O MAÇO DE CIGARROS
Enquanto o sargento Glober bebia, de um gole só, a dose
de conhaque servida pelo garçom, André, do bar no Largo dos Paranhos, o apelidado
Gordo, cliente contumaz, que sempre andava com cabelo preso num rabo de cavalo e levava consigo
um maço de cigarros tipo boxe recheado de baseados, observava-o da sua mesa,
curioso e, ao mesmo tempo, hesitante. Escamoteava, por trás de uma vitrine, uma
estufa de salgados, que ficava em cima do balcão.
A viatura estava parada ao lado do estabelecimento,
virada no sentido para sair da Rua Cosme de Farias. Um dos policiais estava
dentro do carro; os outros dois, conversando do lado de fora, encostados no
paralamas, um deles fumando nervosamente. Aquela dose era a terceira do
sargento durante a ronda que faziam. Gordo mirava e ria cinicamente,
arquitetava um flagrante no policial que bebia em serviço. Manuseou o telefone
celular cheio de aplicativos, procurando um ângulo para registrar a
fotografia. A estufa de salgados, logo à frente, dificultava a limpidez da
imagem.
Dentro do bar, além do Gordo, os clientes eram um paulista
e um professor que dizia ter morrido e voltado do mundo cadavérico, gaiato bravateiro.
Na penumbra do fundo do balcão, protegido, o experiente
sargento bebeu o seu conhaque. Depois, sem olhar na direção em que os outros
clientes estavam, se retirou, levando consigo um saco com quatro latões de
cerveja. O Gordo então se levantou e foi ao banheiro, passando pelo exato local
onde o sargento ficou de pé há poucos instantes.
− André, esse sargento é descarado, viu !
− Isso é direto, toda hora ele vem aqui e derruba um
conhaque...
− Essa situação em que os pretos e pobres se encontram
tem que acabar − o Gordo disse, alto.
− Como assim? − perguntou um dos clientes do bar Santa
Bárbara, um bêbado contumaz, dono de um rosto inchado, intumescido, muito
parecido com o dos mendigos que serviram de personagens para que um escritor
paulista ganhasse o Prêmio Jabuti.
O Gordo não soube responder objetivamente à questão do
bêbado com o rosto inchado, mas disse que a sociedade não poderia permitir que
um sargento que comandava uma guarnição policial bebesse em serviço. Outro
cliente gritou:
− Isso é coisa de preto, só pode. Com aquela farda, é o
primeiro a burlar as leis...
Era um mulato de feições duras, sem estudo, situação
comum naquele ambiente sempre animado pela voz esganiçada de Pablo do Arrocha.
− Isso é uma questão cultural, no planeta inteiro – respondeu
o professor, que estava sentado numa mesa ao lado de uma das portas do
estabelecimento. − Nunca entendi e não sei qual a diferença entre um negro e um
branco, a não ser a cútis. Psicologicamente, podem ser parecidos, um tem mais
estudo, o outro não tem. Um é mais forte fisicamente, o outro sabe fazer
cálculos matemáticos. Então, não sei pra que tanta celeuma e crueldade em torno
da cor da pele... E concordo com você
sobre o fato do policial burlar leis, beber enquanto fardado, mas daí a abrir a
boca e dizer em voz alta que isso é coisa de preto, meu filho, é foda!
− Desculpe, não falei para chatear ninguém.
− Professor, a sua indignação com o racismo é pertinente,
mas, na real, sabe o que acontece? − perguntou o Gordo. − Quando um sargento
como esse, que também é negro, sai para a ronda em revista policial, o primeiro
negro que ele encontra, dá logo um baculejo nele. Já passei por isso.
− Gordo, você não é preto.
− Não sou, mas é como se fosse. E o que esse daí fez? Na
maior cara de pau, entornou uma talagada de conhaque e ainda levou quatro
latões de cerveja para entornar dentro da viatura. E sou eu, você, o professor
ali e todo mundo por aqui que trabalha e produz quem paga os impostos e o
salário dele. Quatro, não foi, André?
− Quatro − respondeu o garçom, olhando ao redor.
− Se uma viatura dessas, no meio da noite, encontra um
negão desavisado... Se por um acaso ele estiver sem documento... Ai, ai,
coitado do negão, vai levar umas bordoadas daquelas.
− Não precisa nem ser um negão desavisado, ô paulista!
Pode ser qualquer um de nós aqui, trabalhadores. Você vai confiar no sargento,
quando sentir o bafo de cachaça dele? − perguntou o Gordo.
− Só bafo de cachaça? E os que cheiram e as
porras? − o paulista falou e olhou pro Gordo. − Tem que ver esse lado, né,
Gordo?
− Não entendi − o Gordo respondeu.
− Não?... Você dirige caminhão, táxi, é motorista profissional,
trabalhador, beleza, mas na hora do baculejo, o que acontece se você estiver
com esse maço de cigarros aí em seu bolso?
Houve um silêncio e todos os olhares foram para o bolso
do Gordo.
− Esse é o outro lado − continuou o Paulista −, estamos
descendo o pau aqui nos policiais, porque um sargento estava bebendo em
serviço, mas, e se um trabalhador estiver com cinco, seis baseados no bolso, ou
travado de raios enlouquecidos, ainda assim é somente trabalhador?
− Aí, já não é comigo − André disse em voz alta de trás
do balcão, rindo, apontando para o Gordo, que também começou a rir e
inutilmente tentava esconder o conteúdo do seu bolso.
O professor se levantou e se retirou, como se a conversa
tivesse se encerrado. O paulista olhou para o Gordo, que coçava o queixo,
escondido por detrás dos óculos escuros comprados no camelô, rindo levemente de
boca fechada. André lavava os copos na pia e continuava sorrindo em silêncio.
− Você é um otário desmancha-prazeres mesmo, viu, velho!
− o Gordo disse em seguida: − Que porra veio fazer aqui no Nordeste? Precisava
falar do meu maço de cigarros? Depois venha para cá, me pedir um, para tirar
sua cara, viu!
O paulista jogou-se na cadeira de uma das mesas do bar,
como se estivesse abatido e reconhecesse a desnecessidade de sua fala.
A viatura do sargento Glober, por essa hora, passava
novamente diante do bar, mas dessa vez bem devagar, os soldados do banco
traseiro olhando para dentro do estabelecimento. Encostou sem alarde no mesmo
lugar de antes. O sargento desceu, foi até o bar e pediu a André duas
garrafinhas de água. Quando já estava na porta, parou e olhou para o Gordo.
Então foi até ele e disse, olhando para o bolso da camisa:
− Cidadão, me consiga um desses cigarros seus. Devolverei
em dobro tão logo volte aqui...
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