PASSATEMPO

 

Um murro na boca e um chute no saco. O negro rodopiou e, zonzo, tentou se aprumar. Como um bólido, o punho do branco castigou-lhe a costela. Ele se contorceu. Mesmo assim, conseguiu ficar de pé e em guarda. Mirou os olhos e o queixo do outro e, num rápido jab, amassou o nariz do desgraçado. Depois, mandou um de capoeira e uma meia-lua de compasso, que lhe tirou sangue da orelha. Vermelho e fungando de raiva, o branco abraçou o negro e o derrubou; colocou-o por baixo e so­cou-lhe a cara. No terceiro soco, o negro se desvencilhou, levantou e chutou o lombo do adversário. O branco urrou. Caído, com as mãos nas costas, gritou:

– Filho da puta!

O negro o chutou duas vezes mais: uma, na caixa dos peitos; depois, trocou de perna e deu no pescoço, como um lance elástico de futebol. Quando novamente trocava de perna, o branco segurou-lhe pelo pé e o torceu. O negro se desmantelou em cima das pedras portuguesas do Pelouri­nho. Percebeu, então, que seria chutado por trás, na bunda, e saiu catando ficha. Tomou rasteira do branco, que voou e o agarrou como se estivessem num coito anal. Em seguida, mordeu o cangote do negrão como um vampiro sedento. Cuspiu o sebo salgado do pescoço no chão. Num vacilo, o negro se soltou, gingou e desceu um martelo, que enfiou no pescoço do branco, tórax abaixo. Por outro lado, rece­beu um murro na omoplata. Os olhos do negro estavam injetados de raiva, a boca espumava, notava-se facilmente a carótida pulsando. Estavam frente a frente, rodeavam­-se como animais que marcavam território ou disputavam uma fêmea.

No meio da plateia que acompanhava o espetáculo, qua­tro taxistas estacionados no ponto olhavam sem se impor­tar: dois fumavam, outro coçava o saco com ares de gozo, o último tinha o dedo indicador dentro do nariz, de onde re­tirava bolotas de meleca e colocava no para-lamas do carro de um dos companheiros. Três mulheres com indumentá­rias de baianas passeavam pelo Terreiro de Jesus, distri­buindo fitas do Senhor do Bonfim e fazendo propaganda de restaurantes. Entre trinta e quarenta pessoas apostavam e incentivavam a luta:

– Vamos, filhos das putas, acabem-se, cornos, que eu quero meu dinheiro, desgraças!

O negro gingou. O branco riu em desdém diabólico, gri­tou uma expressão racista e cuspiu, catarrento. O catar­ro pregou-se no peito esquerdo do negro e escorreu. Em um ataque felino, como se as suas mãos fossem patas e as unhas garras, o branco agarrou-se no pescoço do negro, puxou-o para baixo e, depois de uma joelhada sensacional no umbigo inimigo, envolveu-o pelo pescoço, apertando e apertando. O negro já estava prestes a desfalecer, quando, então, num golpe vagabundo, segurou os colhões do bran­co e, com o indicador e o médio, furou os olhos do desgra­çado racista. Finalizou com um telefone nas orelhas e um chute no cu.

Os dois agora respiravam com dificuldade. O negro ob­servava a dor do branco, curvado com as mãos no joelho, em nítido cansaço. Um pingo de sangue pisado, preto e gosmento, descia-lhe pelo canto da boca. O branco, tam­bém forte como um estúpido animal, perdera um peda­ço da sua orelha. O negro, maior do que Zumbi, matreiro como Antônio Balduíno, cuspia sangue de um dente que havia desaparecido.

– Não tem polícia aqui, não?! – gritaram, de dentro um carro que passava.

– Porra de polícia, você é viado é, desgraça? – alguém respondeu entre as pessoas que formavam a imensa roda na Praça do Terreiro de Jesus, no Pelourinho.

– Ladrão, filho da puta! – um apostador desentendia-se com outro.

– Para mim, é viado! – um homem falou, do lado oposto da roda, para alguém.

– Quero comer aquela gostosa... − disse, desta vez, um rapaz, mergulhado na algaravia e mixórdia do momento, ao perceber uma mulher com vestido curto de oncinha, com grandes cílios nos olhos e um rosto farto de brilhos e purpurinas, além de um decote que oferecia a visão de peitos duros e sensuais.

– Oxe, ela deve ser cara, não é para seu bolso. Para co­mer ali − alertou um outro rapaz − você tem que roubar uns dez grupos de turistas.

Eram muitos os barulhos naquele lugar, as vozes e os sons das coisas, a baianidade efervescente.

– Bora, porra, fode logo com esse filho da puta!... Cos­cobeu, ô coscobeu!... Bora logo! – bradou um homem, em cima de uma camionete cheia de laranjas, que se preparava para sair, de frente da Cantina da Lua.

A batalha seguia. À sorrelfa, matreiro, o branco voltou a atacar o negro, que golfava sangue. Dezenas de pessoas gri­taram ao redor. Um murro no lombo, de cima para baixo. O dedo mínimo estalou. O negro caiu, mas caiu girando, ro­dando e, na curvatura, a pernada direita em capoeira, vin­da de cima, bateu e fechou o olho direito do branco. Este rosnou, gritou. Aquilo deve ter doído. Ele era um ciclope agora, como Polifemo.

– Puta que pariu! − alguém gritou.

Com um urro de guerra neandertal, e guiado por apenas uma visão, o branco, de estúpida monstruosidade, saltou para cima do inimigo. Incrédulo, o negro recebeu o golpe forte no meio da cabeça, um martelo de braço. Ficou deso­rientado. Nesse instante, uma negrinha de pés descalços que vinha pelo paralelepípedo derramou um balde de água na cabeça do negro. O choque da água com o corpo sua­do e ferido o inflamou, e, numa virada de urso, acertou o branco direto no rosto, no osso zigomático. Ambos animais miseráveis, olhavam-se enfurecidos. O sangue esguichava, pulsante nos dois.

– Ninguém vê Deus aqui? – bradou em voz alta um dos evangélicos que passavam.

– A galera aqui é do dendê. – respondeu um negro com colar de contas azuis.

– Em nome de Jesus, meu pai!

Um de frente para o outro mais uma vez, olhavam-se, miravam-se, estudavam-se novamente como animais. O branco xingou o negro novamente com expressões racis­tas, o negrão mostrou o dedo médio. A plateia, em êxtase, incentivava, xingava-os também. Do lado de fora da roda, uma dupla de ladrões fazia descuido. O vendedor de cafe­zinho viu tudo, mas, ao perceber o olhar satânico que um dos descuidistas dispensou para ele, fez vista grossa e se afastou com suas garrafas térmicas. Do outro lado, na es­quina da Rua Saldanha da Gama, uma prostituta assediava um gringo que estava apalermado com a arquitetura do Pe­lourinho. Ela cheirava uma carreira de pó, disposta sob um prato, como se fosse um raio enlouquecido, quando ofere­ceu o boquete, numa mímica com as duas mãos em forma de cone que, alinhadas, faziam um vaivém. Depois, com a mão direita aberta, anunciou o preço da putaria. O gringo riu e foi embora.

A luta recomeçou no meio da roda, no centro do Terrei­ro de Jesus. O negro deu um soco na testa do branco, que rodopiou, mas, ao rodar o corpo, levantou uma das pernas e acertou o outro na região dos rins. O negro sentiu muito esse golpe inesperado, porém era mais duro do que qual­quer escravo-capoeira e repetiu o soco de cima para baixo no cocuruto do branco, que mostrou a língua e caiu. A pla­teia urrava, gritava, ria e continuava apostando na batalha.

– Levanta, porra!

– Olhe, desgraça, não posso perder meu dinheiro não, viu?!

– Mete a porra nele, picolé de betume!

O negro, em atitude de misericórdia, pulou, girou no ar, novamente elástico, e desceu com mais um martelo no mesmo lugar em que dera o murro. O branco apagou.

Uma senhora que passava para a missa, ao ver a roda, parou e, curiosa, perguntou a um dos rapazes que estava por ali:

– Meu Deus! Mas pra que isso, afinal? 

– Passatempo, minha senhora − ele respondeu, sorrin­do −, passatempo...

Os ladrões encurralaram o gringo que desdenhara da negociata sexual...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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