DOZE VEZES
Conheci Joel numa aula do curso de Eletrotécnica. Ele tinha uma testa saliente e um olhar perscrutador, sonso e esquivo. Tornamo-nos amigos e confidentes. Desde essa época, ele tinha a mania de estrangeirismos em sua interlocução. Não raras foram as vezes em que, no meio de nossa conversa sempre filosófica, ele me saía com um “hombre” ou “nosostros”. Ou, quando estávamos contando o pouco dinheiro que nos restou para beber mais, e ele então misturava italiano e português ao já conhecido espanhol: “Hombre, andiamo, a beber uma birra questo”. Eram hilárias aquelas situações. Havia, também, a sedução do seu inglês fajuto: “What a beautiful woman, hein boy?!”
Joel era um grande amigo: se fazia de marrento, mas
tinha um coração gigantesco. Certa feita, me contou que namorava duas de suas
vizinhas, cada uma delas morando em uma extremidade da rua. Como ele mesmo
dizia:
– A federal no norte, a estadual no sul, Antoninho, para
não ter briga, hombre.
Não faço ideia de como ele discernia federal, estadual,
tampouco municipal. Disse-me, ainda, que os dois cunhados não gostavam dele,
por razões óbvias. No entanto, durante o futebol da garotada, eles o
admiravam. Joel era um curinga, desses que jogam em qualquer posição, até no
gol.
Acabei contando a ele sobre o meu amor por Ana Paula.
Falei que tinha tudo para dar certo, que éramos correspondidos, mas que, numa
dessas guinadas da vida, desaparecemos um para o outro. Ele me olhava e me
dizia, rindo:
– Hombre,
hombre!
Nunca soube o real significado daquele riso.
No curso, não me dava bem com Física, Química, nem
Matemática. Em uma das minhas primeiras aulas práticas, fui motivo de chacota
da turma inteira. Até Joel riu. Fui o único que tomou choque por eletricidade
estática. Depois soube que era comum, quase todos os eletricistas tomam. Mas,
como não conseguia melhorar, resolvi tentar outra coisa; e tentei de tudo, até
me transformei no personal trainer de uma cantora de axé. Joel continuou
no curso e acabou se formando.
Um dia, duas décadas e meia depois, andando pela Pedra
Furada, lá na Cidade Baixa de Salvador, entre a Ribeira e a Ponta de Humaitá,
nos encontramos. Uma bela morena o acompanhava, seu nome era Gilmara.
Conversamos muito, e ele acabou perguntando sobre Ana Paula. Falei que a tinha
encontrado num desses sites de relacionamento − coisa que odeio, mas de
que preciso para divulgar meu trabalho. Saí com ele, e entornamos copos e mais
copos de cerveja.
– Ela continua bonita?
– Como antes.
– Oh, my God, Antoninho!… Casada?
– No perfil estava separada, com filhos...
– What a pity, man! Sua história, man, é
dessas que nos deixam intrigados. Toda história de hombres e mujeres deveria
ser escrita como Romeu e Julieta.
– Todas as coisas, os fatos do mundo, são naturais −
respondi −, mesmo que nos deixem estarrecidos. A toda hora ocorrem
desencontros. Quem sabe, um dia desses, eu encontre uma boa mulher para viver
comigo. Depois, convenço alguém a escrever a nossa história de amor.
– Oh, yes!
– Por falar nisso, você está muito bem acompanhado.
Gilmara agradeceu o meu elogio com um sorriso. Era
realmente muito bonita, olhos lânguidos, débeis e tristes, pedintes de amor,
como se ela estivesse sempre sobre travesseiros. Cabelos negros e lisos, como
os de uma índia, e um corpo que parecia macio e suculento. Por um momento,
voltei meu olhar para Joel e vi que ele a olhava orgulhoso, um riso safado
estampado no rosto, muito parecido com o riso que me oferecia quando
conversávamos a respeito de Ana Paula. Pensei num dia, quando ainda estudávamos
os nêutrons e as fases da eletricidade; íamos beber cachaça com refrigerante de
laranja, e contávamos se tínhamos dinheiro para nos embriagar. Uma mulher
apareceu não se sabe de onde, trocou quatro frases com Joel e se atracaram num
beijo que durou quinze minutos. Logo depois, desapareceu. Ele nunca me disse o
conteúdo daquelas frases, nem eu perguntei. Saímos muitos dias à procura
daquela mulher misteriosa. Nunca a reencontramos.
Mas eu estava agora naquela mesa, anos depois. Via a
cumplicidade de Joel e Gilmara. Perguntei como eles haviam se conhecido. E foi
assim que eu soube da história toda.
− Sempre faço um tour pela cidade baixa quando
estou de folga da Petrobrás, você sabe, então, fui beber por ali, por aqui − Joel falou.
Ele bebeu pela Calçada, nas imediações da Leste Férrea.
Bebeu nos Mares, no Largo de Roma e no Caminho de Areia, na Praia do Cantagalo,
até que chegou ao boteco da mãe de Gilmara, lá em Maçaranduba, perto da Baixa
do Petróleo. Ao passar, viu a silhueta da jovem e sentiu uma tristeza naquele
corpo, e pensou que todas as belas mulheres eram tristes, porém indeléveis.
Joel e seu Ray Ban clássico, sua camiseta de meia que salientava sua boa
forma aos quarenta e cinco anos, tênis Nike e bermuda jeans, exclamou
para ele próprio: “ A beatiful woman, my God!”
– Aí comecei a freqüentar aquele cacete armado que a mãe
de Gilmara tem... Você sabe... fuck her.
– Sim, claro.
– Assim que a vi com essas ancas, com esses olhos acanhados,
débeis, de soslaio, sempre nas laterais dos cílios, calada e servindo a todos
como Penélope Cruz servia naquele filme, Volver, fiquei como um raio
enlouquecido... E aquela onda máscula, irracional, animal, que arrebata um
homem, tomou conta de mim... Talvez tenha lhe faltado isso para ter a sua Ana
Paula, Antoninho, maybe, maybe.
– Só isso bastou para conseguir Gilmara?
– Não, não foi só isso. Foram três meses de negociação,
até fecharmos o negócio.
– Negócio?
– O negócio que fiz com a mãe dela, Antoninho: a espelunca
da velha lá em Maçaranduba estava caindo aos pedaços, o que sustentava era uma
geladeira velha que mal gelava a cerveja. Conversa vem, conversa vai, a coroa
me pediu para comprar uma geladeira no meu nome, e me instruiu a pagar em doze
vezes.
– E aí?
– Aí que eu comprei a geladeira, novinha, duplex, com freezer
e as porras. Passo uma noite por mês com a Gilmara. No final, serão doze
vezes. Entendeu?
– Entendi...
– As coisas estão difíceis, você sabe, e eu junto o útil
ao agradável. Nosotros tenemos que ajudar, não é, hombre?
– E eu aqui pensando que você estava apaixonado...
– Estou é muito triste. Hoje terminam as prestações da
geladeira.
– Hoje?
– Isso, today, doze vezes. Twelve.
– Vai encerrar o contrato?
– Não. Gilmara é boa pra mim. Vou perguntar pra velha se
ela agora quer trocar de fogão.
Eccelente texto muito solto
ResponderExcluirLeve e fluido ...