ZUCO & ZUCA
Zuco completou cinquenta e quatro
anos na última semana. Há cinco, tornou-se alcoólatra, depois de encontrar a
mulher debaixo de um jovem universitário que estagiava sob sua égide. Naquele
dia, a vida acabava, mesmo com os trinta salários mínimos que ganhava: era
coordenador de alguma coisa numa das empresas que compunham o Polo Petroquímico
de Camaçari.
Respeitado por todos, era, no fundo, um homem só. Até
que se apaixonou por Edelzuíta, que carinhosamente passou a tratar por Zuca.
Conheceu-a no puteiro da Gameleira, perto da Ladeira da Montanha e da Praça
Castro Alves. Bonita, olhos tristes, que pareciam mel, e lábios carnudos, assim
como sua vagina de clitóris estufado. Prostituta de porte, esguia, com ancas
empinadas e remelexo tentador, além de olhar fatal de quimera. A devoradora de
homens prometeu amor eterno e fidelidade. Zuco acreditou. Construiu uma casa
com tijolos de vidro entre as paredes que dividiam a sala de visitas da cozinha
americana, dois andares, cinco quartos, todos com suítes, tudo lá em Cosme de
Farias, bairro onde ele nasceu. Dizem as línguas, aliás, que Cosme de Farias é
o paraíso das prostitutas hoje em dia. Há, inclusive, o pensamento de que o
próprio Cosme de Farias, conhecido como advogado dos pobres, sujeito de ilibada
conduta e de caráter acima da ordem, caso vivo estivesse, aceitaria e daria
guarida e proteção às moças que tanto servem aos homens com ternura e prazer.
Zuco e Zuca viviam bem, eram anfitriões em festas fartas
de bebidas e comidas, festas em que as antigas colegas de profissão da mulher
se esbaldavam com os operadores do Polo de Camaçari e o pessoal do sindicato,
sempre ao som do pagode baiano e das vozes desafinadas do arrocha.
Mas então houve a traição com o jovem bambino, que um
dia foi convidado para uma dessas festas, e que explorava as caldeiras do
Polo. Zuco não suportou. Chorou muito e bebeu por vinte e um dias seguidos.
Quem entende, dizem que esse é um número cabalístico do candomblé e de outras seitas.
Não que o candomblé ou as entidades da natureza tivessem algo a ver com a falha
amorosa de que ele foi vítima, no entanto, uma das putas velhas que organizava
o rendez-vous, e que se dizia vidente, vaticinou:
− Estás fadado a seguir os Exus mais malfeitores que
foram plantados para atingir a sua mulher... Muita inveja desse povo, meu
filho!
Zuco, além de não se esquecer daquelas palavras, descobriu
ainda, logo após o flagrante, que Edelzuíta fazia aquilo há muito tempo. O
primeiro a lhe contar foi o porteiro, Gumercindo, que disse também ter sido
seduzido, mas que não cedeu por consideração. Aos poucos, tudo perecia aos seus
olhos. Por dentro, Zuco era uma gruta oca e escura, onde ecoava a todo o
instante a palavra “corno”, como um estribilho de carnaval. Começou, então, a
beber − desde as sete da manhã −, esqueceu-se do Polo Petroquímico, e o
dinheiro acabou. A revolta era tão gigantesca e intensa, que toda vez que se
mirava ao espelho percebia duas protuberâncias nas extremidades da testa. Às vezes,
apenas uma, no meio, como se fosse o chifre de um unicórnio.
Zuco, encachaçado, em certa noite de desespero, arriou
as calças e pediu para Gumercindo, o porteiro amigo, que desta vez não tivesse
consideração e lhe deflorasse como uma periguete safada. Gumercindo estranhou a
linguagem usada pelo amigo e, diante daquele ânus enrugado, daquela cena
grotesca, sentiu nojo. Nisso, Zuco, além de perder a amizade do porteiro,
sofreu todo tipo de boataria: havia quem atestasse no bairro que a mulher do
porteiro, a gorda Nilza, tinha mesmo flagrado os dois juntos. E havia ainda
quem dissesse que Gumercindo fora o maior amante que Edelzuíta já tivera por
aquelas bandas. E que os dois, enquanto Zuco trabalhava, e Gumercindo dizia à
mulher que ia comprar bucho e unha de mocotó pra fazer pirão, viviam enroscados
numa cama do casal, como se estivessem em uma cena em que Woody Allen dirigiria
sem nenhum pudor.
Verdade ou não, o fato é que os dois sumiram de Cosme de
Farias.
Zuco tornou-se um homem a cada dia mais sensível, mais
pobre e alcoólatra. Perdeu a conta no banco do qual era cliente há anos, conta
que abriu ainda muito jovem, trabalhando numa livraria na Praça da Sé, nos
áureos tempos em que os escritores eram lidos e suas obras eram faladas e
discutidas em cada canto da Bahia. Tempos remotos. Hoje, a literatura é
desdenhada pela Secretaria de Cultura, que decide oferecer ao povo, em geral,
música de quadril, para ninguém pensar e, por fim, não dar falta das Letras que
podem transformar. O que restou naquele momento para Zuco foram apenas a bebida
e a poesia: bebia em copos plásticos e declamava versos de Vinícius de Moraes e
Neruda, que leu e memorizou nas horas de folga na biblioteca do Polo
Petroquímico, sonhando com a sua cara-metade. A poesia amorosa fazia todos os
integrantes do Sindicato da Cachaça chorar suas dores de cornos saudosos.
Passou a dormir num quarto imundo, em companhia de
Sabará e Nariz de Venta, dois atuantes sindicalistas de rostos intumescidos.
Durante o dia, Zuco esmolava até conseguir o dinheiro de duas ou três
“bombinhas” de cachaça. Coisa pouca, no máximo dez reais, não demorava a conseguir.
Ao entrar em alta embriaguez, clamava por Zuca, a voz embargada, chorando a dor
mais doída e cornuda que a Rua Cosme de Farias já atestou. Bebia tanto, que, às
vezes, não conseguia chegar ao quartinho e dormia pela rua mesmo. Um pastor de
uma igreja evangélica, que se dizia ex-ladrão e ex-maconheiro, comentou na
igreja que vira da sua janela, às duas da manhã, Zuco sendo currado por dois ladrões
pretos. A conversa ganhou a rua inteira, pois beatos e beatas não guardam
segredo − são crentes, não carregam dúvidas.
Em face disso, depois dessa suposta falácia, Zuco passou
a ser carregado todos os dias por Nariz de Venta, que era o mais forte e o que
mais demorava a ficar bêbado. Quando o dia ainda não dava bolas para o sol, e
antes de começarem a mendicância, já estavam Zuco e Nariz de Venta em
diligência, procurando garrafas de cachaça, arriadas nos trabalhos de candomblé
para o Exu Tranca-Rua. Um dia, Sabará conseguiu se levantar a tempo de
acompanhar a empreitada. Pobre Sabará. Meio dormindo, meio acordado, ao chegar
à encruzilhada, deu para tremer e urinou-se. Começou a gaguejar e disse que
estava vendo o Exu entornar a garrafa que estava no balaio e que, a princípio,
pertencia à entidade.
– Virge Nossa senhora, valei-me meu pai!... −
gritou.
– O que é homem?!
– O bicho tá ali!... O bicho tá ali!...
– Sabará, isso é delirium... – disse Zuco.
– Ele tá vindo, é horrível, tá dizendo que é a própria
desgraça e quer pegar você, Zuco, porque a ideia foi sua... A ideia foi sua,
ele tá dizendo... Virge Nossa Senhora, tá bem aqui... Ele sabe de tudo...
– Que ideia! − Zuco falou, zangado.
Sabará começou então a passar mal, a se contorcer, depois
colocou a mão sobre o coração e, de repente, sem aviso, morreu ali mesmo.
Tempos depois, uma Mãe de Santo lá da Baixa do Brongo,
em Brotas, numa das subidas do Bonocô, disse que o Exu Tranca-Rua chegou ao
inferno puxando Sabará por uma coleira, e o diabo em pessoa o recebeu. Mesmo
assim, não satisfeito, soltou fogo pelas ventas horríveis e gritou alto, do
mundo infernal, como se fosse para Cristo Nosso Senhor ouvir lá em cima em seu
paraíso: “Eu quero o outro, não este desgraçado com bafo de combustível e cara
de oreba...” A ira das trevas foi tão grande que os quartinhos dos exus em
todos os candomblés da Bahia chegaram à temperatura de cem graus.
As palavras e a cara de horror do morto não saíam da
cabeça de Nariz de Venta, que um dia viu a própria mulher receber uma entidade
que a domesticou como cavalo e disse-lhe, debochada, que usaria o corpo da sua
esposa para se divertir. Dias depois, a mulher passou a se comportar como uma
Messalina da aridez baiana. Nariz de Venta foi corneado em toda e qualquer situação,
principalmente nesses lugares onde todos rebolam e se esfregam, ao som de
péssima qualidade oferecido pelas rádios, inflados e incentivados pelos órgãos
públicos de cultura da Bahia. Ao que parece, sustentam-se em conluio com
gravadoras, sempre prezando o lucro. A mulher de Nariz de Venta, por seu lado,
não podia ver um homem que arrastava para um canto, qualquer que fosse o homem
ou o canto.
Fizeram um evento monástico em homenagem a Sabará. Tudo
em nome daquele que fora seminarista anos atrás por imposição e promessa de mãe
e depois rebelou-se do rebanho e viveu dizendo que Deus não existia, metafórico
e irônico como um filósofo alemão, ou Zaratustra, que descia da montanha.
Morreu e teve a certeza de que, se Deus não existe, o diabo o recebeu em
pessoa.
Três meses depois, Zuco e Nariz de Venta andavam a esmo
pela madrugada, numa passarela do Bonocô, lá perto do Brongo, numa boca de
maconha e cocaína, quando, de repente, a mãe de santo Licinha de Yansã
apareceu.
– Vim avisar, porque vocês, apesar de miseráveis, são
gente boa − ela disse. − O diabo e seus exus estão na escuta, não bebam mais a
cachaça deles.
– Pra mim o diabo é tão insignificante quanto o campeonato
baiano de futebol − Zuco respondeu.
Nariz de Venta e Zuco gargalharam e seguiram, sem levar
em conta o que a mãe de santo falou. Não demorou muito, ao atravessar uma
encruzilhada, um homem que usava um chapéu cobrindo todo o rosto e um sobretudo
negro, escuro como a noite, se aproximou deles.
– É a hora de levar vocês − o homem falou.
Era franzino, aparentava pouca ou nenhuma força, mas de
repente pegou os dois e os ergueu, um em cada braço, com relativa facilidade,
ante os olhos cheios de medo, de terror e, agora, crédulos, dos dois amigos.
Raios enlouquecidos explodiram no céu da Bahia naquele mesmo instante. Sem
esboçar reação, Zuco deixou-se levar naquela viagem sobrenatural. Seu corpo foi
levado e em pouco tempo estava num outro lugar. O inferno, talvez. Era quente
ali e imediatamente lembrou-se do italiano que escreveu um poema em que dizia
que ali era o lugar de equilibrar a balança da justiça, não somente de tortura,
punição e sofrimento.
– Não tenho mais medo de mim, nem da traição de Zuca, de
mais nada. Nem mesmo de você, criatura horrenda!... − Zuco de repente gritou e
depois deu uma gargalhada.
E o diabo, ao se deparar com uma alma indomável, fez a
única coisa que podia fazer: voltou para o céu.
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