O LADRÃO
O LADRÃO
Eu
não tinha nada, só a vontade e o sangue que deixavam meus olhos em brasa. Tinha
que escolher e não podia errar, não podia perder. Talvez se entrasse em um
ônibus, o serviço fosse melhor, mais fácil. Essa fome que não passava. Quando
minha mãe ainda era viva, me dava bons conselhos e fazia mingau de cachorro que
matava a fome. Até então, minha maior felicidade foi o primeiro e único bolo de
chocolate que ela fez quando completei cinco anos. Prometeu fazer outro, ainda
maior, quando eu completasse dez. Mas ela se foi quando eu tinha sete anos.
Quando completei dez anos, não mais esperava bolo, levei uma surra de meu pai
que era um desalmado. Até hoje não sei o motivo. Uma vez, antes de me decidir
pelo crime tentei me aproximar dele. Levei outra surra. Desisti. Herdei os
maus-tratos e sucumbi à violência. Havia algo que me corroía por dentro, tinha
um gosto amargo, e dúvidas se as outras pessoas também sabiam e sentiam aquele
sabor que me consumia. Ao ver a felicidade em alguns semblantes deduzia que
somente eu sentia aquele sabor desgraçado de infelicidade. Sentia ódio de quem
ria como se fosse melhor do que eu, era como se o riso as deixassem em um
estado de espírito mais elevado do que o meu. Alegria e felicidade que sempre
quis ter e não tinha. Pensava sobre isso sem saber a razão, talvez fosse porque
a situação que a sociedade hipócrita impunha a mim, sem recursos, sem amparo,
fazia com que eu me sentisse morto, mas eu não tinha morrido. Era abençoado por
Jesus Cristo e essencial à sociedade hipócrita. Tinha, portanto, uma acidez,
tanto interna como externa, que parecia cobrir minha vida. Havia quem dissesse
que aquela situação fazia parte do dia a dia. Era fácil constatar as
dificuldades dentro de um escritório com ar-condicionado, ou aquecedor, com a
geladeira cheia, com consultas agendadas para dentista, essas coisas felizes.
Não sei porque as pessoas querem sempre ter mais, correm riscos de alguém tomar
na violência. Às vezes, algumas mereciam essa atitude, eram exibidas e cruéis.
Diziam que pessoas como eu, pretas, sem oportunidade, invisíveis, amaldiçoadas,
cruas, sem tempero para ser dócil e positivo diante da vida e de quem pudesse
nos amar - eram impiedosas. Para
todos que giravam o poder e viviam por dentro da margem e regras da vida, não
éramos vítimas do sistema endiabrado pelas finanças, éramos sem importância e
insignificantes, podíamos sofrer. Servíamos somente como referências de uma
vida a não ser vivida. E o pior era que todos enxergavam e nada faziam. Não
havia vontade de nada fazer, a não ser usar drogas e morrer por elas. Não
lembro de ser diferente. Curioso que nesse momento de coronavírus, diziam que
todos tínhamos que nos unir, mas se houvesse naufrágio, seríamos os últimos a
entrar nos botes salva-vidas, se ainda houvesse vaga. Sobretudo, jamais
estivemos nas mesmas marés. Que Caronte os leve! ‒ era o que dizia um estranho
estudante negro de Filosofia que morava na nossa comunidade e não tinha vez no
mundo fora dali ‒. Não tinha a menor ideia de quem era Caronte. Uma vez, uma
vítima que eu acossara pediu misericórdia.
Não conhecia aquela palavra. Era uma velha que saía da igreja. Os
crentes das igrejas sem padre vinham falar comigo, diziam para eu pedir perdão
a Deus e devolver as coisas que arrancava das mãos de pessoas que geralmente
não podiam reagir. Eles não sabiam que tudo que eu e meu bando fazíamos era com
a permissão de Deus. E naquele instante entendi algo como um sinal dos céus. E
então, questionei ao pastor como ele enriqueceu se anos atrás estava na fila de
cesta básica da prefeitura, junto comigo. Ele disse que foi Deus que o proveu.
Na hora fiquei constrangido com o discurso que ele manifestou com tanta solidez
e convicção de crença, aquele homem tinha a capacidade de encadear as palavras
e encabular qualquer um. Fiquei envergonhado, mas havia algo estranho que eu
não conseguia assimilar. Não era uma oração natural, parecia uma ladainha
cover, plastificada. Talvez, com o único intuito de justamente me inibir diante
do Senhor. Eu não conseguia enxergar de imediato porque não tinha ideias, nem
condição de interpretação, diriam os estudados. Mas com toda a minha limitação
de entendimento, estava claro para mim que havia algo estranho com aquelas
pessoas que pregavam o evangelho. Além disso, Jesus Cristo me conhecia, sabia
de minha seriedade e meus dissabores na vida. Mas havia coisas que eu não
entendia, por exemplo, o motivo de as crianças não brincarem aos domingos.
Saíam todas enfatiotadas, engravatadas para louvar o Senhor na igreja. Sou de
acordo que o Senhor seja louvado, era ele que nos libertava, mas as crianças
tinham direito de se conhecerem enquanto brincavam. Minha mãe deixava e eu
gostava de brincar de polícia e ladrão, enquanto ela orava por mim. Não tinha
estudo, nunca gostei de estudar, mas não era tapado, tinha ideias sobre as
coisas do mundo. Aquelas crianças podiam crescer, viver e sofrer caladas.
Esperar que o senhor resolvesse os problemas que iam aparecer, isso não bastava.
Além de louvar ao Senhor, tinha que ter atitude diante das coisas. Há alguns
anos, quando ninguém pensava em vírus devastador, o Senhor nos mandou o bandido
que presidia todas as facções dos estados unidos do brasil. Aliás, o Brasil parecia um território que dividia as bandidagens
em diversas níveis de atitudes. Havia de tudo desde os engravatados até a bandidagem
passiva. Às vezes, nas repartições do povo, aparecia algum cachorro grande,
assim chamados entre eles próprios, servidores da união, ou do estado, ou do
município que faziam, subornavam e desviavam cifras de belo porte. Conduta que
somente cães gigantescos saídos dos porões de todo e qualquer regime de governo
tinham autoridade para designar tais atitudes. Entre esses, se algo desse
errado, havia sempre um fraco de joelhos a carregar o fardo da consequência.
Sei que está muito real para um ladrão como eu perceber isso, mas a descaração
era escancarada mesmo. E finalmente, havia a bandidagem da escória, que era tão
organizada quanto a dos dentes caninos. E muito mais violenta. Todo ser humano é
bandido, e muitos eram, às vezes até sem saber, creditavam os feitos ao Senhor
Jesus Cristo. Pois, chegou à nossa comunidade o bandido chefe da mais de alta
patente, já havia matado e explodido banco, tudo pela vontade de Deus, para
esclarecer aquelas cabeças que não pensavam e sabiam unicamente escrever e ler
o que lhe ofereciam. Quando sabiam ler e escrever. As fáceis de recrutar. Eu
estava nesse meio. O Palestrante de alta patente veio para dar lições a nós
todos que não tínhamos ideia, nem noção, do que representava o mundo do crime
na sociedade hipócrita, além daqueles que, nessa época, deviam reciclar seus
fundamentos e atitudes para melhoria da marginalidade. Afinal, éramos
essenciais à sociedade hipócrita. Quer dizer, para ser mais claro, para que não
haja deficiência de entendimento, para mim todas as coisas da vida são ditas
para causar confusão na mente do outro. Principalmente se o outro for fraco no
sistema. Então as palavras são usadas para que ninguém entendesse nada de nada
e só os maiorais levavam vantagens. Eles criavam a verborragia dialética. Eu não tinha ideia, não sabia como o
mundo do crime se representava na sociedade hipócrita, para mim, criminoso
bastava ser criminoso e pronto. Mas não era só isso. Então, eu fazia pequenos
furtos, extorquia rapazes da minha idade covardes que procuravam emprego e
achavam sublocações nas empresas dos patrões que muitas vezes eram tão bandidos
quanto nossos vizinhos. Surrava os que estudavam á noite e achavam que o estudo
ia melhorar a condição de invisível e descartável que a sociedade hipócrita nos
impunha. Inclusive, aquele estudante negro filósofo que disse aquela frase do
tal Caronte para mim, enquanto o espancava. Ou roubava na ganância. Estava, portanto,
enquadrado e inserido em todas as classes malditas para ouvir a palestra do
mestre. O Palestrante de alta patente que
há tempos comandava a bandidagem em boa parte dos estados unidos do brasil, nos falou sobre psicologia. Disse que não
podíamos esquecer aquela palavra, pois era ela que nos dava vantagem sobre as
vítimas. Tínhamos que pensar em ser algozes, carrasco de quem nos enfrentasse,
caso isso acontecesse, e preparado para o terror. Sobretudo o uso da linguagem,
psicologicamente nosso palavreado tinha que ser respeitado. Se isso fosse
sentido no íntimo do bandido, em nosso íntimo, estávamos em situação melhor. O
Palestrante explicou ainda que mesmo que nosso medo fosse maior do que o deles,
às vezes, parecia que era, não podíamos mostrar a fraqueza, então, era nesse
instante que usávamos a psicologia do xingamento, da ameaça de morte, da
violência gratuita contra alguém infeliz sorteado, ou que estivesse mais perto.
Tínhamos que visualizar de imediato no início de toda a ação, um idoso, ou uma
criança, e pintar o quadro do diabo que se espalhava no inferno. Isso nem
comparação poderia haver, porque nada poderia ser igual, próximo, ou até pior
do que se sentir o diabo, com a permissão do Senhor. Disse ainda que íamos ver
o medo deles refletido como se fossem crianças pueris e daí então o demônio
marcava sua presença naquele momento do assalto. E alertou para que não
deixássemos que a vítima fizesse contato visual, que não olhássemos nos olhos,
isso era uma forma de intimidação. Tínhamos que coagir, deixá-los impotentes e
se sentir próximos do pior que lhes pudesse acontecer, a morte. Mas nem todos
tinham essa coragem de sustentar o olhar nos olhos de um bandido, se
encontrássemos alguém assim durante o assalto ‒ imediatamente pedíssemos
licença ao Senhor, ele entenderia perfeitamente ‒ devíamos abater. Eram pessoas
perigosas para o nosso trabalho. Aquelas palavras infiltraram-se no meu sangue
e se filiaram a minha alma. Depois da palestra, houve tiros para o alto, risos
malignos, fogueira acesa e terror tocado nas ruas da comunidade da periferia.
Muita comida e bebida para o bandido Palestrante de alta patente e chefe de
todos os bandos. Naquele dia, lembrei de uma tentativa de assalto que fiz,
quando ainda tinha treze anos. Nunca acreditei que a escola fosse saciar minha
sede e fome, e achava difícil as coisas. Aprender as letras, pensar sobre
aquilo. Aprendi a juntar os números, foi mais fácil e até me vangloriei com
bravatas sobre os outros meninos. Por outro lado, qual a utilidade que ia ter
para mim de coisas que já passaram há séculos, ou saber se essa ou aquela
palavra estava classificada como isso ou aquilo, na linguagem escolar. Era
inútil. O único momento que fazia com que eu ficasse com um lápis na mão era o
desenho. Talvez tenha nascido com o dom do traço. Saí da escola e as piores
coisas começaram a aparecer. Meu pai sumiu no mundo, aparecia de vez em quando
fugido da polícia. E minha mãe já não existia. Comecei a ter fome e só havia
lata vazia no barraco. Procurei e encontrei embaixo do colchão velho que meu
pai dormia, num canto do barraco, a arma que era guardada e saí para roubar sem
que ninguém me detivesse, não havia ninguém para isso em casa. Sem nenhuma
experiência e disposto a matar a minha fome, para isso mataria quem aparecesse.
Assim eu pensava, mas não era tão fácil, principalmente aos treze anos.
Dificilmente um menino com treze anos, assim pensava os pesquisadores
cientistas da antropologia, ouvi essas expressões enquanto estava de castigo na
escola quando ainda frequentava há uns três anos, desejar tão mal ao próximo
para ser capaz de matá-lo, ou ter pecados diabólicos, geralmente eram
mentirosos somente, interessante que eu não gostava de mentir. Mas, ao
contrário do que se pensa no imaginário coletivo da antropologia dos mais inteligentes
e estudiosos, a maldade já fazia parte de mim e adotava, sim, atitudes
monstruosas, por que não? Aqueles crentes que não souberam me explicar o que
significava misericórdia queriam me levar para não sei aonde, um retiro
espiritual, eu não quis. Uma delas era professora e ouvi, certa vez, que as
coisas da minha vida tomavam rumo da criminalidade, palavras ditas por ela.
Ainda, segundo a professora, eu já agia como um monstro. Talvez ela tivesse
dito essas coisas a meu respeito porque, aos onze anos, ameacei dar um tiro na
perna dela com a arma de meu pai que havia levado na mochila da escola que a
prefeitura doava. Sabia que no retiro que queriam me levar a disciplina era
cheia de regras e quem as ultrapassasse apanhava muito de um tal pastor policial.
A fome era o tempero da vida. E a minha vida estava insossa. A decisão de matar
uma pessoa durante um assalto, ou quando se é contratado para um serviço dessa
natureza satânica, tem que ser firme e inabalável. Principalmente quando não
era por acidente ou própria defesa. Matar na frieza da alma, com a certeza de
que não se tem coração e no meu caso, já não havia a pureza da pouca idade.
Queria mesmo era ver a morte. E estava decidido a tirar vida de outro. Andei
pela orla e vi duas idosas que andavam apressadas como uma caminhada saudável,
uma parecia rezar. Anunciei o assalto e apontei a arma, uma, a que parecia orar
e chamar pelo Senhor, se urinou imediatamente com a minha face demoníaca, a
outra, mais forte e decidida, olhou para mim dentro dos meus olhos ‒ atitude
que anos depois iria confirmar a psicologia do Palestrante alta patente sobre a
intimidação do olhar dessas pessoas ‒ e sem parar a caminhada, disse:
‒
Um pirralho desse que ainda não saiu dos cueiros e quer ser ladrão, se assunte,
menino, vá procurar um livro para ler.
E
saiu andando sem ao menos olhar para trás. Eu fiquei paralisado e não consegui
fazer o assalto. Voltei derrotado e nunca contei isso a ninguém da bandidagem.
Naquele dia da palestra, entendi o que faltou. Nunca esqueci aquele olhar definido e inibidor, não sei se ia
conseguir com que ela se rendesse e me passasse as coisas. Lembro que senti bem
forte um sentimento de fé que saía dela. Ia ter que matá-la e provavelmente
sofrer as consequências da crença convicta que banhava aquela velhota.
Outro
episódio desastrado foi o assalto à creche-escola da comunidade. Juntei com
Gato Manhoso, menino como eu, mas mais dissimulado. Gato Manhoso sabia mostrar
aparência angelical e confundir a vítima, instantes depois como um camaleão do
mal, demonstrava uma fisionomia tão diabólica quanto qualquer demônio da rua.
Morreu dias depois num assalto a ônibus também mal sucedido lá pelos lados do
subúrbio ferroviário, acho que foi na altura de Rio Sena. Estudamos os
movimentos dos funcionários e professores da creche como bandidos de alta
patente. Um meio-irmão meu, filho de meu pai com outra mulher, estudava por lá,
além do filho de tia Fifi, o primo Zé, queria ser como ele é – era o bordão que
os outros rapazes repetiam quando eu pronunciava “o primo Zé”. Antes da invasão
havia pensado nos dois, mas minha barriga reclamava e tinha que comer. Eu e
Gato sabíamos que havia comida ali dentro, era só o que queríamos. Então no
domingo de manhã cedo, escalamos o muro que não era tão alto. Depois disso
reforçaram com arame farpado. Pulamos e caímos no pátio das escorregadeiras,
das gangorras e outros brinquedos. Gato Manhoso quis brincar de se pendurar
naquele que parecia uma escada de ferro suspensa usada para as crianças
exercitarem os músculos do braço, tive que reclamar e pedir que ele se
concentrasse. Naquele momento devia ter desconfiado que dois nunca foi um
número perfeito. Foi unicamente o que aprendi na escola: par e ímpar. A vida me
ensinou que os pares não prestavam, eram redondos, uniformes e certinhos.
Procuramos a cozinha, achamos e quebramos o cadeado da grade de proteção e
entramos. Havia leite, achocolatado, pão, queijo, panelas de macarrão com carne
moída dentro do freezer que comemos gelado mesmo, sucos de caixa, salgados
congelados e uns kits arrumados que não sabíamos o que era. Abrimos os kits,
pensávamos que havia algo para comer diferente, só havia lápis de cor, cadernos
de desenhos, brinquedos em miniaturas, copos com canudos, lancheiras et cétera,
et cétera, et cétera... Um sentimento
de destruição e anarquia nos tomou quando estávamos diante de uma fartura única
e que não nos pertenciam, então quebramos tudo, extraviamos os salgados
congelados, urinamos em cima dos alimentos, comemos o que podíamos comer, até a
barriga doer e fomos embora. No dia seguinte, a viatura da delegacia do menor e
adolescente estacionou na porta do barraco onde morava. A diretora da
creche-escola, uma professora e uma funcionária vieram em outro carro. Meu pai,
assustado, achava que a polícia tinha ido buscá-lo, quando soube que a visita
era para mim, mais do que imediatamente, disse aos policiais que eu havia
chegado com brinquedos e comida no domingo à tarde. Os dois agentes maiores do
que eu duas vezes invadiram e me tiraram da cama, um colchão velho no canto do
barraco. Gato Manhoso já estava algemado dentro da viatura. Soubemos que fomos
pegos pelas câmeras. A diretora tentou argumentar, ela não sabia que éramos
menores famintos. Achava que tinha visto arrependimento e tal da misericórdia
no semblante da mulher, depois ela disse “Meu
filho, era só nos pedir comida que nós dávamos”. Ficamos detidos, passei
dois dias desenhando numa cela aberta. No terceiro dia, não havia vigilância
nenhuma, saí pela porta da frente. Nunca me procuraram, mas tomei um sova dos
bandidos da rua pela estupidez de assaltar a creche-escola, único
estabelecimento que se preocupava com as crianças da comunidade. Eu era criança
e ninguém se preocupava comigo, mas na noite que voltei à comunidade, o
Palestrante de alta patente fez uma promessa ao meu ouvido. Soube também que ele sempre ajudou a
creche-escola com doações de toda sorte e fazia recomendações para que todos
aprendessem a ler e escrever. Não precisava pensar. Segundo ele, bastava isso
para recrutar.
Naquele
dia trinta e três da quarentena, comecei a ouvir de pessoas na comunidade que o
gari era essencial à sociedade. Aquele gari metido a besta, com ares de
sabedoria barata. Não gostava dele. Eu era essencial à sociedade hipócrita. A
minha presença demoníaca não deixava que as pessoas ficassem nas ruas por muito
tempo, principalmente à noite. Era isso que ouvia dizer na televisão: que as
pessoas não saíssem de casa, só em extrema urgência. Não acreditava em vírus
nenhum, que uma coisinha minúscula e de tão minúscula tornava-se invisível,
assim como eu, pudesse matar. Eu era invisível, essencial à sociedade hipócrita
e se tivesse de matar, matava. Mais e melhor do que o vírus. Deixava quem quer
que fosse morto. Isso, sim, era referência para qualquer vírus gripal que se
dizia assassino, sucesso do momento.
Inicialmente
não usei máscara nenhuma, eu confiava no Senhor, além do mais, o presidente dos
estados unidos do brasil não usava,
porque eu que causava tanta indignação, quanto ele que também provocava nas
pessoas, tinha que usar aquele acessório? Diga-se que a indignação que ele
provocava era mais bárbara e atroz, em termos proporcionais, claro, do que eu
provocava. Primeiramente, eu tinha fome. Ele não. Sentia frio naquele inverno
rigoroso que há muito não se via na Bahia. Ele não. Por último, por enquanto por último, precisava de dinheiro para
comer e me agasalhar. Ele não. Para mim só restava o caminho do crime. Para
ele, não, mas o fazia de maneira inversa. No entanto, podíamos nos comparar,
parecia que estávamos no mesmo nível espiritual. No limbo, descendo para o
inferno. Ele, assim como eu, não acreditava em vírus. E eu não acreditava no
presidente, ele, por sua vez, dificilmente ia acreditar em mim. Tanto faz, a
vida era cheia de ciclos. E eu não acreditava não era só no presidente, não. Eu
não acreditava em ninguém, aliás, unicamente no Palestrante de alta patente. Ele, e somente ele, falava as
verdades. Era o nosso guru do submundo. Para mim, o que me interessava era o
que os outros possuíam para eu tomar de assalto. Com violência e atitudes
psicologicamente demoníacas. Foi assim que o bandido Palestrante de alta
patente nos ensinou naquele dia festivo na comunidade. Tudo nosso, nada deles,
essa era a letra da música que tocava sem parar. E foi ele, o Palestrante de alta
patente, que confirmou meu vulgo de
Cão Sem Alma. Disse isso depois que fiz alguns serviços sobre a sua direção e
comando. Extorqui usuários que deviam drogas, espanquei fracos da comunidade
que diziam palavras de ordem e paz, e estavam de conchavo com políticos de
direita, de esquerda, de centro, do que fosse. Ameacei novamente aquele
estudante negro de Filosofia, ele meneou a cabeça e repetiu “Caronte que o leve!”. Assaltei alguns
coletivos, inclusive o de um motorista que adorava olhar a Baía de Todos os
Santos, troquei tiros com facção rival e surrei uma garota que sempre servia
libertinagem e luxúria ao Palestrante de alta patente e o traiu com um riquinho de bairro rico. Esse levou um tiro na
perna de misericórdia ‒ e assim entendi a tal palavra‒... Et cétera, et cétera,
et cétera... Muitos desses episódios ficaram na minha memória e acabei passando
para o papel, delineei os traços
como se uma onda espiritual me tomasse ao fazer os desenhos, era unicamente o
que me dava prazer: desenhar. Guardei todos numa pasta velha. Segundo ele, o
Palestrante de alta patente, eu
continuava estúpido, mas o ódio transpirava minha respiração, minava em meu
suor e a raiva saltava dos meus olhos, e era isso que ele queria ver nos seus
comandados.
Naquele
trigésimo terceiro dia, estava sem função no bando do Palestrante de alta
patente, era como se estivéssemos de folga, mas não existe folga no crime.
Então, resolvi procurar minhas próprias vítimas e fazer dinheiro. Limpei minha
ponto quarenta que o Palestrante de alta patente me fez pagar por ela. E
paguei. Orei pedindo proteção a Deus como um bom filho dele que sempre fui ‒ o
Palestrante de alta patente sempre nos guiava com Deus ao nosso lado, ele
sempre lembrava que o Senhor era justo e amparava os pobres e necessitados que
saíam a luta diária, como fazíamos‒
e saí andando inicialmente. Nessas horas, gostava de trabalhar sozinho. Cheio de indecisão, cheguei ao Centro, e
perambulava pela Avenida Sete de Setembro.
A rua estava quase deserta, farmácia e mercados abertos, não sabia o que
escolher para assaltar. Passei por uma farmácia e ia entrar, mas apareceu ao
fundo um gigante com um volume por dentro das calças, resolvi voltar atrás, ele
veio até a porta, parou e olhava de longe. Depois vi quando falou ao telefone,
resolvi sumir dali e peguei o caminho para Avenida Joana Angélica. Cismei
também com dois homens que vinham em sentido contrário ao meu, eram suspeitos,
assim como eu. Tinham saído da estação do metrô do Campo da Pólvora. Olhavam de
soslaio, fingiam que não estavam para mim, mas eu sabia que monitoravam o olhar
em minha direção. Deixei que se fossem. Passaram dois carros, pararam na
sinaleira, pensei em tomar de assalto algum que estivesse estacionado, esperava
o dono e tomava o que era meu por destino e que foi reservado para mim, por
Deus. Mas estava tudo muito sinistro, parecia que havia policiais escondidos e
esperavam que eu agisse para dar voz de prisão, ou até mesmo atirar para me
matar. Visto que, os crimes que havia participado sob o comando do Palestrante
de alta patente, me tornavam conhecido. Em seguida, pensei em chamar um carro
de aplicativo, ou um táxi, sentar atrás do motorista e depois de alguns metros
anunciaria a abordagem, se não obedecessem, dava um tiro na nuca e acabado,
levava o carro. A dúvida me carregava e não sentia a firmeza que tinha ao sair
liderado pelo mestre Palestrante. Que iniciativa ele tomava diante daquela
hesitação e cisma. Podia ser uma desconfiança gratuita, sem real perigo, mas
não era o que se passava. Vi ao longe um coletivo, continuava na indecisão, o
motorista passou e mirou minha imagem. Talvez fosse curiosidade de passante, de
qualquer forma, não gostei como fitou o olhar em mim. Aquele vírus deixava as
pessoas com medo de saírem às ruas, não havia vacilão fácil de achar. E não estava com medo, nem drogado.
Dificilmente o medo me tomava, apesar de achar que todo bandido era medroso,
uns mais do que a vítima. E nunca gostei de drogas. Outros bandidos usavam como
desculpa, até se fossem presos, diziam na delegacia que estavam fora de si por
causa da droga. Aquilo era covardia maior. Era inaceitável. Devia constar no
estatuto do crime que o bandido só seria alçado à condição, ou categoria, de
máster se não usasse droga. Principalmente porque o Palestrante também não
gostava. Éramos essenciais à sociedade hipócrita, o Palestrante de alta patente
nos deixou isso bem claro em nossas mentes. Éramos quem fazia a economia rodar.
Havia muitos casos em que homens de bem, respeitados
aqui e ali, na sociedade hipócrita, nos procuravam para fazer parte das
falcatruas. Como diziam nos noticiários “das laranjadas”. O Palestrante de alta
patente tinha um caderno cheio de nomes desses homens. Geralmente políticos,
milicianos que queriam o poder a todo custo e que depreciavam e desprezavam a
comunidade quando não era época de voto. Eu, que tinha pouca capacidade de
entender certas coisas, não confiava naqueles homens. Eram iguais a mim, só se
vestiam melhor. Ouvi uma das conversas
do Palestrante de alta patente com Marina Cadelão, a loura que lhe fazia todo
tipo de serviço ‒ entre tantas, principalmente meninas novas que não gostavam
de ir à escola‒, que um daqueles donos do laranjal contraiu o vírus e estava no
hospital muito mal das pernas, do pulmão, da tosse, da respiração, com a
pressão arterial nas alturas, o açúcar a explodir pelos poros, enfim. O
Palestrante de alta patente dizia
que era castigo. Aquele, sim, que era um homem ruim e devia ser castigado
segundo o antigo testamento, as leis do Senhor. Homens como aquele, viviam
travestidos entre as pessoas‒ geralmente idosos tolos, doentes que viviam de um
passado remoto, ou pessoas de boa índole‒ como extraterrestres disfarçados
rondando ao redor. Quando passava a época do voto voltavam a ser bestas feras.
Mentiam que aplicavam dinheiro aqui e ali, que rendia fundos para aqueles
velhotes, ou para aquelas pessoas, e na verdade era um assalto carregado de
linguagem rebuscada, criptografadas que os velhotes, ou os de boas índoles não
percebiam. E os pretos, pobres da periferia, que moravam a beira de barrancos,
acordavam de madrugada assustados com a chuva, cheios de medo, receosos e
desesperados com a possibilidade de a casa descer a ribanceira com as crianças
dentro e adultos inválidos. Pretos e pobres que não eram bandidos, eram sim
honestos e honravam seus caráteres, diferente de mim, por exemplo. Pretos e
pobres que não ouviam palestras de como proceder durante um crime infernal.
Pretos e pobres que, aí sim, se reuniam para se defender desses homens, homens
brancos, em sua grande maioria. Eram esses pretos e pobres que levavam a fama
de criminosos na sociedade hipócrita. Ouvi o Palestrante de alta patente dizer
que a culpa e os crimes procediam primeiramente dentro dos padrões da sociedade
hipócrita, ainda segundo o Palestrante, nós servíamos de exemplos como
fraudadores financeiros. Não usávamos paletó caro, nem descíamos de carros
grandes e automáticos e, ao contrário deles, tomávamos na violência. Eles
tomavam na diplomacia, na linguagem de efeito e na boa aparência. Lesava a
consciência. Não entendi aquilo de fraudador financeiro, nem de lesar
consciência. Entendi que homem branco não presta, é manipulador e corrupto. E
não era maioria, não. Eram todos. E quando pensava nisso, quando lembrava que
moravam e comiam bem, que seus filhos estudavam nas escolas caras e tinham mais
chances na vida em comparação com os da comunidade de periferia. Que viviam em
conforto de ar condicionado, água quente para banho, água geladinha para beber,
suco de carambola, cafezinho, pão delícia, pão com queijo e presunto, torta de
chocolate, pratos de carne cozida bem quentinho, lagosta e bacalhau. Ora pois,
diria o português da padaria que assaltei quatro vezes. Meu ódio subia pelas
têmporas e acabava fazendo uma vítima que tinha uma vida parecida com a minha.
Às vezes me arrependia, quando pensava sobre aquelas coisas de homem branco. Em
outras, não.
Desempenhava
meu papel na sociedade hipócrita com um ódio descomunal, mas com muita fé no
Senhor Jesus Cristo. Na verdade, não sabia qual era o meu papel, além de odiar
brancos e polícia. Uma vez, há um ano e meio, mais ou menos, muito antes da
pandemia e quarentena, estávamos reunidos na Baixa do Soronha, em Itapuã, no
bar de Chokito. Como disse, gosto de andar sozinho, mas naquele dia íamos
combinar o assalto a uma grande rede de supermercado. Éramos cinco, além de
mim, havia o negrinho magro Sariga, o negro alto e forte Thanos, parente do
Palestrante de alta patente, Adriano Ciclone e Val Cara de Rato. Esperávamos o
Palestrante de alta patente para dar
as ordens e distribuir a função de cada um. Tínhamos que fazer um milhão, se
encontrássemos o que devia estar nos cofres da empresa. Sentados numa mesa, nem
olhávamos paras as pessoas. Adriano Ciclone e Val Cara de Rato, os dois tocavam
o terror na Soronha e eram temidos por todos por ali. Praticamente todos
conversavam com uma certa distração. Eu estava calado, encostado na parede, de
frente para a rua. Fui o único que vi os dois despontarem no início da rua e
vir em nossa direção. Não achei que houvesse necessidade de alertar os
comparsas, achava que não podíamos nos inibir e ficar constrangidos com aquele
tipo de gente. E continuei calado, enquanto os outros conversavam. Os dois
policiais aparentemente bêbados e fardados ainda não tinha nos visto, mas Val
Cara de Rato os viu, em seguida, e chamou atenção, de qualquer forma eles iam
para o bar de Chokito beber. Um deles olhou atravessado, mas não disse nada,
fechou o semblante como dia nublado. O outro passou a olhar insistentemente
para Val com ares de confusão. Os dois eram policias que faziam ronda de
motocicletas, cada um em seu veículo, mas andavam fardados, armados e parecia
que começavam a folga. Quando notei a maldade nos olhos do que nos olhava e analisava
a turma, fiz menção de puxar minha arma e atirar nos dois. Mas, Thanos, com
quase seus dois metros de altura por mais três de largura, parente do mestre
Palestrante e homem de total confiança do chefe, segurou meu braço. Mas o gesto
foi tão explícito que o policial notou, voltou e nem conversou. Saiu dando tapa
em todos da mesa. Eu e Thanos nos levantamos e nos afastamos. Ciclone e Cara de
Rato correram. Sariga foi o último a perceber a abordagem sem limite e sem
razão dos canalhas, patifes, desprezíveis. E foi Sariga quem recebeu o sacode
iaiá. Meu ódio fervia tanto que cheguei a babar, enquanto os dois policiais
espancavam o parceiro magricela. Soubemos depois, pelo correio da bandidagem,
que alguns dias atrás, em um domingo de futebol na comunidade, Cara de Rato
discutiu energicamente com aquele policial durante e depois da partida.
Sabia-se que Rato era odiado na Soronha, Adriano Ciclone também não era de
poupar ninguém, nem tampouco serenar as coisas, mas era político e resolvia as
confusões protagonizadas pelo parceiro, muitas vezes por ele também, com
diplomacia e conversa. Mas a comunidade não aprovava e não gostava das atitudes
demoníacas de Val Cara de Rato. E aquele policial estava informado sobre o
companheiro que batalhava o cotidiano da vida, do progresso de nossas vidas que
o Senhor nos designou, contra a sociedade hipócrita. Cara de Rato parecia muito
fisicamente com Sariga. E provavelmente por isso aqueles policiais o
espancaram. Além de que, Sariga era magricela e tinha aparência de fraco, mas
um soco daquele negrinho magro derrubava os dois. Os dois passaram a bater, dar
murros na costela e na cabeça, telefone no ouvido, xingavam et cétera, et
cétera, et cétera... Enquanto eu e Thanos olhávamos calados. Nunca esqueci
aquele dia, primeiro a covardia de Ciclone e Cara de Rato. O próprio mestre
Palestrante de alta patente matou os dois, depois da audiência da cúpula nobre
da bandidagem, evidente que seriam sentenciados culpados. Fugiram como galinhas
assustadas e deixaram três parceiros que não eram da área segurar a
desarrumação e balbúrdia que eles próprios haviam estabelecido, isso pesou no
julgamento e decisão final. Por outro lado, outra covardia. Não sei se maior,
menor, ou se outra intensidade qualquer. Os policiais bêbados, fardados e
armados usavam o benefício da farda e da função na sociedade hipócrita para
subornar tal situação e espancar o outro. E sentia-se o deleite do homem ao
bater no outro, o desejo atroz e o prazer da violência. Eu entendia aquela
emoção entusiasta e se não fosse Thanos, eu propriamente anunciaria a tragédia.
Minha boca aguava de ódio e raiva naquele instante. Mas o rosto de um deles
ficou registrado em minha memória, jamais esqueceria aquela face dominadora e
que nos deixava refém do medo. Fiz uma série de desenhos com aquela situação, o
rosto daquele policial traçado, cada vez mais nítido em minha mente, era o
único que não estava na mala velha em que os guardava. Colei na parede. Dizem
que a memória inventa. E inventa mesmo. Mas aquele rosto não seria imaginário
para mim e uma certeza ‒ talvez a única certeza de minha vida até aquele
momento‒ de que eu o enfrentaria em breve e ia curá-lo daquela insanidade
covarde de surrar impunemente. Eu seria a cura daquele patife infame. Canalha
da pior espécie.
O
crime que ia cometer naquele trigésimo terceiro dia era pouca coisa. Ia tomar
algo de alguém, vender e comer algo satisfatório. Nada de banquetes; lagosta ou
bacalhau. Um prato de carne cozida quentinho, sim. Costumava guardar o dinheiro
dos assaltos e dos trabalhos em bando numa caixa de sapatos. Ficava escondida
embaixo de um piso falso, logo na entrada da casa, na comunidade. Ninguém
sonhava que ali fosse um piso falso. Na última vez que contei, o saldo de quase
dez anos no crime, tinha quase cinquenta mil. Nunca gastei dinheiro
inutilmente. Aprendi a lição depois do assalto à creche-escola, de lá para cá,
agora com vinte e cinco anos, tornei-me um bandido responsável, ciente de
minhas obrigações para apavorar a sociedade hipócrita. O Palestrante de alta patente
foi fundamental no meu progresso e cumpriu com a promessa que ele fez a mim,
depois que voltei naqueles dias de detenção, ainda com treze anos, ele soprou
ao meu ouvido que faria com que eu crescesse e me tornasse um homem importante
e essencial à vida. Pensava em comprar uma casa em Monte Gordo, tinha parentes
lá. Uma tia, irmã de minha mãe. Chamava-se Durvalina, morava com a filha Sara;
uma prima que eu gostava muito. Talvez fossem as duas únicas pessoas que me
lembravam que existia amor. Talvez, não, eu tinha certeza que amava elas duas.
Sempre levava algum dinheiro para elas. As duas achavam que eu trabalhava para
alguém rico. A sociedade hipócrita dos estados
unidos do brasil é rica e pode sustentar a todos que estejam na condição de
pobreza. Era só dividir bem dividido o quinhão e isso não acontecia. Tínhamos
que tomar de quem sobrava. Ajudei na reforma da casa delas, bati a laje,
comprei os pisos e pintei. Ao lado havia um terreno, pedi ao dono paciência que
ia pagar e construir minha casa ao lado. Mais do que depressa, ele vendeu a
outro. Depois soube que haviam lhe contado que eu era um bandidão do bando do
Palestrante de alta patente. Minha tia não acreditou, mas minha prima estava na
dúvida. Senti isso quando ela me olhava e parecia analisar meu comportamento. O
Palestrante de alta patente sempre nos instruiu a reparar os olhares. Ele disse
que o olhar revelava o que a pessoa pensava e aquilo era um tipo de psicologia.
E comecei a entender o que significava agir psicologicamente. Sara começou a prestar
atenção e questionava, às vezes com insistência, sobre onde trabalhava e com o
que. Mas apesar da perspicácia que banhava minha prima, a desconfiança que lhe
tomava com as coisas que eu fazia, ela não parecia entender que éramos fracos e
facilmente descartáveis pela sociedade hipócrita. Não entendia isso muito bem,
passei a enxergar melhor as coisas depois que o Palestrante de alta patente com
sua oratória dialeticamente underground
‒ expressão que ele usou e nos fez aprender, alguns decoraram, eu não esqueci a
expressão, mas ninguém sabia o que significava ‒ situou a periferia no discurso
daqueles homens que nos procuravam para cometer os erros no lugar deles. Em sua
palestra significativa para a irmandade da periferia, em especial para mim,
comandada primeiramente pelo Senhor Jesus Cristo, o Palestrante de alta patente
clareou nossas ideias, disse-nos que servíamos para desviar atenção da
verdadeira operação criminosa que assolava os estados unidos do brasil. Enquanto as notícias na mídia eram intermediadas
com nossas ações, os outros crimes contra o povo ficavam ocultos e
consequentemente impunes.
A
calçada vazia, poucas pessoas, a maioria faziam o que tinha de fazer na rua e
logo metiam-se em um carro e iam embora. Tudo era tão rápido que o surpreendido
era eu. Resolvi roubar passageiros de um ônibus qualquer, esperei a lotação num
ponto até cansar. Não havia ônibus circulando, aliás, havia, mas o prefeito e
os empresários do transportes de semblantes vampirescos, gostavam de dinheiro
mais do que os criminosos, meus irmãos. Esses insetos que viviam sob
ar-condicionado só pensavam e agiam para lucro próprio. Haviam reduzido a frota. Depender de
transporte coletivo durante a quarentena da pandemia era uma eternidade.
Resolvi sair andando, um vacilão tinha que aparecer. Ia tomar
tudo que era meu, que o Senhor designou que fosse dado a mim e que não ficasse
com aquele pecador usurpador e usurário. O Palestrante de alta patente sempre
ao fim das orações dizia “lembrem-se,
Jesus Cristo é o nosso guia, ele foi o maior revolucionário, o homem da justiça
que pregava a divisão de tudo que há na terra, seguindo os ensinamentos do
Senhor, vamos tomar tudo o que nos pertence também”. Parecia que quando nos
lembrávamos desse mantra equalizador as situações terríveis emergiam para que
agíssemos, sempre funcionava comigo. Uma vez, tomei toda a correspondência do
carteiro, há alguns anos, depois daquele episódio com a velhota que me mandou
estudar e o assalto à creche-escola. A maioria era cartão de crédito, não sabia
o que fazer com aquilo, joguei tudo na vala de esgoto da comunidade. Depois as
crianças acharam e ficaram brincando de bacanas. Em outra oportunidade, lá no
estacionamento do mercadão da Barros Reis, a madame vinha com o carrinho cheio
de compras. De salto alto, vestia um short minúsculo e uma blusa de algodão e
óculos escuros. Eu e Buldogue, primo de Gato Manso que já estava morto há algum
tempo, havíamos tomado um Fiat de assalto na Sete Portas e queríamos um carro
mais potente, mas quando vimos a mulher com tanta pompa e cuidado com as
compras, resolvemos levar tudo. As compras e a bolsa. Justamente depois que
oramos com fervor a paixão de Cristo. Ele sempre nos mostrava. Mas naquele
trigésimo terceiro dia as coisas estavam difíceis. O medo generalizado era que
os leitos de UTI’s não fossem suficientes. Eu, já havia dito na comunidade, que
não acreditava em vírus nenhum. O Senhor não ia deixar que aquilo nos atacasse.
Estava claro que era um castigo dos céus para quem não louvava. Os crentes
passavam em romaria pela rua. Em seguida, enquanto perambulava de olho aqui e
ali, passei em frente a um terreiro de candomblé. Vi algumas mulheres vestidas
de branco com um turbante na cabeça. O lugar parecia movimentado, todos usavam
máscaras. Alguns bandidos tem medo de quem é adepto do candomblé. Para mim eram
sempre pessoas que deviam ser assaltadas. Se levavam dinheiro para orixás e
santos de barro, aquele dinheiro pertencia a pessoas como eu. O Senhor sempre
nos mostrava. Achava que havia terminado algum tipo de culto, as pessoas
estavam reunidas e comiam sorridentes, o azeite escorria e deixava as máscaras
e as bochechas amareladas. Entrei para anunciar o assalto, mas antes disso,
apareceu ligeiramente uma negra magrinha de turbante colorido, a única de
turbante colorido e me ofereceu um prato daqueles. Tinha caruru, vatapá,
galinha, feijão preto, feijão fradinho, banana frita, arroz e pipoca. Senti
novamente o que havia sentido com aquela velhota anos atrás quando não consegui
assaltá-la. Era uma onda muito forte que emanava ali. Parecia que havia algo
invisível e observava as intenções dos que estavam presentes. Inclusive eu, que
estava com fome e não fiz de rogado, comi tudo que havia no prato que a negra
magrinha de turbante colorido havia oferecido. A primeira vez que agradeci algo
em minha vida. Dei conta que nem ao Senhor eu agradecia as minhas investidas do
crime. Desisti de assaltar o terreiro. Saí de lá pensando em cultuar o orixá
que regia minha cabeça e nunca quis saber qual era. Que ninguém do bando soubesse
de minha fraqueza, era asneira gigante usufruir das coisas que eram oferecidas
gentilmente e sem maldade e, em seguida, não anunciar o assalto. Segundo o
Palestrante de alta patente devíamos reconhecer o momento da fraqueza da
vítima. O problema é que fiquei na dúvida se aquele momento era de fraqueza, ou
medo de mim, ou benevolência, gentileza da negra magrinha e daquelas pessoas
que me observavam comer como se estivessem felizes em saciar minha fome. Aquilo
deixava minha cabeça em rebuliço. Sentia que devia devolver a gratidão, era um
sentimento esquisito, de repente, lembrei do bolo de chocolate que minha fez
quando completei cinco anos. Parecia uma lembrança sem fundamento e
desnecessária, não sei o motivo que a memória mexeu comigo. Dei de ombros, um
muxoxo insatisfeito com a vida, ajeito meu bico monstruoso e segui meu caminho.
Nem esperei o refrigerante, também não agradeci nada. A vontade de assaltar
passou, não tinha mais fome. Enquanto andava, pensava sobre a vida, sobre minha
mãe. Bandido não chora, nem se aflige, nem sucumbe na angústia saudosa. Fica
angustiado para fazer estrago e mexer na coluna de sustentação da sociedade
hipócrita. Ajeitei minha ponto quarenta no dedo, dentro do bolso da frente. Não
gostava de colocar minha arma nas costas. Sempre pensava que o inesperado podia
acontecer e a surpresa ser minha algoz. Andava pronto e engatilhado. Achava que
havia decidido voltar para casa. Sem fome. Tinha folga no dinheiro, podia usar
algum caso fosse necessário. Perambulava sem ideias, lembrei do estudante de
Filosofia da comunidade. Ele se tornou um dos líderes da comunidade e
trabalhava na creche-escola. Algumas vezes, ele reunia os meninos que o
Palestrante de alta patente ainda não havia recrutado e conversava sobre ser
super homem, sobre criar motivos para a vida que se constrói. O Palestrante de
alta patente já o havia advertido sobre as mentiras que ele contava para as
crianças. Diversas vezes ouvi ele dizer que Deus estava morto, mas que havia um
deus dentro de cada um de nós. O
herege já havia levado surra por causa dessas conversas com as crianças da
comunidade. Já havia visto a motocicleta em minha direção. Parou para o sinal
vermelho. Constatei que quem estava em cima do veículo me olhava com interesse.
Percebi o movimento e antes que o braço dele alcançasse a arma, a minha
primeira bala já havia atingido o abdômen. A segunda a perna direita. A
terceira fatal no peito.
Aquele
trigésimo terceiro dia foi glorioso. O policial que espancava bandidos na
Soronha estava morto. Foi o melhor desenho que fiz de uma cena protagonizada
por mim. Fiz em aquarela com caneta nanquim e colei na parede do barraco.
Eu
era essencial à sociedade hipócrita.
Carlos Vilarinho
Julho 2020
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