QUANDO O UNIVERSO GOZA
Enquanto Trovão, um
pinche de meia idade, subia por trás do sofá para surpreendê-la alegremente e
para seu deleite, Sofia conversava sobre encontros com Antoninho. A ideia era
verem-se para conversar, muito provavelmente confortáveis numa cama de casal em
algum interior, ou na beira de algum extenso litoral praieiro. Há anos só se
viam pela tela dos aparelhos através de um aplicativo. E estavam distantes um
do outro mais de mil quilômetros. Antoninho numa cidade da Bahia, Sofia no
interior de Minas Gerais. E assim, desafiando a relatividade do espaço conquistaram-se.
No entanto, Sofia era dona de um pudor quase hermético desde cedo na infância
que transbordava religião. Nunca houve quem a pegasse, ou jamais se deixou
pegar. Ela própria não definiu essa situação. Antoninho imaginava e as vezes
dizia a ela com a cara de jacarandá que lhe era iminente que queria mesmo era
comê-la. Parecia Macabéa, mas era mais esperta. Ainda assim, Sofia pensava
livremente que talvez não fosse necessário ser mais esperta do que ninguém só
frequentar a igreja católica.
− Que horror, Sofia!
Ela encolhia os ombros e olhava para o lado.
Achava-se livre e simplória que há oito ou nove anos caiu no conto de Celita,
uma amiga sirigaita, e entregou-se a Tomtom.
− Parecia algo, menos
homem. E dentuço.
− Mas você gostou dele.
− Não. Homi feio.
− Mas pra que porra você
foi dar a boceta para esse dentuço feioso?
Sofia se arrependeu
amargamente. Nem ela, nem Tomtom entendiam de sexo. Primeiro que ela usava
calçolão e ele cueca samba-canção, segundo: ele meteu as mãos de primeira nos
seios de Sofia que ainda eram durinhos e apertou como se fosse uma tampa de
azeitona. A mulher sentiu uma dor insuportável. Depois não sabia como introduzir
aquele pau branco e torto de tanta punheta na boceta fechadinha e cabeludinha
de Sofia. Quando conseguiu produziram um coito como se fossem cães, ele com a
língua a saltar pelos lados da boca com os dentes gigantescos que pareciam rir
de um cinema mudo. Foi tudo um horror. Resultado: Sofia teve que criar Sara
sozinha. Confessou a Antoninho o que para ela foi um erro, sim, Tomtom era um
tonto. Só percebeu isso depois de ser consumida. Disse ao dentuço que sumisse
dela e de Sara. Tomtom não sumiu, ficou do outro lado da rua, em frente à casa de
Sofia, todos os dias, não se sabe se rindo ou qualquer coisa do incisivo ou do
canino. Quem sabe até algo vampiresco. Duvido muito que se existir um vampiro,
ele seja tonto, mas. O cara ficou lá até Sara completar dois anos. Não
conseguiu que Sofia mudasse de ideia e voltasse para ele. Nunca disse isso
olhando para ela, só através de bilhetes que mandava por Celita. A alcoviteira.
Sofia não leu nenhum dos bilhetes e não olhava para Tomtom. Sara só soube que,
como ela definiu, aquele cara dentuço, de cabelos louros lambidos e com
entradas de careca, nariz vermelho cheios de espinhas amareladas de pus e
parecia ter saído de desenho animado sentado no passeio do outro lado da rua,
era seu pai no dia que, inquieta com os questionamentos da criança, sem Sofia
saber, Cátia, uma irmã de Sofia meio feminista que foge quando ouve a sirene no
meio do movimento estudantil jogando pedras nos soldados, levou a menina para
Tomtom conhecê-la. Sabe-se lá, talvez tonto como o nome que ninguém sabia a
origem, Tomtom, nesse dia, segundo ele brincando pegou nas partes íntimas de
Sara. Muito provável, sem saber a densidade de sensibilidade, deve ter pegado
muito forte. Sara abriu o berreiro. Curioso que não contou a ninguém, só olhava
o pai com distância de uns dez metros e ele ria inconfundível como Pateta iac
iac com dentões que suspendiam o lábio direito.
A curiosidade
inquietante estava à beira de contaminar Antoninho sobre aquela mulher. Ele
falava para ele mesmo que Sofia não era feia, nem bonita. Era uma mulher comum
que tinha sido tocada só uma vez. Um provável absurdo sem precedentes. Criava
uma filha que muito amava. Talvez esse amor que não fez Sofia mergulhar no
arrependimento de se deitar com o tonto. Não tinha atributos físicos; era
magra, tinha as pernas lisas e muito branca, os seios pareciam bonitos e
causavam vontade de colocar o bico assanhadinhos na boca. Antoninho sentiu
estranheza e acolhimento do olhar de Sofia assim que viu algumas fotos numa
rede social. Ela era estranha mesmo. Certamente não serviria nem para
contrarregra de televisão. Naqueles primeiros momentos diante da câmara do
telefone, Antoninho que dizia muitas safadezas pelo aplicativo de vídeo e Sofia
ouvia uma vez disse encabulada.
− Eu não acho que tenha
algo que um homem da capital se interesse.
Às vezes, dizia isso,
mas no fundo ela também beirava à inquietação da curiosidade de conhecer outra
pessoa diferente das que ela conhecia. Sobretudo o bem humorado Antônio José.
Ficaram somente se olhando uns cinco minutos. Olhavam-se e riam. Antoninho que
vasculha tudo quando olha, teve a impressão de ter visto um movimento breve. Eram
os bicos dos seios eriçados protegidos por um pijama de algodão. O pijama
parecia bem usado, talvez o possível desgaste favorecesse a imagem para
Antoninho. Descaradamente comentou que Sofia deu um lance de seios. Ela riu
cabisbaixa e fez que consertava a alça do pijama. Era naturalmente pudica,
inventou uma desculpa e desligou. Antoninho teve a quase certeza que Sofia
também nutria por ele aquela estranha sensação de homem e mulher. E olhou os
livros na estante, indeciso. Na verdade, não lhe passava pela cabeça fazer
qualquer leitura naquele momento. Estava excitado e o que queria era
masturbar-se imaginando a pontinha dos bicos dos seios de Sofia. Urrou naquele
instante da madrugada e a mão estrangulou o falo duro e firme que fez o pênis
vomitar. Depois voltou e postou-se diante da estante de livros procurando algum
que houvesse uma história de homem e mulher. Viu Tchekov, lembrou de A Dama do
Cachorrinho. Passeou os olhos e parou na Missa do Galo. Lembrou da primeira
leitura que fez do conto de Machado. Recordou o clima de Sedução. Leu outras
vezes e sempre achou Machado cruel com Conceição e Nogueira. Mas ficção é assim
mesmo, às vezes o leitor sente-se perdido, fica na mão como punheta. Além do
mais, quase todas as histórias do Universo são de homem e mulher. Reais e
ficcionais, se afastam, se perdem, reencontram-se e morrem. Ou grudam-se e
sofrem reveses. E Sofia já havia provocado sua firmeza entre os cinco dedos nos
instantes decorridos. Sem conhecê-la de perto, analisando fotos numa rede
social e tomado por uma forte simbiose Antoninho começou a ficar excitado por
Sofia em curtos espaços de tempo. Sofia, pelo seu lado, só sabia que tudo
aquilo era muito estranho e obedecia ao seu pudor com uma leve vontade de transgredir,
baixar a calçola grande que usava e mostrar os tufos peludos para Antonio José.
Mas cadê coragem? Quando ouvia as mensagens de Antoninho que derramavam
safadeza. Sofia notava uma sensação no corpo, uns arrepios, ao ouvir a voz de
tenor que vibrava em seu ouvido. Situações corporais que não conhecia. Nunca
masturbou, confessou a Antoninho. Mas uma vez ele perguntou se ela não se
molhava, ela respondeu a muito custo que sim. Ele insistiu e perguntou com que
frequência. Ela não respondeu. Mas riu. Como um contista mequetrefe, Antoninho
dava − ou inventava− fatos e torcia para que surtisse efeito no corpo e na
mente de Sofia. Uma espécie de estratégia só ele sabia. Aí, enganava.
− Te quero Sofia.
−Rum, você cheio de
mulher na Bahia.
− Só me responda uma
coisa, Sofia, você responde?
− Antonio, Antonio, é
vem você.
− Oxe, criatura, perguntar
ofende?
− Às vezes.
− Responde ou não?
− Eita, homi.
− Sofia... Vamos.
− Pra onde? Responder a
pergunta? É safadeza.
− Não é safadeza e
garanto que você vai pensar sobre o que vou dizer, né, não, leve fé. Você acha
que um homem com quase quarenta anos como eu, vai ficar falando safadezas por
uma chamada de vídeo?
− Não sei se vou
responder pergunta nenhuma. Só estamos conversando.
− Sofia, uma pergunta
não faz parte de uma conversa?
− Tá, eu respondo.
− Você acha que nós dois
fazemos parte do Universo e o Universo faz parte da gente?
Em seguida, Antonio fez
um gesto com a boca de dúvida, talvez.
− Oxi, é essa a
pergunta?
− Sim. Há safadeza, aí?
− Não. Então responda,
Sofia.
− Sei não. O Universo?
− Sim, Sofia. O
Universo.
− Sim, acho que sim.
− Você acha que o
Universo transa com todo mundo?
−Mudou para duas
perguntas, Seu Antonio. Como o Universo vai transar com todo mundo?
− Quando um casal,
qualquer que sejam eles gozam juntos. Ou quando alguém se masturba.
− Às vezes, acho que
você é meio sem parafuso.
− Sofia, gozar junto é
um desafio. Como você acha que a fotossíntese penetra a energia na biosfera? Ou
a leoa guarda seus filhotes feitos com mais de oitenta fodas com seu leão
preferido, doidão com a cabeleira parecida com a de Bob Marley? Tudo isso é o
gozo da natureza e do Universo juntos com fodas e mais fodas.
− Antonio, você é maluco
mesmo.
− Por que? Isso é a
vida, ou uma das leituras de vida e do mundo.
− Não entendo nada
disso.
− No entanto,
entregou-se ao Dentão horrível, ajudante idiota do Drácula.
− Você está passando do
limite, Antonio.
− Ora, só estava falando
sobre o Universo.
− E o que tem a ver
comigo e o pai da minha filha?
− Sua filha é dentuça?
− Quer parar, Antonio?
− Sofia, só me responda
isso, por favor.
− Não, ela não é
dentuça.
− Viu?
− O que?
− O Universo foi generoso,
ela puxou a você.
− Isso é verdade.
− Aí, você gosta. Sofia,
quando o Universo goza significa que a emoção e a razão estão entrelaçados um
ao outro se querendo. Aí a felicidade vai desabar sobre nós.
− Quem lhe disse isso,
Toninho?
− Um cara chamado Tom
Zé.
− Ah, você não inventou
isso.
− A maior parte
inventei, só pra chamar sua atenção sobre minha querença.
− Querença?
− É, minha querença em penetrar
em você. Mas tenho impressão que isso não dá tesão nenhum.
−...
− Qual o motivo do riso?
− Gostei disso tudo que
você falou.
− Sério? Só falei merda.
− É assim que você
consegue os montes de mulheres na Bahia?
− Primeiro que não tenho
um monte de mulheres, aliás, não tenho nenhuma atualmente. Tô querendo você. E
na Bahia, para se conseguir mulher o homem tem que rebolar, eu não consigo
fazer isso.
− Rebolar?
− Rebolar, mexer os
quadris, saber as letras das músicas que são péssimas e muitos acabam gostando
de rebolar que aviadam.
− Mas é uma boa conversa
do Universo.
− Gostou, não foi?
Inventei tudo para lhe impressionar, mas até eu estou impressionado. Comecei a
pensar no que falei e pode até ser desse jeito mesmo. Podemos ser frutos de um
orgasmo.
− Eu não.
− Você não. Você veio de
cegonha. Seu pai sem vergonha meteu a rola dura em sua mãe e você apareceu nove
meses depois.
− Mas que audácia! Não
quero mais conversa.
Sofia desligou a chamada
de vídeo e jogou o aparelho no sofá da casa. Antoninho ficou pensando no
Universo. De fato, ele inventou tudo mas depois se achou um cientista cheios de
teoria sobre a vida, o mundo, as estrelas, a lua e até o sol. Um dia,
conversando com Igrejinha um amigo meio religioso, meio amalucado, frequentava
ao mesmo tempo a Católica, a Evangélica e vivia olhando o sol com as mãos
erguidas e proferindo palavras de Hare Krisna. Às vezes proferia círculos de
catequese. Em seguida, virou-se para Antoninho e largou.
− Você sabia que o sol é
Jesus Cristo.
Antonio fez
imediatamente uma chamada de vídeo para Sofia que não atendeu.
Carlos
Vilarinho 2024
Comentários
Postar um comentário
Comente