ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE

 

 

Era véspera de Sexta-Feira Santa. Oyá queria ser no­tada de qualquer forma, trovões e raios enlouqueci­dos subiam, ou desciam, naqueles dias de Páscoa. Nos últimos tempos, algo revitalizava o comércio da Baixa dos Sapateiros. As pessoas andavam e pesquisavam desde o Largo do Aquidabã até a Barroquinha. Em tempos em que os shopping centers determinavam as ofertas, deman­das e promoções, as pequenas lojas, que serviam a pobres e desfavorecidos, criavam saídas para a crise: ofereciam pro­moções de ovos de chocolate e brinquedos frágeis e fajutos para as crianças, além de lingeries baratas para as moças. Sem estoque de material, mas com esperança na base da pirâmide social. Todos circulavam, iam, vinham. Um pano­rama difícil. E o sistema nunca foi definido.

− O verdadeiro ladrão é eleito pelo povo e assume car­gos de confiança, diz que acredita em Deus e o esnoba en­tre as paredes... É aplaudido, ou vaiado, tanto faz para ele, durante um tempo indeterminado. Às vezes, morre ladrão de caixa dois, jurando ser inocente, sem que ninguém sai­ba − dizia Melquizedeque, enquanto analisava a jogada que devia fazer no tabuleiro de damas.

− Ligam para as artes, Melqui?

− Não, Joaquim, não ligam para as artes, nem para o ci­nema, muito menos para doenças crônicas de velho. Quem assume cargos desse naipe, eleito pelo povo, só liga para o futebol e para o próprio bolso. Em sua maioria, nunca jogaram futebol, provavelmente nem gostam, mas querem ser notados num grande clássico e não torcem para time nenhum, mas para que acabe tudo em pancadaria, a fim de acusar o adversário político.

− Querem mais, sempre mais, Melqui. Seja lá o que for.

− Dama, Joaquim.

− Lembra que você escreveu a poesia da derrota em 1950, quando o Brasil perdeu a copa para Gighia, Melqui?

− Lembro, Joaquim. Mas a poesia é um gênero perigoso.

− Gênero perigoso? Por quê?

− Às vezes, ela esconde a verdade, noutras ela traz à tona o que não se quer que ninguém saiba, e os políticos não su­portam poesia.

− Eles nunca dizem a verdade... Tem uma coisa... De vez em quando... Você se sente preso, às vezes?

− Me sinto preso nesse Universo cruel, velho Joaquim.

− Eu também. Tudo é perversão hoje em dia. Então é isso.

− Pode não ser só isso, ou há algo mais... Parece castigo, Joaquim, temos que testemunhar a morte do ser humano, em tempos que deveríamos renascer.

− Melquizedeque, preste atenção ao jogo, homem! Quan­ta filosofia...

− Há quantos anos a sua Madalena partiu?

− Minha Madalena, ah, minha Madalena! Onze anos sem ela. Ficou fula da vida, quando soube da traição de Angélica.

− Angélica escolheu o caminho dela. Talvez tenha morri­do antes de ser chamada por Deus, e eu envelheço como se sofresse por ela o castigo Dele.  Esse calor... Esse calor me lembra a última vez que fui ao cinema, assistir a um filme; Faça a coisa certa. Era muito calor dentro da tela. Mataram um negro nesse filme.

− Dentro do cinema, Melqui?

− Não, no filme, Joaquim.

− Hum, era faroeste?

− Não.

− Às vezes, me passo com filmes, lembro que foi John Wayne, escondido, que atirou no facínora...

− Facínoras merecem morrer... Hum... Parece que o mundo está sendo tomado por uma revolução dos espíri­tos, velho Joaquim.

− Dos espíritos, Melqui?

− Os espíritos que comandam o Universo e a mente do homem.

− Vou sair com as brancas.

− Minha filha Alice, antes de ir para o estrangeiro, con­versou comigo. E me disse uma coisa estranha...

− Alice? O que ela falou?

− Disse que existe algo no Universo que encaminha o ser humano. Uma forma do outro mundo, sei lá... Um tal de Anunnaki...

− O que é isso, Melqui? Quem encaminha o homem não é Deus?

− Não faço ideia, Joaquim, ela falou muito brevemente, depois deve ter visto minha cara de ignorante e parou de falar. Mas acho que é algo sobre... Sabe de uma coisa, se Deus nos fez a sua imagem e semelhança, ele deve estar muito perturbado...

Do outro lado, um taxista que usava bigodes em toda a extensão da boca, sozinho e alheio, futucava a narina com o indicador. Depois, olhava sem anseios em direção ao ta­buleiro de damas e limpava o dedo no paralamas do carro ao lado do seu. Comentou de si para si:

       − Deus me livre acabar desse jeito. Dois velhos pa­nacas jogando damas, não devem ter nada para dizer um ao outro, o mundo acaba, e eles morrem sem dizer nada que preste. Gente assim deveria ser eliminada pela dita­dura do proletariado, não produz... Só pensa em receber a aposentadoria do Estado.

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