CASAMENTO NO SUBÚRBIO
Tito só se casou com Isabela porque
o pai lhe deu um ultimato.
− Ou você aparece aqui com uma mulher ou vai cair no
cacete − seu Luís disse, balançando o braço com os punhos cerrados.
Semanas depois, Isabela adentrava a casa, de mãos dadas
com Tito, que suava em bicas. A família morava em Itacaranha, subúrbio
ferroviário de Salvador. Seu Luís e dona Miriam fizeram gosto: a menina era
agradável, bonita, embora tímida, de cabelos escorridos. Ria para se defender.
Tito, por sua vez, sempre fora vistoso, numa mistura de claro e escuro − o
claro da mãe com o escuro do pai. Seus cabelos eram cacheados. Filho único.
Era uma época difícil para o casal Luís e Miriam. Seu
Luís trabalhava numa concessionária na Avenida Fernandes da Cunha, perto dos
Mares, na Cidade Baixa, para sustentar a mulher e o filho. Mas então os pais
de Miriam morreram em um acidente na Avenida Suburbana, nas imediações do
Lobato. Um acidente horrível, com uma carreta de cimento Aratu. Por isso, seu
Luís, além de cuidar de Tito, que contava então com sete anos, criou também a
cunhada, Carol.
Carolzinha era bonita, insinuante e atrevida, como se
levasse uma Lolita em seu inconsciente. Com o passar do tempo, suas formas se
avolumaram, tornearam-se. Esperta, percebia os olhares dos rapazes, quando
andava nas ruas. Entre treze e quatorze anos, a mesma idade de Dolores Haze,
de Nabokov, ao voltar da escola, parava na frente do espelho e olhava-se
minuciosamente. Tirava a roupa e passava a mão em todo o corpo, examinando o
rosto, o bico dos seios, o umbigo, o sexo. Empinava as nádegas, batia de leve
na bunda, rica em rigidez e consistência. Às vezes, terminava se excitando. Ia
para o celular, digitava, e então surgia o som de uma das bandas de pagode, que
começavam a despontar com violento sucesso. Na frente do espelho, dançava,
rebolava, fazia poses sensuais, biquinhos e mimos para um imaginário namorado.
Um dia, enquanto se preparava para uma tarde de fantasias, abriu repentinamente
a porta e se deparou com o primo.
− Tito, o que você está fazendo aí?!
− Oxe, nada, Carolzinha!
− Que roupas são essas? São minhas!... Tito, você está
vestindo as minhas roupas!...
− É que eu... queria ser igual a você.
− Há quanto tempo você me olha pela fechadura?
− Ah, não sei.
− Tito, você está vestido como uma menina. Que horror!
− Puxa, Carolzinha!
− Menino, pare com isso!
− Não sou menino.
− Você é, sim.
− Queria ser igual a você.
Carol ficou olhando para Tito, tão novo, metido naquelas
roupas.
− Você sentiu alguma coisa quando me olhava?
− Oxente, Carol, eu não, Deus me livre!
− Deus me livre, é?!
− É, eu não senti nada, não... Só queria te ver
dançando. Ver como é.
Daquele dia em diante, Carol e Tito, dentro do quarto
fechado, de frente para o espelho, passaram a dançar juntos o pagode envenenado
da Bahia. Ela lhe ensinava os principais passos e, às vezes, até o enfeitava.
Tito “quebrava” até o chão. Evidentemente, toda essa farra juvenil não era do
conhecimento de seu Luís e de dona Miriam.
Mas os tempos passaram, e subitamente Carol já não era
tão menina: tinha os cabelos escorridos até o meio das costas, os quadris iam
e vinham no passo a passo. Seu ponto de vista e os movimentos laterais dos
olhos eram peculiarmente femininos. Em sua vida de adolescente de dezessete
anos, erguia-se a sombra da mulher, assim como surgia Pedro, seu namorado. Não
se desgrudaram desde que se conheceram. Por isso, não demorou muito, Carol
apareceu grávida. Seu Luís bancou o casamento. Em seguida, fez um puxadinho bem
colado na casa, onde o jovem casal gemia frenética e desesperadamente todas as
noites. Meses depois, com ela ainda grávida, seguiram seu caminho para outras
bandas.
Ao fim do expediente na concessionária, seu Luís passava
no Bar dos Pescadores de Itacaranha, ele que também era pescador nos finais de
semana. Bebia cervejas com os amigos, a maioria de infância, e conversavam
sobre futebol ou sobre as suas vidas. Só perto das oito da noite ele chegava
em casa, jantava, ouvia a resenha esportiva no rádio e ia dormir.
Certa vez, sem a sua presença, aconteceu uma conversa
assim no Bar dos Pescadores:
− Já viu como ele anda?
− Já, parece uma menina.
− A prima foi embora. Dona Carminha disse que foi ela
quem botou ele a perder.
− Será? Ela era gostosinha, viu!
− Não era prima, não, rapaz, era tia dele.
− Eta, não se tem mais respeito: é tia, sobrinho, a
porra toda!
− Sei não, mas aquele menino já era aviadado
desde pequeno...
− Coitado de seu Luís.
− Ele passa todo reboladinho, indo para a escola, cruz
credo!
− Não sei por que você fala, Bira, seu irmão é viadão
também.
− Meu irmão é velho e é rico, otário!
−Sim, mas na época todo mundo escorraçou Jessé quando
ele começou a namorar seu primo, Naldinho.
− Meu primo, não, primo de minha mulher.
− E seu irmão que é maconheiro, Zumbi?
− Pelo menos ele não dá cu, como seu cunhado, que dizem
que vive na Pituba fazendo programa.
− Vou chamar ele aqui, você prova?
− Porra nenhuma, Valdir, muita gente já viu ele com traveco
lá na Pituba.
− Vocês são sacanas.
− Rapaz, o problema é que Tito ainda é criança.
− Criança, porra nenhuma, é viado mesmo, “mão no
chão”.
Seu Luís, que estava prestes a entrar no bar, escutou algumas
palavras soltas dos amigos, e uma delas era o nome do seu filho. Desconfiou
também, ainda do lado de fora, que Zumbi, Bira e Valdir faziam uns trejeitos
estranhos.
− Aquela bola foi impedimento, rapaz. − Foi a frase que
ele ouviu logo ao entrar.
Todos o olhavam, com cara de culpa. Ele coçou a cabeça.
− Vocês estavam falando do meu filho, não foi? − perguntou,
ressabiado.
Mas todos negaram, quase em uníssono.
Aquele episódio, entretanto, o marcou. Passou a observar
Tito, prisioneiro da dúvida.
Por essa época, Tito passou a ser chamado de “Açúcar” em
toda rua. Quando o rapaz soube, imediatamente aprovou o apelido... Passou
também a cantar no coral do bairro. Ele era mezzosoprano, segundo os
musicistas, e tinha uma das vozes mais harmônicas e aveludadas que já se ouviu
no subúrbio ferroviário de Salvador. Tito Açúcar, apesar de homem, era dotado
de uma voz feminina. Foi, durante uma reunião do coral − que recentemente havia
conseguido uma sala para ensaio na Igreja Evangélica de Escada, um bairro
vizinho −, que ele conheceu Isabela e também Fernandinho.
Dona Miriam era só orgulho do filho único. Nada daquilo,
contudo, agradava a seu Luís.
− Miriam, acho que esse menino vai dar trabalho... −
disse, numa noite, depois da janta.
− Oxente, que trabalho, Luís?! O menino de manhã fica em
casa, vai para a escola de tarde. Nunca recebemos queixa, todos gostam dele...
Oxente, home, tá desconhecendo o seu filho, é?
− Estou.
− Tá com cabriola na cabeça, é?
− Cabriola, não, tô com as palavras da vizinhança e dos
homens do bar aqui na cachola.
− Por mim, falem o que quiserem, meu filho não é como esses
aí, não. Eu, hein!
− Pois eu preferia que fosse.
− Você tá falando de quê?
− Você é cega, mulher?
A primeira conversa entre eles foi num domingo à noite.
Naquele dia seu Luís estava possesso, indignado. Era
torcedor fanático do Bahia, o Tricolor de Aço, que havia sido rebaixado para a
segunda divisão do Brasileiro após tomar um 7x1 do Santos de Robinho e Diego,
na Fonte Nova. Pelé, depois do jogo, deu uma entrevista, dizendo que estava
vingado pelo título da Taça Brasil de 59, perdido para o Bahia em pleno
Maracanã.
Tito entrou em casa às oito e dez, deu um beijo na mãe,
falou com o pai, depois foi pro chuveiro e cantou alto, em falsete: “Agora eu
sei muito bem/ Que eu nasci só pra ser/ Sua parceira, seu bem/ e só morrer de
prazer”. Todo Tetê Espíndola. Ao terminar, saiu com a toalha enrolada do tórax
até o meio das coxas, como uma mulher.
− Tá demais! Chega! − Seu Luis gritou.
Ficaram meia hora dentro do quarto. Foi o pai praticamente
quem falou. Colocou tudo o que sentia pra fora. Depois disso, Tito pareceu
tentar agir como se fosse um dos pescadores que bebiam com o pai no bar. Mas
não era da sua natureza e, em âmbito geral, e numa observação sucinta, não há
verdadeira mudança desde que os sapiens se ergueram sobre duas pernas. O
coral continuou na Igreja Evangélica, e a única novidade era que, após os
ensaios, Tito, Fernandinho e Isabela, cada vez mais próximos, ficavam até mais
tarde conversando com o bispo Luan e o pastor Reginaldo, na igreja.
A segunda conversa com o pai foi quase um ano depois
daquela primeira. Coincidiu com o fim do campeonato da Segundona, e, naquele
ano, o Bahia caiu para a Terceira Divisão Nacional. Seu Luís estava muito, mas
muito indignado. Trancou-se com Tito no quarto e, dessa vez, a conversa durou
uma hora e meia.
No bar, o mexerico continuava:
− Minha mulher é a confidente de dona Miriam! Elas falam
sobre tudo. Ela me disse que dessa vez Tito enfrentou o pai! Rapaz, e você
sabe como é mulher, né?, parece que não sabe o que é uma viadagem. Dona Miriam
bate pé firme que o filho é macho! Ora, veja só: se ele é macho, eu sou o
Silvio Santos!
A imagem da Baía de Todos os Santos se estendia como se
fosse Monte Carlo do Atlântico Sul, vista lá de cima do bairro. Uma paisagem
singular do subúrbio de Salvador. Os barcos a remo que vinham da Ribeira com
remadores, atletas de remo, pescadores em caiaques, escunas... Ao longe, os ferries
fazendo a travessia para a Ilha de Itaparica e a ponte onde passava o trem
colorido. A maré subia e descia. A lua e seu ciclo de lunação. E possíveis
mudanças que as pessoas não aceitavam. Tito estava diferente por fora, a olho
nu. Por dentro, triste, a não ser na companhia de Fernandinho, quando a
penumbra do inverno que lhe possuía passava a ser um arco-íris de primavera.
Haviam se tornado evangélicos, a história do bispo Luan e do pastor Reginaldo
serviu de inspiração para os dois. O coral ficara para trás, assim como
Isabela. Ela havia se perdido, saiu da igreja e andava na danação dos raios
enlouquecidos dos pagodeiros.
Então aconteceu a terceira e derradeira conversa, cerca
de um ano e meio depois da primeira. Naquele ano, 2007, o Bahia, time de seu
Luís, voltou da Terceira para a Segunda Divisão, mas houve uma tragédia no
Estádio da Fonte Nova, morreram alguns torcedores do tricolor. Aquilo o deixou
indignado, assim como toda a Cidade do Salvador, pelo descaso da Secretaria do
Governo, que cuida do esporte.
− Tudo na Bahia é um absurdo! A Sudesb sabia das condições
do estádio, sabia que a torcida do Bahia é fanática, apaixonada, sabia que
poderia acontecer alguma coisa de ruim naquele estádio e nada foi feito!
Imagine a queda!... Imagine, seu Bira... Quantos morreram?!
− Sete, seu Luís, sete.
− Tá vendo?
− Só isso? A infelicidade é que morreram pessoas, mas
olhe direito e perceba o sistema infectado em que vivemos, sem perspectiva de
melhorias. Isso é o que deve ser olhado! Um desconhecido que vestia uma camisa
cinza com o símbolo do anarquismo disse isso. Era um estranho naquele
lugar.
E então, ao chegar em casa naquela noite, Seu Luís deu o
ultimato para o filho:
− Ou você aparece aqui com uma mulher ou vai cair no
cacete!
Tito não sabia o que fazer. Fernandinho queria que fugissem,
dizia que seu Luìs era louco, mas que dona Miriam os entenderia. Tito foi até a
igreja se aconselhar e, para sua surpresa, encontrou Isabela. Havia algumas
pessoas ao seu redor.
− O que houve? − ele perguntou, correndo até ela. −
Diga, Isabela!
Chorando, como se estivesse em transe, Isabela dizia
coisas sem sentido. Foi apenas através do pastor que Tito e Fernandinho
souberam de tudo: ela havia sido estuprada, ao sair de uma festa, bêbada e
sozinha. Além disso, flagrada pelo pai com o nariz enfiado no prato e
aspirando um raio enlouquecido, tinha sido expulsa de casa dias antes.
− Isso não é tudo.
− Como não é tudo, Fernando? A menina foi estuprada. Foi
expulsa de casa!
− Tito, ela talvez esteja grávida...
Isabela continuava a chorar, arrasada pelo acontecido,
mas talvez também por não saber o que ainda poderia lhe acontecer. Enquanto
todos conversavam e tentavam descobrir e pensar em soluções para acalmá-la,
Tito se abaixou e segurou em sua mão.
− Isabela − ele perguntou −, quer casar comigo?
O casamento não tardou, aconteceu uma semana depois que
Isabela visitou os sogros e foi realizado na Igreja Evangélica de Escada, pelo
pastor Reginaldo. O bebê nasceu pretinho e ganhou incontáveis presentes e
mimos com o escudo do Bahia, todos dados pelo avô orgulhoso. Tito e Fernandinho
também viraram pastores, juntos, livres, felizes para sempre. E cantando Tetê
Espíndola.
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