LAVAGEM DO BONFIM
Quinta feira, 14 de janeiro, seria a Lavagem do Bonfim. Tradicional festa da Bahia. É praticamente a Lavagem do Bonfim que dá início ao carnaval de Salvador. Infelizmente não iremos agradecer ao Senhor do Bonfim com nossa peregrinação. Não faremos os oito quilometros a pé até a Colina Sagrada, o vírus não deixou. Mas, ainda assim, ele,nosso Santo Sagrado, nos protegerá como sempre protegeu. Em homenagem ao Nosso Senhor publico o conto LAVAGEM DO BONFIM. Escrito em 2011 e que faz parte do livro BACULEJO
Era a segunda quinta-feira do ano
novo. Um janeiro de sol escaldante queimava as pestanas e o couro cabeludo dos
mortais na Bahia, na cidade do São Salvador. Afonso Henrique vinha de uma
noitada regada a pó e Red Label, além de conversas e conjecturas furtivas sobre
a existência. Achava a discussão sobre a vida, sobretudo a alheia, sempre
inútil, mas era o que escutava nas ruas. Tinha dúvidas se em outros lugares,
dentro de uma academia literária, por exemplo, as pessoas também competiam o
tempo inteiro.
− Imagine se escritores vão perder tempo tentando desqualificar
o trabalho de outros escritores... Que nada! Isso é coisa de quem não lê! −
falava para si mesmo, naquela manhã de sol e festa.
Outra suspeita que tinha era a respeito da caretice humana,
da falta de uma loucura natural. Ou o não reconhecimento de uma insanidade
habitual, por boa parte dos homens. E isso era preocupante para ele.
− Gostaria que aqueles caras lessem Bukowski ou Hunter
Thompson, pelo menos poderíamos cheirar um pó do bom, daqueles que trava os
dentes e acelera o cérebro, e então conversaríamos sobre algo que seja, de
fato, alimento para a alma − Afonso Henrique caminhava e falava, consigo
mesmo.
Depois de amanhecido o dia, ele desceu sozinho a Ladeira
da Misericórdia, declive espremido entre a Praça da Sé e a Praça Municipal,
sede da prefeitura, coração da cidade. Como se houvesse misericórdia naqueles
paralelepípedos escorregadios. Cansado, alquebrado, mas sem sono, consumido
pela droga, desistiu de ir para casa e resolveu assistir ao cortejo da Lavagem
do Bonfim: Afonso, quando não estava em sua loja de venda e conserto de
relógios, na Praça da Sé, ou lendo poemas escrotos, andava nos becos da cidade.
Conhecia gatunos, putas, traficantes e muitos botecos imundos. Lembrou o
Palácio dos Gatos, das vezes que foi ali na companhia de seu pai, quando ele
ainda vivia. Era um bar escondido no Comércio, rolava jogo de bicho, maconha e
muita cachaça. Durante a festa do Bonfim, o Palácio dos Gatos era muito
frequentado por maridos que se escondiam dos flagrantes.
Afonso portava no bolso uma trouxinha de cocaína, que
sobrou da noite de raios enlouquecidos.
Era solitário como um poeta desesperado. Gostava de se isolar. Para ele, era a
poesia que o fazia ser daquela forma; a poesia causava a deformidade do ser
humano. Bukowski, Poe e Drummond eram suas más companhias.
Alguns dias, no entanto, Marilyn Monroe surgia na sua
mente, como se fosse ele que estivesse pegando aquele ventinho debaixo da saia.
Em outros, era a encarnação de William Foster, composto por Michael Douglas em Um
dia de fúria. Ele próprio chegou à conclusão de que sua normalidade
variava nesses termos. Não raro, conseguia ouvir os clientes, ao se afastarem
de sua lojinha:
− Rapaz estranho, este.
Naquela manhã, sentiu a necessidade de seguir o cortejo
profano. Não ligava para a religiosidade da festa, nem para a fé do povo,
apesar de achar algo bonito, mas nos outros. Queria observar as nuances.
Libido, álcool, profanação, fé. Misericórdia na ladeira.
Durante a descida, olhava para uma negra roliça, com
seios pontudos e visíveis por baixo da camiseta alva. Ela olhava para ele
também.
– Procurando você.
– Eu? – perguntou Afonso, ainda sob o efeito dos alucinógenos
e do sol escaldante.
– Sim...
Afonso não era misógino, nem gay, mas sua natural
estranheza afastava as mulheres comuns. Por isso se surpreendeu com o assédio
de Paula, era esse o nome dela. Trabalhava como apontadora de jogo de bicho na
Rua do Palácio dos Gatos. Tinha vinte e seis anos. Afonso sentiu-se especial,
porque ela o queria, ela o procurava, embora apenas se olhassem sem nada
falar.
Ao longe, turistas muito brancos e sorridentes desciam
de um navio transatlântico no Porto do Terminal da França e misturavam-se
imediatamente à multidão. Alguns certamente pensavam que participavam de uma
festa com nativos recém-chegados à civilização. Para aqueles, aliás, em maior
número, diga-se, aquela baianada ainda tinha muito o que aprender. Com a
desculpa de uma mijada, Afonso procurou um dos becos do Comércio, paralelos e
transversais à festa, longe de toda e qualquer patrulha policial, que insistia
em passear pelo meio do cortejo para defender políticos gaiatos, gatunos e
maganões, que babavam por votos nas próximas eleições. As patrulhas vinham
pelos flancos − às vezes, para extorquir −, também de helicóptero ou à paisana.
Afonso aproveitou o pouco movimento, derramou a cocaína nas costas da mão e, experiente
como um drogado decano, cheirou uma rapa gordinha, na rua mesmo, atrás do
restaurante Colon.
– Nem me chamou − era Paula que vinha logo atrás.
– O que, menina?
– Bate uma pra mim.
– Uma?
– Um raio louco, eu te vi cheirando.
Afonso olhou para Paula, resignado, cheio de coragem
momentânea, e encarou aqueles olhos marrons. Conhecia aquela sensação.
– Está certo, então.
Usando sempre as costas da mão, dois raios finos para
ela, um gordo para ele. Depois, jogou fora o plástico que restou da trouxinha,
e voltaram fungando para um amontoado junto à caixa de cervejas. Aquela
parafernália que zoava alto, uma música chamada arrocha, e, ao lado
dela, uma outra com um pagode estúpido. Um dia, um fulano apresentou-se em sua
loja, disse que era jornalista e contou a Afonso o que ele já desconfiava:
“Existem coisas que a gente não pode nem deve ir de encontro. Eu, por exemplo,
odeio esses caras do pagode envenenado da Bahia, são todos uns bundões, mas
que jeito? O dono do jornal diz para fazer uma entrevista ou uma reportagem com
MC fulaninho Zumbi, Zé Mané do arrocha ou sucker do pagode, e é isso
que o povo quer”.
A fala do jornalista voltou à sua mente naquele momento.
– O que quer fazer? − Paula perguntou.
– Nada. Ficar aqui parado, olhando, em silêncio.
– Silêncio, aqui?
– Dentro de mim há um barulho infernal, maior do que
esse que você escuta.
– Faz sexo comigo?
– Faço.
Um grupo de jovens bem afeiçoados, usando camisa de um
evento festivo que acontecia no lado rico da Lavagem do Bonfim − sem tradição,
sem comprometimento −, dançava, adestrado por um musculoso maestro, que
rebolava sem parar em cima de um caminhão. Talvez ninguém ali soubesse onde se
situava a colina à qual a imagem era levada para descansar depois do cortejo.
Homens travestidos de mulher alegravam uns, chateavam outros. Afonso sentia o
casulo que o envolvia fechar-se para o mundo outra vez. Como sempre. E ele se
trancava. Todavia, antes que o casulo fechasse completamente, Paula o tomou
pelo braço. E juntos subiram a Ladeira da Misericórdia...
Conto fantástico!
ResponderExcluirPalácio dos Gatos, tudo a ver meu grande amigo. Parabéns!
Muito bom! Fiquei impressionado com a continuidade e a cadência do enredo. Gosto bastante da Bahia comum e popular principalmente da mais antiga que tinha mais personalidade.
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