus, e Marivaldo decidiu parar para observar a capoeira de exibição na Bahia.

− Safados.

Seguiram pela Rua Saldanha da Gama − onde dá pra en­contrar qualquer tipo de peça eletrônica −, andaram pela rua de paralelepípedos centenários até chegarem a dez me­tros da sinuca de Capixaba, na Vinte e Oito de Setembro. Lá de dentro, o “Homem de Areia“ olhava-os, como quem intima e diz: o quê ou quanto você quer?

O medo subjugava cada um. O medo, que sempre se faz presente em projetos proibidos, como diria um autor baia­no. Um limiar delirante se apresenta nessas horas, como se todo pó aspirado fosse absorver ou deliberar palavras, alusões e metáforas que, por um acaso, estivessem neles. A fissura ardente tragava-os. Pegaram quatro balinhas e saí­ram apressados. Marivaldo e Gil andavam na frente. Jorge, logo atrás, com as quatro balas de cocaína. Prestes a atra­vessar a rua e entrar na Praça dos Veteranos, para seguir depois pela Rua da Independência, do outro lado, surgiram à frente deles, abruptos, dois cavalos. Em cima deles, dois policiais. Por pouco, Gil não beija uma das faces equídeas.

− Os dois na parede, agora! − um dos policiais falou para Gil e Marivaldo. − Agora!!

− Calma − Marivaldo falou.

− Mãos na parede, mãos na parede!

− Somos estudantes − Gil disse.

− O que tem nos bolsos? Bora, jogue tudo no chão! Mãos na parede, porra!

E o baculejo começou. Os policiais vasculhavam tudo quanto era lugar em que os dois pudessem esconder algu­ma coisa. Faltava espremer os suspeitos para ver o que en­contravam.

Ao lado, perto dos cavalos, Jorge Elias passou incólu­me. Imperceptível e invisível. Como se um manto de Ori­xá o protegesse. Ou como se tivesse vindo da Antiguidade, blindado com o anel de Giges. Andou o suficiente para se desviar do caminho, a fim de não assustar os cavalos. Um frio de sombra percorreu-lhe a espinha, como uma cobra serelepe a passear pelas suas costas, tão gelado quanto aquela garrafa de cerveja que Dona Maria colocou no bal­cão. Em meio a isso tudo, ele passou impune com as quatro balinhas de cocaína apertadas na mão direita. Nenhuma palavra durante aqueles eternos segundos foi dirigida a ele enquanto vencia o caminho que se abria à sua frente. Atra­vessou a rua e, já do outro lado, na Praça dos Veteranos, parou atrás de uma árvore e mijou aliviado, a observar, de longe, a cena do baculejo. Foi como se a dirigisse em plano plongée.

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