CHEYENNE OLHOS MARRONS
Nada tinha
importância, era o que eu pensava enquanto olhava a rua, sentado numa mesa de
plástico, no bar de Azia. Quando girei minha cabeça meus olhos encontraram
outros olhos bem marrons que me fitavam curiosos. Eu já os conhecia de algum
tempo. Não os via há anos. E parece que aquele foi o momento que não sei como
um canal abriu em minha mente. Cheyene Olhos Marrons estava séria enquanto me
olhou naqueles rápidos instantes.
− Ainda vai?
Abri os olhos
como estivesse assustado, num leve movimento de cabeça procurando uma direção.
− Hein?
− Quer um
raio?
− Quero.
Cheyene Olhos
Marrons me entregou um pequeno pino amarelo com o pó branco pela metade. Azia
era grosseiro e estúpido. Não gostava de ninguém, principalmente de maconheiro
e de cheirador de pó. O problema era que mais da metade que frequentava o bar
era dessa estirpe. O careta então resolveu desafiar a malucada, colocou
divisórias menores, mais ou menos abaixo dos ombros, nos mictórios ao fundo do
bar, assim inibia quem fosse cheirar. Talvez assim ele pensava.
−Quero ver
essas desgraças cheirar pó enquanto mija. Resmungava o careta dono do bar com
nome de incomodo estomacal.
Fui na cara
dura. Derramei no buraquinho na parte de cima da mão. Olhei para os dois lados
e lépido, aliás, veloz como avião do trabalhador, diria O Rappa, lapei dentro
do nariz. Azia virou na hora, quase flagra.
− Rum, qual
foi aí, velho.
−Você é
também fiscal de mijo?
− Rolou o
movimento do raio aí, não foi doutor Ruan? Não quero saber disso aqui não, viu.
Não dei
bolas. Voltei e mirei Cheyene Olhos Marrons que ria discreta de minha breve
fungada e mostrava a covinha da bochecha, no rosto redondo. E os dois pontos
marrons agora escondidos embaixo do cabelo liso de índia antiga. Uma índia de
rosto redondo e aura enigmática. Uma vez, a mais de dez anos acho que brigamos
num bar, não lembro o motivo e depois nos perdemos. Raríssimamente eu a
via.
−Nada, viu,
Ruan.
− Vá procurar
o que fazer... Azia. Você viu alguma coisa, não. Então pronto.
E bebi na
boca da garrafa long neck. E imaginei um beijo em Cheyene Olhos
Marrons. Olhei novamente as coisas sem importância da vida. Um jovem magro,
tinha seus trinta e três anos, acenava do outro lado, para mim, querendo não
sei o que. Lembrei, queria um baseado de Skank que eu tinha fumado a metade.
Fiz sinal para ele vir, de repente, virei em direção a Cheyene Olhos Marrons e
perguntei se gostava de fumar.
− Não gosto.
− Certo.
Então.
Formigão,
caboclo jovem, maconheiro novo. Se apaixonou pela fumaça do Skank. Aterrisou
numa cadeira ao meu lado.
− Veterano,
Ruan, filósofo das Ruas, o que sempre tem ideias.
− Você está
bem, homem?
− Tô bem.
Acho que cada dia fico com mais vontade, mas. É a vida.
− Coitado,
vai morrer sem vontade de nada. A vida é uma só, Formigão. Enquanto dizia a
frase, passei a bagana enrolada num guardanapo. Azia de olho, nem viu.
− Sai daí,
caretão. Quase um brado meu em direção a Azia.
− Ruan, vou
ganhar o mundo.
− Falou,
irmão.
− Tem um raio
aí, Ruanzito?
− Não. Dei um
tiro mas não é minha.
−Tranquilo.
Tô indo.
Observei o
caboclo enquanto saía do bar, depois virei o rosto para olhar Cheyene Olhos
Marrons. Flagrei ela me olhando.
− Oi,
professora. Disse um gordo que escondia trejeitos femininos
Cheyene Olhos
Marrons olhou com nojo para o gordo mais gordo do que eu que havia dito essa
frase sem graça. Tive a impressão de ter visto uma reboladinha do Gordo. Ele
era dono de uma barraquinha onde vende de tudo. E tudo uma merda. E me chamava
de Professora, achando que aquele sopro de voz afeminado me incomodava. Até
Azia balançou a cabeça. Depois ela pôs os olhos marrons em mim. Por outro lado,
Azia me olhava com seriedade e dúvida. Era descarado depois ria e construía
brincadeiras pífias de homens velhos que nunca leram nada. Um bestão como todos
do mundo. Eu tinha dúvidas se era ou não um bosta como Azia. Às vezes me sentia
assim. Mas também sabia que o mundo era tudo aquilo que eu via naquele momento.
Muito mais. Muito menos. O mundo tem que acabar, pensava assim quando dei de
cara novamente com dois olhos marrons brilhantes a me fitar. Cheyenne Olhos
Marrons parece tinha entre trinta seis e trinta e oito. Era adiposinha,
suculenta, parecia ser deliciosa enquanto fodia. Mas não inspirava nenhuma
confiança. Ouvi dizer que era ela que mandava nos homens, depois os traía. Não
sei se é verdade. Ao lado dela estava uma amiguinha que não se continha, sem discrição
quando dava uns raios de cocaína. Saía do banheiro feminino de Azia se tremendo
toda. Aí Azia liberava, de cara feia mas liberava. Depois desse dia Cheyenne
nunca mais saiu de minha cabeça. Nem sei porque, acho que era loucura de velho
idoso. Sabia que era ilusão e resolvi curtir aquilo. A mulher era mentirosa pra
caralho e eu sacava tudo. Todas as conversas sem nexo e sem fluxo. Muita
besteira e mentira, além do mau caratismo dela com outros homens e comigo
também. Não sei quanto a ela, mas tinha certeza disso. Às vezes é melhor não
ter certeza, aprendi isso estudando filosofia, quem disse isso, eu não lembro.
Nossos
encontros tornaram-se frequentes e um desses dias lá pela madrugada quando
abrem os canais dos artistas, tive a impressão que não nos desgrudaríamos mais.
Aqueles olhos marrons quando pousavam em mim começaram a me dar calafrios de
desejo. Comecei a perceber que não era qualquer um que a encarava.
Morava
sozinho e há tempos não conseguia nem conversar com uma mulher. Dias, depois
daquele episódio no bar de Azia, continuei a pensar involuntariamente em
Cheyenne Olhos Marrons. Lembrei de Marlon Brando e a índia que ele se apaixonou.
Dia desses, em minha casa, enquanto fungávamos um pó decente que somente ela
sabia onde vendia, contou que estava parada num estacionamento de um posto e do
nada, assim contou, um homem com cabelos lisos e rosto redondo parecidos com os
dela, disse-lhe que eram da mesma tribo.
−Como?
− Você é
índia.
− Sai daí,
babaquara. Nunca vi nenhum índio em minha vida.
Riu com toda
brabeza que sua natureza indígena a presenteou. Brutal mesmo.
Ela era uma
mulher bonita, mais ou menos, mas tinham feições reais de índia matrona e um
olhar de quem conseguia sempre o que queria. Isso a deixava envolta numa beleza
sexy e sensual. Não era atarracada. Gordinha plus como se diz hoje. E desde que
nos vemos parece que algo da natureza fez com que ela não me saísse da cabeça e
de dois em dois dias estávamos juntos. Ficávamos três quatro dias conversando.
Tinha vontade de agarrá-la mas não me atrevia. Uma vez ela disse.
− Tudo no seu
devido tempo, Ruan.
Assenti com a
cabeça olhando os cabelos lisos e a covinha na bochecha que aparecia com
naturalidade enquanto ria para mim. De madrugada via, através da blusa
transparente que parecia fazer questão de mostrar-se a mim os seios grandes e
os bicos bem clarinhos. Imaginava como seria a boceta enquanto conversávamos
durante dias e noites sem querer parar. Nem eu, nem ela não tínhamos vontade de
nos separar. Mas era ilusão...Me sentia no Túnel do tempo, na metafísica, naquele seriado de Tv lá nos anos setenta. Nem contei isso para ela, a criatura burra pra caralho não ia entender nada mesmo. Mas deixava-me envolver por aquela equínea. Era curioso, misterioso e
denso. Havia uma atmosfera sólida. Não sei, uma deselegância empoeirada.
−Sei lá, um
dia um velho me disse que eu era índia da mesma tribo dele.
− Qual era a
tribo?
− Não sei.
Mas muita gente me diz que tenho descendência de índio.
− Perguntei
por curiosidade e por um instante bem levemente me senti Marlon Brando.
− Quem é
esse? É seu amigo?
− De quem
você está falando?
− Não, esse
tal de Brondo.
− Ah, Marlon Brando.
− Esse.
− Ele morava
ali e casou com uma índia.
− Naquela
casa, ali?
Não contive a
ironia do desconhecimento. Essas coisas me assaltavam sempre, essa coisa de o
outro não saber reconhecer arte. Isso é chato pra caralho e ainda que me
fitasse com olhos marrons brilhantes, ela tinha algo equíneo. Mas deixa pra lá,
entendo tudo. Porra nenhuma, não entendo nada. E disse mais, uma
expressão que qualquer um poderia falar, até Marlon Brando- ou brondo, que
seja- que martelava minha mente .
− Ele vivia à
busca da estranheza da noite. Você já olhou sinceramente as estrelas à noite.
São seres humanos mortos - um muchocho desdenhoso que desenhava a brabeza de
Cheyenne- É, sabia que você não acreditaria, mas parece que são.
− Besteira,
homi.
− Se fosse
uma pica fosse ia acreditar, né?
− Ei,
devagar, grosso.
−É, desculpe.
É a idade, não suporto gente jovem.
− Eu não sou
tão jovem e você nem parece tão velho.
−Tenho
sessenta anos Cheyenne.
− Não é tão
velho, Ruan.
− Quantos
anos deve ter o pajé de sua tribo.
− Oxe, o pó
fez efeito. Quem disse que sou índia.
− Posso lhe
dizer uma coisa com todo respeito?
−Pode.
− Você pode
não gostar... Mas acho que toda mulher gosta.
− Diga logo
essa porra, Ruan.
− Acho você
linda e deve ser muito gostosa.
− Mas
que bobagem. Tudo que é homi fica me querendo.
− Bobagem,
né? Você dá para todos eles?
− Não. Alguns
tem mau hálito. Odeio isso.
− Eu devo
estar com mau hálito e ... Você me odeia?
− Te odiar,
não, mas está com mau hálito mesmo.
− Então não
me beijaria?
− Com esse
mau hálito com certeza, não.
−E se eu
consertasse?
− Você aperta
a mente, hein, coroa.
Tinha que dar
uma resposta a altura.
− Imagino o
monte de gente sujo e horrível que deve ter lhe comido. Há alguns meses vi você
sentada ali com um cara que segurava um par de baquetas, dizia-se músico. Sujo
pra caralho. Que horror.
−Era meu
namorado mesmo.
− Feio e
sujo.
− Ele não me
agradava muito, não.
−E por que
diabos namorou com a imundície?
Comecei a ter
ódio daquele sujo e dela também. Depois esqueci, acho que tivemos uma discussão
besta de ciúmes meus. Nunca tive a mulher e sentia ciúmes. Ficamos uns tempos
sem nos ver. Finalmente curti um pouco minha casa. Aí Ficava imaginando Cheyenne
dando a boceta pra meio mundo de gente. Eu acho. Pode ter ficado em casa
também, vai saber, diz ela que morava num quartinho numa das vielas que mais
fofoca nasciam das pessoas daquele meio. Deus me livre ir ali. Pensei em ir e
descer uma escada mal feita e bater na porta dela. Deixei pra lá. Afinal, nada
tinha importância na vida, não seria aquela índia metida a besta só porque
cheira pó que ia me tirar dos meus pensamentos e fazer literatura.
Até que não
era ruim de conversa. Claro, Não era uma Cecília, ou Silvia, duas mestras em
filosofia e literatura que liam a vida e o mundo com mais facilidade. No
entanto, Olhos Marrons era fácil de tratar, apesar da marra que fazia questão
de impor. Já sabia mais ou menos como lidar com ela. Era mulher e a maioria
delas fazem-se de difíceis, mas são tão fáceis. Ainda bem que estou sozinho, se
houvesse uma mulher aqui ia me chamar de cafajeste. Ela tinha um péssimo gosto
para quase tudo. Não gostava de arte, isso me deixava triste porque sabia que
ela nunca saberia quem era ela de fato. Sem a pintura, sem a literatura, sem a
fotografia e principalmente sem a música. Só ouvia besteira mas balançava o
corpo pra deixar de pau duro. Isso para mim era um problema que se eu a
quisesse ia ter que ser resolvido. Problema dela. Gosto mesmo é do Camisa de
Vênus.
Saímos
algumas vezes, comportou-se como uma dama da sociedade. Gostei muito. Foi muito
educada. Mas bipolar, uma hora estava rindo, outra com um bico que atravessava
o Porto da Barra. Eu tinha que advinhar quando estava bem e quando estava azeda
como biribiri e saber como agir. Chupei a boceta inchada de Cheyenne poucas
vezes, mas em todas ela gozou. E gozava maravilhosamente sexy e muito sensual.
Tinha um cheiro característico em sua boceta, cheirava bem e um urro de médio
volume quando gozava. Eu amava ouvir aquele som que ela emitia enquanto o caldo descia pelas paredes da boceta.
E continuei
olhando as estrelas e me sentindo menor cada vez mais em relação ao Universo.
Olhos Marrons parecia que não era índia mesmo, os índios respeitam a natureza e
os astros, era o que os homens patéticos com copos plásticos na mão cheios de
bebidas alcóolicas que queimam a garganta e que soltam verdades quando bêbados,
deveriam fazer. Comecei a achar que ela achava que não havia em que pensar,
apesar de às vezes flagrá-la olhando a esmo. Aquilo era esquisito. Depois
acabei descobrindo que ela pensava em outro. Mas será que o amava? Depois de
tudo que fizemos. Estranheza. Aliás, não era, não, era natural mesmo essa
porra. E o que decide normal, Ruan? Seu cu.
Estou
começando a achar que esse mundo não presta mais pra mim. Dizem que os índios
bebiam um chá. Depois cagavam, vomitavam mas que viam tudo que acontecia na
vida de cada um deles. Começaram a tomar por aqui, Tive vontade de beber esse
chá. Mas um dia, um cara caretão, metido a merda, grande, forte, bonito de
olhos claros se aproximou da mesa onde estava com Caroço e conversávamos sobre
Sócrates. Ele não pediu licença, puxou a cadeira e contou que bebeu o tal chá
indígena. Eu que vomitei. Na hora. E Caroço riu pra se acabar.
−Sim, e você
viu o que, desgraça? Caroço perguntou a ele.
Na hora,
Cheyenne passou com a filha e me ofereceu o sorriso com a covinha na bochecha
que eu amo.
− Vi uma
índia parecida com essa moça que riu pra você agora.
Só depois
olhou o chão.
− Você
vomitou, Ruan?
− Vomitei.
− Tá passando
mal, homi?
− Não. É o
ser humano, as gentes, que são umas desgraças.
− Calma,
homi. Fale algo para seu amigo, Caroço.
Caroço ainda
ria mas largou essa.
− Ruan, velho
chato e cheio de verdades.
Eu ri pra
caralho. Enquanto Caroço ouvia aventura indígena do idiota, a imagem de Olhos
Marrons e a covinha da bochecha que aparece quando ela ri não saiu da minha
mente. Tenho que reconhecer os olhos bem marrons e a covinha da bochecha eram
magnânimos. Palavra feia da porra, essa de magnitude. Mas não pensava em algo passional. Sabia que
não podia me apaixonar por ela e tinha a impressão que não era apaixonado, mas
gostava de vê-la nua, seus grandes seios, sua boceta magnífica escorrendo em
minha boca. Era verdade, eu não estava apaixonado, mas gostava dela como mulher
e gostaria de ter ajudado mais. Mesmo com uma desconfiança certeira e um
agoniado descrédito. Cheyenne não seguia o fluxo do raciocínio e atropelava as
conversas, e aquilo não era natural, estava na cara que queria omitir algo ou
estava começando alguma mentira que ela não sabia como segurar os fatos
recheados de mentira para enganar que ela escolhia. Ela não sabia sustentar a
enganação, esquecia que havia inventado tal coisa e os salamaleques tomavam-lhe
o corpo e a mente. Todo bobão é assim. Disse-lhe um dia desses que comigo era
muito melhor ela contar a verdade, mas ela achava-se que era melhor do que eu.
Sinceramente, acho até bom isso. Gostei de ser enganado, ela me disse com
sinceridade. Não lembro de ter ocorrido isso comigo com outra
mulher, talvez parecido com uma estudante do ensino médio que tive há muitos
anos. Olhos Marrons não era como Cecília, nem como Silvia que conversavam
Nietzche, Dostoieviski, Crônica de uma morte anunciada, Silvia mesmo era
apaixonada por esse texto. E eu também. Olhos marrons era bruta como uma pena e
eu só podia ser amoroso como um espinho.
−Voltei a
sair com o homem que gosto.
− Que bom,
tomara que ele te mate
Carlos
Vilarinho 2024
Carlos
Vilarinho 2024
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