SER INFERIOR

 


Quando atendi a chamada do telefone naquele trigésimo terceiro dia de quarentena, não me sentia sozinha, como nos dias em que fazia meus atendimentos em motéis. Naqueles dias meus sentimentos principais eram minhas dúvidas, seria eu essencial à sociedade? A hipocrisia social ia sucumbir ao coronavírus? Tinha quase certeza que não. Dessa forma, sabia que do outro lado da linha estava Gabriel. Havia no ar nossa energia, ele ia aparecer, só não sabia como. Nem quando. Não nos víamos há quase um ano, depois que ele mesmo decidiu amar a mulher com quem casou. Ou, como ele próprio disse, tentar amar aquela criatura que depenava as sobrancelhas com pinça e ar de mulher comum, criando uma imagem espantosa para os olhos dele ‒ depois comecei a notar que só falava assim quando havia discutido com Cássia sobre alguma coisa que ela queria impor com arrogância‒. Gabriel tinha uma dificuldade nefasta e sinistra ao tentar descrever a própria mulher. Até o dia que nos separamos, ele não sabia o que queria dizer com mulher comum. Nem eu que era absurdamente reprovada em interpretar textos, jamais imaginei o que aquela expressão significava também. Aquilo me incomodava, mas nunca lhe disse nada sobre meus anseios doridos e femininos. Amava a incerteza que comia as entranhas de Gabriel enquanto ele estava comigo. A carga de ser mulher é muito grande diante do patriarcado. Esse foi uma parte do discurso que fiz para o homem que amei, o Cláudio. Em seguida, ele me chamou de ser inferior, deu as costas e nunca mais o vi. Fiz terapia durante alguns meses, entendi que a terapeuta tinha receio que eu caísse no mundo das drogas e do álcool. Mas, nunca gostei de álcool, muito menos de drogas, tinha horror dessas coisas. Gostava mesmo era de sexo, acho que a depressão desceu para entre minhas pernas. Enveredei consciente, no mundo da orgia. Então, para me vingar de Cláudio e de todos os homens do planeta, cobrava caro cada encontro com homem mergulhado na aflição da carência. Na verdade, aquilo funcionava mais como uma terapia psicológica. Ou psiquiátrica. Sei lá, talvez. Descobri imediatamente que o homem é um ser fraco. Eles dizem que somos inferiores. O homem é um ser fraco. Homem no gênero mesmo, tem muitos estudiosos que atribuem às mulheres à condição de homem também. Absurdo, só pode ser para justificar as fraquezas deles próprios. Há uma guerra de gênero agora, as mulheres acordaram e se declararam Mulher. Assim com M maiúsculo, o mesmo M de Disque M para matar, filme que, uma vez, Gabriel levou para assistirmos juntos. Ele falava tanto de cinema, de um tal Alfred que fiquei curiosa. Só Gabriel provocava minha curiosidade. Aquela tesourada de uma mulher considerada mais frágil, inferior e idiota em um assassino machista e ladrão foi uma das melhores cenas já produzidas no cinema. Levou Grace Kelly a condição de protagonismo em nossa luta contra a misoginia. Cheguei à conclusão que me tornei misândrica. Que bela palavra que a Simone arranjou. Andávamos juntas desde nossos treze anos. Eu achava Simone um ser inferior pior do que eu.  Foi a namorada dela, a Helen. Negra, plácida, sutil e misteriosa como a noite. Professora de História e que odeia homens que nos contou sobre essa expressão. Gabriel dizia que minha pele era lisa, macia, sem mancha. Sem jaça. Uma coisa era certa, aprendia muito com Gabriel. Ele era professor de literatura. Por isso resolvi atendê-lo, além de ter sido um dos primeiros clientes. Estava muito mal com aquilo tudo, quase arrependida de tantas mãos passearem em meu corpo sem que tivesse desejo. Na primeira vez, ele estava desesperado, achei bom. O melhor de tudo isso são homens deliciosamente desesperados na hora do sexo. O desespero de Gabriel não era igual ao dos outros, era tão ofegante quanto os outros, mas não tão selvagem. Ou tão selvagem que na hora do afã não era capaz de calcular o calibre do desejo. Foi o único que, no primeiro encontro, chegou e perguntou se eu estava bem. Gentil e tímido. Claro que eu não estava bem, estava péssima. Na época, havia pouco tempo do trauma que Cláudio me deixou. Gabriel apareceu na primeira dezena de homens carentes. Não pensava em fazer nada disso. Eu sonhava com uma vida a dois, construir, conversar, discutir a relação. Amava a ideia de ser dona de casa, de esperar meu homem e ser submissa a ele. Cláudio sempre retrucava quando imaginava essa vida com ele, dizia “você é um ser inferior mesmo”. E eu ria satisfeita. Nunca gostei de estudar, achava bonito as outras pessoas se debruçarem num livro, mas eu nunca gostei. De qualquer forma, sempre procurava as meninas mais estudiosas, sabia que ia aprender alguma coisa com elas. Só depois de escalar o poço que Cláudio me empurrou que enxerguei quão idiota eu fui. Depois pensei, será que se eu tivesse estudado e lido as coisas seriam da mesma forma? Helen respondeu que “claro que você seria diferente do que é hoje, Quércia querida”. Depois dessa passagem, Helen olhava para mim curiosa todas as vezes que estávamos juntas. Eu oferecia um sorriso, ela disfarçava e séria como um militar desviava o olhar. Uma vez, larguei uma indireta, bem direta. Com muita sutileza e habilidade ‒ até estranhei, nunca fui sagaz para essas atitudes. Nunca fui sagaz para atitude nenhuma, queria mesmo era que Cláudio me fizesse de escrava dele. Foi algo natural‒ direcionei a conversa para as relações homoafetivas e deixei claro que gostava de homens, mesmo sendo a grande maioria deles estúpidos, idiotas e desconsiderados. Coisa de falo. Foi uma das poucas vezes que vi o lábio de Helen esboçar um sorriso. Entre a ironia e o escárnio. Simone tão burra quanto eu, nada entendeu. Eu disfarcei e ri muito, mas de qualquer forma sabia que a mensagem havia sido receptada. Depois me arrependi. Tempos depois, recebi um telefonema de Hera. ‒ Gabriel me contou quem foi Hera‒ Ela queria encontro e carinho. Inicialmente topei o encontro e ficamos amigas. Dias depois rolou o carinho. Mas escondi de Simone e Helen. 

Em pouco tempo, atendia quinze, vinte clientes, não precisava de rede social, diziam que o serviço era um dos melhores oferecidos na cidade. Morava num apartamento pequeno, desde que vim do interior da Bahia, ainda com cinco ou seis anos de idade. Comecei a atender em motéis da orla de Salvador. Geralmente no Stiep, ou no Jardim Armação. Ia com um Gol antigo que consegui comprar quando recebi meus tempos de um restaurante que trabalhei três anos e guardava dinheiro para viver com Cláudio. Ele me dispensou, tive depressão e perdi o emprego. Juntei o que recebi com o que tinha guardado e fui morar em outro bairro. Morava na Caixa D’Agua, bairro periférico, próximo ao centro de Salvador. Mudei para um bairro mais central e próximo da orla, passei a morar em cima do bairro boêmio do Rio Vermelho, na Federação. Era distante da minha antiga morada, mas em Salvador não há jeito de as pessoas não se encontrarem. De vez em quando, via um ou outro vizinho da minha época de Caixa D’Agua fazendo farra no Rio Vermelho. Cochichavam sempre entre eles quando me viam. Antes de começar minha carreira solo algumas meninas me chamaram para uma casa no centro da cidade, ali pela Carlos Gomes. Chamava-se “A Casa do Sêmen”. Tive vontade de ir, mas era muita exploração, o cliente pagava caro e recebíamos vinte por cento do valor. Além do mais, o lugar era uma incidência de travestis que disputavam conosco. Ser humano é muito estranho, tem homem que prefere outro homem travestido a uma bela mulher. Coisas de cabeças diferentes. Então decidi pagar um anúncio em um site. Não esperei muito pelo meu primeiro cliente em 2015. Lembro que foi um feirante. Ele me ligou às oito quinze da manhã, disse que tinha que ser rápido, pois havia deixado seu box na feira com ajudantes que ele tinha certeza que o roubavam. A psicologia tinha que contar muito nesse serviço, foi a dica que Suellen, uma das meninas da Casa do Sêmen na Carlos Gomes, me disse. No entanto, aquele primeiro homem era um animal. Estúpido e grosso, não estava acostumada e me senti esfolada. Desesperado como um cão vadio e com fome, não esperou que eu ficasse ao menos molhada. Errou os buracos, não sei se de propósito e continuava errando. Tive vergonha de gritar. Tive vergonha de mim mesmo. Deixei para cobrar depois de ter oferecido o serviço e ele só quis pagar a metade. Disse que eu fui fria e seca. Fiquei absurdamente calada, porque achei que ele tinha razão. Ainda assim achei uma atitude muito canalha. Vim saber tempos depois, era própria de homem. O jagunço jogou o dinheiro em cima de minha bolsa, vestiu-se e foi embora. Não durou nem quarenta minutos. Nada de preliminares. No seco. Me senti horrível, pior das mulheres. Liguei para Simone aos prantos e resolvi aposentar minha nova carreira assim que começou. Aquele dinheiro acabou horas depois. Fiquei sem coragem de retornar ao trabalho por quinze dias. Procurei Suellen que ao me receber já esperava por mim.

‒ Sabia que ia voltar, Quércia querida. Não é toda menina que acerta de primeira. Além do mais, você é muito educada e ainda não é dissimulada.

Não sabia o que dizer.

‒ Você tem certeza que esse é seu caminho?

‒ Preciso de dinheiro rápido.

‒ Passe uns dias aqui, converse com as meninas e faça alguns programas. Depois você decide se continua, ou não, linda Kel. Suellen alisou meu rosto como só nós sabemos fazer e me deu um beijo, sem língua, na boca.

Fiquei vinte dias com elas. Sofrimento horroroso, mas aprendi muito e sabia que podia me virar sozinha. Renovei o anúncio no site. E no dia seguinte recebi três clientes. Novamente sofri muito. Três estúpidos canalhas. Um deles disse que ia pagar o dobro, mas que faria tudo que a mulher dele não deixava. As meninas da Suellen tinham me dito para, ao mesmo tempo, ser dócil e submissa, além de tentar mergulhar no prazer, se houvesse condições. E ser dura e ríspida quanto ao pagamento, sempre antes do serviço. Achava que não ia conseguir, mas depois criei uma anamnese‒Aprendi essa palavra com a terapeuta que Helen conseguiu para mim com desconto e que me ajudou a superar a depressão causada pelo canalha do Cláudio‒ nas conversas por telefone para diagnosticar o tipo de homem. Não era fácil, nem todos sucumbiam ao universo que eu criava. A maioria não queria questionamentos. Diziam que já bastava as satisfações que davam às mulheres, sempre mentiras curtas que eram facilmente desvendadas pelas esposas. Estava criado o clima de guerra no seio familiar. Quando viam meu corpo seminu, só pensavam na vagina. Então comecei a especular preço cada vez que percebia o grau de satisfação e surpresa quando os homens me viam. Dobrava, às vezes quadriplicava o preço. Os que entravam no jogo da sedução e anamnese, eu conseguia domá-los como animais que eram. Havia outros, como Gabriel, que eram gentis. Procuravam mulheres como eu para serenar o pensamento e elevar a alma ao nirvana sexual. Esses eram raríssimos. Geralmente eram apaixonados pela mulher e não pensavam em deitar-se com outra que cobrava. Mas apareciam. E assim Gabriel entrou na minha vida. 

Gabriel era casado com Cássia. Pais da menina Safira. Era um casal forjado, concebido numa noite de aniversário de um primo de Cássia, o Pedro, amigo de Gabriel. Segundo ele contou, começaram a beber meio dia e foram até a madrugada. Pelas tantas, Gabriel não sabia mais o que bebia, o que comia entre outras coisas. Acordou nu, no dia seguinte, ao lado de Cássia. Com o tempo a descrição que ele fazia da mulher iam tomando características diferentes. Disse que no início era carinho e beijos. Gabriel era vestido de literatura, contou que queria saber usar todos os recursos literários, eu ficava nas nuvens ouvindo. Às vezes, excedia o tempo dele, mas nunca cobrei. De vez em quando ele pagava a mais. Eu, claro, aceitava.  Uma vez me disse que não sabia quando ele começou a se sentir como o filho de mil homens, sentia tudo pela metade com aquela mulher. Até orgasmo. Ela finalmente terminou prenhe de Safira. O uso do advérbio finalmente, ainda segundo Gabriel ‒ eu não sabia o que era advérbio ‒ foi para designar o real objetivo de Cássia e o modo como conseguiu. Depois desse dia passei a prestar atenção nas palavras que ouvia nas falas alheias que terminavam com “mente”. No entanto, Gabriel divergia sempre. A dúvida parecia comer suas entranhas. Algumas vezes, antes de qualquer coisa, de qualquer ato libidinoso, ele já estava arrependido. Olhava para mim aflito e amargo. Não tenho certeza, mas talvez se sentisse enojado com ele próprio. Interessante que nunca disse que a culpa era minha, parecia que ele gostava de sentir-se réu. Ou, como ele próprio disse certa vez: pecador. Eu sabia que ele era um homem especial, gostava que eu cantasse para ele músicas de Roberto Carlos. Sempre pedia “Outra vez” e fechava os olhos para ouvir meu canto. Havia ocasiões que pedia para eu dançar para ele de lingerie. Depois, fez questão de pagar um curso de dança do ventre para mim. Fez com que eu jurasse que jamais dançaria meu ventre para outro qualquer. E jamais dancei para outro. Uma vez, me disse:

‒ Quércia querida, sou um homem fraco.

‒ E eu um ser inferior.

Ele olhou para mim com a seriedade do mundo estampada no rosto. Ainda que o mundo não seja sério, mas tornou-se naquele momento. Nem eu sei o motivo daquela afirmação infeliz que parece ter entrado no meu inconsciente e tornou-se fala. Mas ele não esboçou nenhuma reação, nem disse nada como se concordasse com tudo. Nesse dia, ficamos juntos toda a tarde. Ele disse que nenhuma aula que fosse dar, ou até que fosse assistir, tinha mais valia do que me amar. E esse foi o dia que ele pagou mais caro pelo meu corpo.

Em outra ocasião, mais distraído e concentrado em meu corpo, lambia por inteiro. Ria em breves intervalos, enquanto olhava meu olho e meu rosto cheio de volúpia e desejo. Naquele dia, Gabriel estava muito disposto para ter meu corpo, as dúvidas de sempre pareciam distantes, raras foram as vezes que o encontrei com essa disposição. Tempos depois, ainda nesse dia, ele disse:

‒ O mundo sempre foi um conjunto de dúvidas, de caos, de desorganização, de violência... Eu acredito nessa redoma... Acredito também que em algum momento um eterno retorno romperá e trará de volta o que deixei escapar.

Não entendi bulhufas. Achava bonito aqueles ímpetos poéticos que ele recitava, desde o primeiro dia que me procurou em 2015. Foi numa segunda-feira, ainda não havia começado o dia, por volta de sete e meia da manhã. Olhei o telefone e havia três chamadas perdidas, três números diferentes. Enquanto olhava os números perdidos, entrou outra ligação. Não sei porque, mas aquele número mexeu comigo. Não atendi e não houve desistência. Depois de quase um minuto, atendi. Era Gabriel. Atendi, ouvi um “bom dia”, em seguida, ele se apresentou, mas continuei calada, em dúvida, sem decidir se servia aquele cliente. Ele insistiu, resolvi dizer algo, falei que ainda estava no horário. Ele retrucou e questionou o motivo de eu ter atendido. Fiquei sem palavras, por segundos. Lembrei da anamnese. Antes que eu entrasse em meu personagem, ele perguntou se eu estava bem. Há tempos ninguém me perguntava essas coisas triviais, nem Simone. Helen só cumprimentava, sempre séria como um militar e às vezes só balançava a cabeça. E Simone dizia que aquela criatura era delicada e carinhosa como um bichinho de estimação. Delicada e carinhosa como um sargento, isso, sim. Resolvi marcar com Gabriel no primeiro horário, às 8h. Havia perdido a apreensão e magia dos encontros. Suava antes de ver Cláudio, por exemplo, meu coração disparava e imaginava as mais belas situações de amor e fantasia. Depois da depressão, curada, fiquei mais dura, inflexível e reticente com essas coisas de amor. Curioso, estava tão inserida no mundo do amor que não conseguia mais senti-lo. Mas, depois que falei com Gabriel, fiquei alguns minutos parada, sem pensar em nada. Aos poucos fui imaginando quem seria aquele homem que não me perguntou de imediato se eu fazia todas as coisas que a mulher dele não fazia. Sem falar que havia dado “bom dia”. Uma onda vibratória do Universo estacionou sobre mim. No nosso primeiro encontro, Gabriel foi gentil como jamais havia sido. Aprendi com Suellen e as meninas da Casa do Sêmen a manter as aparências da sedução, no entanto, sempre armada por debaixo do meu semblante pseudodoce de solidez, rigor e sempre com muita aspereza, mesmo depois do pagamento ter sido feito. Isso era imprescindível, entrou, pagou. Quanto às armas, na pior das hipóteses uma arma branca, ou uma de fogo. Não tinha nem uma, nem outra. Também não tinha coragem de ferir alguém fisicamente. Durante o atendimento, o ideal era deixar-se ser submissa. Ou aparentar que estava submissa, era o que quase sempre decorria. Não era aquela submissão que pensava e sentia desejo por Cláudio, por exemplo, os sonhos que sempre tive em ser mulher de um homem que me amasse tão quanto eu o amava. Não, não era aquele suspense. Era um suspense terrível, misturava medo, angústia apreensão, sem saber o que o outro queria de fato. A única vantagem era que o dinheiro entrava fácil. Sem falar que sempre amei sexo. Com onze anos já sentia desejo por garotos mais velhos de quinze, dezesseis anos. Cláudio tinha vinte anos quando o conheci, eu contava quatorze. Verdade que não era mais virgem. E minha libido sempre apontava para volume e frequência máximas. Quando o vi, bebendo cerveja em um domingo depois do baba, sem camisa e com o cavanhaque por fazer, meu corpo todo arrepiou. O dele também, segundo me disse depois. Namoramos anos com muito sexo, engravidei duas vezes e ele fez com que eu abortasse. Seguia suas ideias, também não tinha certeza se queria ser mãe. Não me entreguei para mais ninguém. Tive vontade, mas não fui. Um amigo dele mesmo, o Tiranossauro Alex, carregava a boca cheia de aparelho nos dentes, pareciam com um animal feroz. E quando me via, os olhos da cara só faltavam pular fora, e a virilha pulsava como coração com medo. Tive vontade de ir com ele, mas não fui. Além de outros, mas Cláudio sabia o que fazer com meu corpo. Era fiel e acreditava no amor em contramão. Ao final, Cláudio disse que eu era um ser inferior. Mesmo com resignação de forças, sou uma mulher forte, doeu até atender aquela ligação sete e meia da manhã de uma segunda-feira, era Gabriel.

No primeiro dia, ele se comportou timidamente. Fiquei desconfiada, aquele comportamento não era o costumeiro. Ele já estava no motel e me recebeu com um sorriso sem graça no rosto. Me senti influenciada por ele, algo muito forte girava entre nós dois, não tive ímpeto de cobrar imediatamente, mas lembrei de Suellen.

‒ Quércia querida, não se engane com homem, todos são canalhas. Cobre sempre antes de tirar a roupa.

Depois de alguns minutos, enquanto nos olhávamos, ele com um sorriso leve no rosto e tímido e eu sem saber como proceder. Lógico que astúcia nunca foi meu forte, mas percebi uma situação diferenciada. Havia leveza naqueles instantes e isso nunca acontece. Depois que relatei para outras meninas, todas ficaram com cara de bobas me olhando. Algumas sem acreditar e outras sem saber o que pensar, ou falar. Gabriel tentava mostrar-se dono da situação, mas me tratava como se estivesse numa paquera. Falei num impulso, sem pensar direito, o preço do serviço. Só depois, enquanto ele contava o dinheiro, percebi que havia cobrado cem reais a menos. Fiquei embaraçada, gaguejei, mas não arranjei coragem para reparar o ato falho. Tirei a roupa e fiquei só de calcinha de renda. Raramente disponho desse tipo de acessório para quem quer que fosse, geralmente uso uma mais cavada de algodão, mas, intuitivamente, naquela manhã de segunda-feira, fiz questão de me arrumar com mais cuidado. Era um lingerie bem comportada. Finalmente Gabriel olhou para mim e percebi seu desejo. Naquele dia, ele estava tão desesperado que inicialmente não funcionou. Acho que eu relaxei primeiro, isso também é raro, quase nunca relaxava. Conversamos sobre algo que não lembro e só então ele deu conta de mim. Não atendi mais ninguém naquela manhã. E desde aquele dia, ele sempre usava um turno inteiro do dia comigo. Algumas vezes, passava o dia inteiro. Contou que era professor de literatura e viva angustiado com a vida e com o casamento. E, ainda naquele dia, muito distante da quarentena do coronavírus, nós dois nus e, para minha surpresa, eu estava muito satisfeita e embevecida, Gabriel me disse extasiado:

‒ Você é essencial à sociedade.     

No dia seguinte, enquanto atendia a um corretor de imóveis de luxo que a mulher havia fugido com o pastor, comecei a me sentir essencial à sociedade. Enquanto aquele corretor, de classe média alta, se satisfazia com meu corpo, dizia coisas desconexas. Parece que a mulher dele chamava-se Miria, foi assim que ele me chamou o tempo inteiro. Em seguida, perguntava pelo pastor.

‒ E agora, Miria, ele vai te ajudar? Cadê aquele pastorzinho de merda?

Cobrei cinco vezes a mais o atendimento, ele me deixou dolorida, com náusea e ânsia de vômito. Lembrei que ao sair, ele me agradeceu e disse que se a vida só tivesse mulheres como eu tudo seria melhor e mais fácil. Homem canalha. A imagem de Helen, num domingo de feijoada, aqui em casa, discursando em como o mundo seria melhor sem os homens jorrava em minha memória. Na semana seguinte, atendi um balconista de loja de matérias de construção que havia perdido o emprego. Recebeu a indenização e me procurou. Com um cinismo latente no rosto, contou que assediava a encarregada da seção de casa e decoração e acabou demitido, quase ia para a delegacia. Para evitar escândalo na mídia, o gerente da loja não usou de justa causa e ele recebeu os oito anos que trabalhou ali. Estava com as burras cheias, diria minha vó, quando a situação envolvia boas quantias, no interior da Bahia. Segundo ele, éramos muito parecida. Sem perder a doçura, baixei minha memória, aliás, era o que sempre, desde criança, evidenciava em mim: a minha memória. Lembrei de semanas atrás quando fui fazer orçamento para a casa onde ia morar. Foi aquele homem quem me atendeu com um sorriso pernóstico no rosto. Para não perder o dinheiro do cliente, mas já arrependida de tê-lo recebido ‒ arrependimento parecia companheiro de leito ‒ comecei a anamnese sensualizando. Por dentro estava dura como uma rocha. E em minha memória brilhou Gabriel. Aquele homem deve ter visto um breve riso de satisfação no meu rosto correspondente à minha lembrança, provavelmente achou que eu estava entusiasmada com ele. Como havia dito que as notas ainda estavam quentes no bolso, dei o preço quadriplicado e com duração estabelecida, o tempo não para, não envelhece e o atendimento já estava ocorrendo, disse-lhe que estaria disponível para ele mais trinta minutos. Percebi a hesitação, mas para não deixar o pagamento escapar, fiz uma pose com as pernas entreabertas, caras e bocas, enquanto me apoiava na cadeira. Ele caiu direitinho. Todo homem é fraco. Naquele dia, me senti uma mulher‒diaba e, desde ali, não tive mais dificuldade de entrar em minha personagem diabólica. Foi o homem que criou o diabo e o tornou essencial à sociedade. Há controvérsias existentes sobre isso, mas a ideia inicial era essa que Helen passava para mim e Simone.     

‒ Quando estás vestida/Ninguém imagina/os mundos que escondes/sob as tuas roupas.

Gabriel disse isso para mim uma vez. Ele pediu para que eu o esperasse vestida. Aliás, ele preferia que eu o atendesse vestida. Enquanto os panos caíam, ele dizia essas coisas de um poeta. Ele disse o nome, mas não prestei atenção. Mas essas palavras eu lembro. Disse também que amava me despir, eu adorava isso. Era gentil, leve, carinhoso. Eu me sentia mais mulher, mas era diferente daquela mulher que Cláudio menosprezava. Só então comecei a entender que não se deve sucumbir à escravidão. Helen dizia isso sempre quando bebíamos aos domingos. Dizia e olhava para mim, sempre séria como um sargento. Havia em mim uma mudança em gestação. Trabalhava com meu corpo, vendia ele. Curiosamente não me sentia inferior, como Cláudio dizia. Depois soube que ele dizia essa infâmia para todas mulheres que conhecia e se relacionava.

Naquele trigésimo terceiro dia de quarentena, depois de atender a ligação de Gabriel. Ele, Cláudio, o tonto e boçal, me procurou. Não deve ter sido difícil me achar, minha figura estava estampada em alguns sites de relacionamento e de atendimento sexual. Fiquei assustada quando ele se anunciou pelo interfone, achei que fosse Gabriel antes do horário marcado, ele fazia isso de vez em quando. Meu corpo balançou, mas quando atendi e ouvi quem era, minha cabeça aprumou minha alma e meu ego de mulher. Meu corpo não balançou de desejo, ou de felicidade, talvez de mágoa. Dizem que mulher não esquece traições, nem maus-tratos. Ninguém esquece. Pensei em não recebe-lo, mas seria admitir a inferioridade que ele tanto dizia. Naquele trigésimo terceiro dia de quarentena, Com a pandemia do coronavírus que flutuava na vida, notei que, aliás, há anos já sabia que não existia mais espaço em adorar ser vítima. Só não havia colocado em prática ainda. Apesar de ter enfrentado, sempre sozinha ‒uma mulher decidida e dona da sua vida só é acolhida, consentida e submetida à solidão ‒ alguns equívocos e bulhas com homens vis e patifes. Talvez ainda seja o que há em numerosa quantidade e constância no mundo. Quando entrou em minha sala, eu estava de roupão. Começava a pensar a roupa que colocaria para Gabriel, ele havia dito quarenta minutos. Perguntei o que queria e pedi para ser breve, ele disse que havia se arrependido e que veio me tirar daquela vida.

‒ Quem você pensa que é, Cláudio?

‒ Ora...

‒ A minha vida é muito melhor do que a sua. Devia se envergonhar do que faz e do que diz. Não sou mais aquela mulher que sucumbia ao senhor Cláudio, senhor de merda. Não esqueci, entre centenas de coisas que você fez, que até diploma de conclusão de curso de segundo grau você comprou, não sei como conseguiu, mas aqui é o país da impunidade e prostituição, estamos no mesmo nível, Cláudio. Com a diferença que eu só envolvo outras pessoas para o prazer comigo... Se eu der uma queixa na delegacia somente sobre seu diploma você pega anos. Os maus tratos e toda violência psicológica e opressão não posso mais provar, as marcas já sumiram com o tempo. Mas seus erros diante da sociedade, eu posso... E até deveria. Você não é essencial à sociedade. Eu sou.

‒ Você é um ser inferior.

A conversa foi breve. Aliás, foi essa propriamente. Ele ouviu e indignou-se. Ficou perplexo, acho que esperava encontrar a mulher frágil e idiota que bajulava e rastejava aos pés dele. Grunhiu a única frase que lhe cabia, levantou-se e sumiu.

‒ Me esqueça e nunca mais apareça em minha frente.

Disse quase gritando com raiva e ódio. Não havia condições para mim de ser tão atrevida, insolente e desaforada, assim covarde e estupidamente como ele, e todos os homens canalhas, para o chamar em alto e bom som de “ser fraco”. Como ele e os amigos diziam que éramos seres inferiores.

Dessa forma desagradável começou o meu trigésimo terceiro dia de quarentena.

             

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