O RISO IRÔNICO DE CHUCK BERRY EM FRENTE AO RELÓGIO DE SÃO PEDRO
Já é carnaval cidade, dizia a canção dos anos oitenta em Salvador. Na época, as máscaras caiam na foliam e era liberação geral. É lamentável, mas muito dificilmente haverá novos carnavais. Há quem acredite... Bernard só acreditava no seu amor por Laura Caroline que dançava extasiada em cima de um trio elétrico.
Bernard não gostava de azeite de dendê. Comia feijão,
arroz, bife ao molho e ovo frito. Misturava tudo, jogava farinha e molho de
pimenta em cima. Quando comia macarrão ao alho e óleo, pedia também bife de
caldo ou bisteca de porco assada, sem farinha. Não bebia nada durante o
almoço. No entanto, antes de comer, e também algumas horas depois, adorava
beber vinho seco, escutando uma boa música − Blues, Jazz, Rock’n Roll.
Começou a ouvir aquilo com Dilton, seu pai, e jamais procurou outro tipo de
música, o que o transformava num ser estranho aos olhos de grande parte das
pessoas que vivia na Baía de Todos os Santos, onde a cerveja, o axé e o dendê
imperavam. Ultimamente, os pagodes com conotação sexual contaminavam até as
crianças, sem falar no famigerado arrocha, de vozes esganiçadas e desafinadas.
Bernard tinha dúvidas se a sua repulsa era simplesmente
uma questão de gosto ou se tinha alguma ligação com a esquizofrenia que herdara
do pai.
Bernard tinha um cachorro chamado Snoopy. De vez em
quando, já alto de vinho, derramava o vermelho na cuia do Snoopy e ficava
observando o cachorro repugnar-se frente ao líquido. No entanto, em sua viagem
esquizofrênica, o cachorro beberia, lamberia, derramaria o vinho e olharia,
descaradamente, com a língua para fora, como quem sorri para a cara rubra de
Bernard. Ele então delirava:
– O que os cachorros pensam, efetivamente, numa vida
triste e sem importância como a nossa?
Certamente, os cachorros não pensavam em beber vinho
com seus donos ou reunir-se numa matilha para trocar ideias sobre futebol ou
política canina. Bernard começou a achar, olhando inerte a garrafa de Carta
Vieja, com o líquido abaixo da metade, que todo ser humano tinha um quê de
cachorro em sua alma. Outra dúvida que, na alternância de lucidez e
esquizofrenia o assaltava, era se o cachorro, por sua vez, tinha algo de ser
humano também.
O velho Dilton, por essa época, roubava, extorquia, vendia
Rohypnol, cápsulas de cocaína e dolas de maconha no Largo Dois de Julho. Quando
não era assim, drogando-se, ia na base da boa conversa e das frases clássicas
que tirava de livros como A montanha mágica, Cem anos de solidão
ou Rei Lear, e conseguia manipular estudantes novinhas, calouras dos
cursos de Humanas, jovens atrizes (ou atores, já que não tinha preferência) que
bebiam na Avenida Sete de Setembro, Barris, Dois de Julho, Praça da Sé... Davam
tiros de cocaína dispostos sob o prato, ou sob o caderno, ou livros, como raios
enlouquecidos, e pensavam que ainda existia a boêmia romântica do centro da
cidade, não sabendo que ela havia morrido nos anos 1980, com o surgimento e
monopólio dos shoppings centers, do comércio plastificado.
Um dia, já adulto, um médico avaliou Bernard e constatou
a esquizofrenia. Bernard não conseguia se concentrar muito em tudo que era
dito sobre sua doença. Esse era mais um sintoma. Para o médico, suas reações
eram as mais claras possíveis. O rapaz tinha mesmo o problema. Por sorte,
Bernard não deu muita bola para o diagnóstico. E, com mais sorte ainda,
conseguiu, junto ao INSS, uma aposentadoria vitalícia, contando com a grande
ajuda de Dilton, seu pai, que adiantou para um dos médicos uma quantidade boa
de cocaína pura.
Aposentado, Bernard adquiriu o sobrado em frente ao
Relógio de São Pedro por uma bagatela. Diziam que todos aqueles casarões
estavam condenados a cair. As línguas da Bahia parecem saber de mais coisas do
que o próprio Criador.
Uma vez, antes de se aposentar, Bernard tentou um emprego
numa dessas lojas que encadeiam moda em varejo no país inteiro. Conferente
etiquetador de preços. Mandaram ele para o depósito da loja em Pirajá. O
gerente do lugar era linha dura, um sujeito sem escrúpulos, insensível e sem
remorsos. Acompanhou de esguelha, cheio de obliquidade, as primeiras semanas
de Bernard. E Bernard, por seu turno, se esforçava em fazer as coisas com
afinco, ainda que preocupado com a sua mente esquizofrênica e também com a
rinite aguda, pois qualquer bafo de poeira o fazia espirrar sem parar. Os dias
se passaram, e mandaram ele fazer a limpeza no fosso do elevador de carga. A
poeira era incondicional, naquele lugar. Um dia ali, e ele poderia estar morto.
Bernard se desesperou:
– NÃÃÃÃÃOOOO!
Todos pararam de trabalhar para ver o que tinha acontecido.
Para Bernard, porém, aquele grito foi a senha, o start, como se, ao
gritar, desobstruísse algo por dentro e libertasse um sentimento havia muito
tempo contido. Sentiu-se finalmente bem pela primeira vez em mais de vinte
anos.
Em seu sobrado na Praça do Relógio de São Pedro, em
frente à Fundação Politécnica, na Avenida Sete de Setembro, todos os anos, na
época do carnaval, apareciam os trios elétricos. Todos se divertiam ao redor e
em cima deles, dançando, cantando, rebolando, se esbaldando. Menos ele.
Durante os sete dias da festa da carne, Bernard sofria. Seu único amigo era
Snoopy. A algazarra, a algaravia, a zoada entravam no sobrado sem pedir licença.
O barulho era a fúria do mundo, quando não houvesse acordes de jazz e de blues.
Na Bahia, contudo, era impossível ter paz e não ouvir aquela parafernália, a
não ser com fones de ouvido. Pensou numa bomba. Faria terrorismo como os serial-killers
dos filmes americanos, aos quais assistia por conta do gato da tevê a cabo.
Tinha toda a trama bem arquitetada para aniquilar a população do axé, do
pagode, do arrocha e exterminar, de uma vez por todas, o que Roma deixou como
legado. Depois, o surto passou, e ele desistiu: descobriu que se explodisse o
Relógio de São Pedro, explodiria também a si mesmo e seu sobrado.
Debruçado na janela, soluçando às portas da bebedeira e
da indignação, ele então avistou Laura Caroline pela primeira vez.
Imediatamente, naquele domingo, todas as luzes que enfeitavam e clareavam a
madrugada da Avenida Sete transformaram-se num tom vermelho incandescente. Um
sentimento invadiu sua alma de punk esquizofrênico no calor da Bahia;
ele imediatamente retirou o fone do ouvido que, naquele momento, tocava Should
I stay or should I go, do The Clash, e passou a não ouvir nada, só obedecer
aos seus olhos que seguiam aquela Padilha de atributos físicos que deixavam
Bernard teso como um varão espartano. Laura Caroline era uma loura diaba, sua
imagem deliciosa era tão letal quanto a lâmina que Buñuel cortava o olho do cão
andaluz. A loura parecia sugar a energia de Bernard. Num esforço, sem os fones
que tocavam The Clash, Bernard conseguiu descer, quase flutuando, e
chegar até aquela loura, que fez seu coração disparar.
Quando o carnaval passou, Laura Caroline já estava no
sobrado com mala e roupas novas compradas por Bernard. A loura diaba percebeu
que havia algo errado com aquele homem, mas nada falou. E, então, Keith
Richards, Miles Davis e Sid Vicious, nos fones de ouvido, funcionavam como um delirium
para Bernard naquele mundo novo que ele achou, ou foi achado, cheio de axé
music e pagodão do inferno. Ele se sentava no braço da poltrona, nu da
cintura para baixo, de pau duro e metido numa camisa cinza, segurando uma
garrafa de Carta Vieja com a mão direita, masturbando-se com a esquerda,
enquanto a loura belzebu dançava o famigerado pagode, só de calcinha toda
enfiada na bunda, na sala do sobrado.
– Só para você, querido.
Laura Caroline era uma mulher despojada: gostava de
beber e de transar até esgotar o homem. Numa noite, quase ao fim do terceiro
mês morando com Bernard, ela se debruçou na janela com seus cabelos volumosos
de mechas douradas, o rosto oval, os lábios grossos e dois olhos pretos que
brilhavam para a lua cheia. Estava nua, e os seios grandes e duros, espremidos
entre os braços cruzados, apoiados no peitoril da janela, apontavam para as
estrelas. Foi nessa noite que avistou Bagaço, o tenente da Polícia Militar,
João Bagaço. Ele também a enxergou na janela, quando estacionava a sua moto
Honda NX 400i Falcon. Bernard, naquele instante, dormia.
A traição feminina se dá nas entrelinhas. Depois da aparição
do tenente, Laura Caroline mudou. Bernard não sabia se aquilo era a realidade
ou se estava sob efeito de algum surto. O vinho tinto deixava sua cara a cada
dia mais rubra, e as imagens iam e vinham deixando-o sem noção, sem definição
ou discernimento quanto àquela dor estranha que se acomodava no peito e na
testa. Laura Caroline não lhe dava a mesma atenção. Esquivava-se, desaparecia,
voltava cansada e descabelada. Em suas visões, ou talvez fosse o que de fato
acontecia, Bernard ouvia e via a mulher satanás soltando gritos guturais de
gozo, um pouco de mulher e de cadela, a porra de outro homem escorrendo da boca
de sua loura diaba.
Fardado e armado, numa noite, o tenente João Bagaço
bateu à porta de Bernard e disse apenas que tinha ido buscar a sua mulher.
Atônito, Bernard olhou para Laura Caroline, que sequer se despediu e foi logo
descendo as escadas com seu amado fardado, em direção ao quinto dos infernos.
Instantes depois, deitado de bruços, com o tronco, a
cabeça e o braço direito para fora da cama, olhando para a garrafa caída no
chão, junto à cuia de Snoopy, Bernard respirou e engoliu o amargor que sentia,
talvez potencializado pela sua esquizofrenia. De imediato, dentro dos dois
principais marcos de personalidade que o tomavam, a calmaria ou serenidade, e
o talento que tinha para perceber os detalhes no caráter das outras pessoas −
às vezes, em sintomas persecutórios −, não lhe serviram para fazer a interpretação
exata da loura diaba. Assim, bebia vinho e tomava cápsulas de fluoxetina.
Passou a ler mais e ouvir rock’n roll no último volume, como uma espécie
de vingança ao mundo dos normais, que gostavam de rebolar a bunda como se
estivessem no reino de Madagascar, inflados pelo Rei Julien, a mexer o culo.
Na madrugada, acordava assustado, procurava Laura Caroline no vazio da cama
ao seu lado, e então as imagens transformam-se em delírios literários, como
descobrir a diferença entre Machado de Assis e José de Alencar, ou outros
autores. Lembrava e sabia que existia uma diferença, mas não conseguia
delimitar ou detalhar. Sua cabeça, às vezes, era um liquidificador que batia
todas as informações. Assim, nos meandros literários que lhe assaltavam,
percebeu que o melhor seria continuar só.
Levantou e colocou um disco de Chuck Berry para tocar:
─ “C’est la vie, say the olf folks, it goes to
show you never can tell...” − Chuck cantava nas caixas de som como se
sorrisse.
Dilton chegou e sorriu, ao ver que o filho voltara à
vida que lhe ensinou. Beberam juntos um Carta Vieja e, por dentro,
Bernard sabia que não trairia mais os acordes do Rock e do Blues.
Bernard olhava, com sua cara rubra de vinho seco sob a luz refletida da lua, o
brilho lunar que refletia também o sobrado em frente ao Relógio de São Pedro,
naquela quente noite de verão em Salvador. Derramou um pouco de vinho na
vasilha de Snoopy e o cachorro foi lá e bebeu.
À noite, soube que um acidente levou Bagaço e a Loura
Belzebu para o inferno...
muito bom! tou jogando no facebook. por coincidência, hoje disse a uma pessoa no face. que não gostava das musicas, só ia ´pra libertinagem.
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