HISTÓRIA SEM PÉ NEM CABEÇA
Zig
envelhecia. Enquanto penteava os cabelos cheios de cãs e lembrava da época que
estudou literatura com o professor Fiodor. Um russo que veio parar na Bahia
ninguém sabe como e dava aulas gratuitas de literatura, história e filosofia,
numa sala meio acalorada no Pelourinho. Lá nos fins dos anos oitenta. Reparava
as linhas do rosto, pareciam ferrovias que desciam, subiam e atravessavam
afundando mais e mais os sulcos. Masturbou-se imaginando Cátia enquanto tomava
banho. A loira que morava ao lado de seios pontudos. Namorava um rapaz que
havia sofrido um acidente e perdeu o movimento do braço esquerdo. Era um bobão,
quando bebia arrumava confusão. Empunhava o braço direito e rodopiava bêbado ao
redor dele mesmo. Cátia sempre o acalmava, mas já estava farta. Quando via Zig
sentado na varanda sozinho, de manhã bem cedinho, quase todos os dias, ela o
cumprimentava de lingerie curta com um sorriso largo. Ele pensava” ah se eu
pudesse pegar essa loura com riso de puta” e lascava Cátia na imaginação. Sentia
a vibração de descobrir umas coisas como criança e esquecer de outras como o
amargo da morte. Tentou pensar como as crianças depois da gozada em punhos.
Muito difícil voltar a ser criança. E se perguntava o que significava uma
gozada sexual sem um corpo quente.
A grande
maioria das pessoas não conseguem perceber o envelhecimento precoce, foi o que
lhe veio na mente. Mas era inevitável, era vida. A voz do sangue, diria
Nietzsche. Olhou o rosto enquanto batia o antigo pente Flamengo na beira da
pia. Mirava-se em frente ao espelho quebrado do lado direito, dava tapinhas no
rosto, espremia espinhas de velho e ria. Guardava e usava aquele pente há mais
de trinta anos. Pensou na vida, e naquele amigo que tentava ajudar. Não havia
situação favorável no contexto que se encontrava Uilton. Um negro seis anos
mais novo. Alto e esguio como um coqueiro. Era inteligente, safo, mas as
confusões psicológicas que rondaram a atmosfera dele, depois que Carmen o
deixou, o mundo girou provavelmente mais rápido, ou mais lento, talvez até
houvesse parado para Uilton. Zig tentava animar o amigo, mas se considerava mero
espectador inútil. A não ser que soubesse como transformar, com tudo ao redor, as
confusões de Uilton e as dele também, em literatura. Um conto mórbido, talvez.
Ou uma comédia parecida como as de Balzac.
Mas girar
como Uilton girava naquele momento de ego, Zig não o acompanhava. Mas andavam
juntos.
Uilton
havia confidenciado a ele uma doença perigosa e talvez definitiva que a
psiquiatra Leila o condenou. O amigo de Zig assim pensava depois do diagnóstico
da psiquiatra. Zig achou Leila interessante, disse que Uilton tinha razão
quando comentou sobre o corpo de Leila que ele imaginava por dentro do jaleco Perdia-se durante a narrativa pensando no
seios fartos da doutora Leila. Zig o acompanhou até o consultório no dia do diagnóstico.
Uilton entendia sua mudança. Disse-lhe
que soube o motivo repentinamente e não conseguiu repelir aquilo que entrou
nele e se instalou no limbo. Ele próprio sabia que ficaria louco. E a dúvida de
Uilton era mais resistente, continua e talvez perpétua. Zig elogiou o
reconhecimento do estado de dúvida e disse que o tempo e o espaço eram
relativos enquanto lembrava da conversa que participou e falaram de Einstein.
De fato, é perturbador mas serve pra você. Vivia submetido num terror que nem
ele, nem ninguém sabia de onde vinha. Aterrorizado era o estado de Uilton.
Quando conversavam, enquanto bebiam cervejas no bar do Dudu, Uilton repetia os
fatos. Zig, acostumado com o círculo das mesmas palavras, enterrava o rosto no
aparelho celular e abria uma rede social. Buscava fotos de mulheres elegantes
de lingerie, semi nuas, ou fashions. E Uilton repetia fatos. Foi quando Tiara
passou e ao reconhecer, abraçou imediatamente Uilton que repetia e repetia. A
sociedade também repete, repete. Quando deu em si que estava com Tiara nos
braços parou de repetir, abraçou pela cintura e deu um aperto de homem na moça.
Saiu do mantra. Riu com a moça. Zig também riu daquele encontro que curava
Uilton naqueles instantes. Talvez estivesse ali um momento único e
transformador. Fiodor aconselhou que ficássemos atentos aos instantes mágicos.
Era fácil
notar que havia entre eles algo tônico. Tiara era quase parda, a tez
amarronzada era bem suave. Olhos vivos. Os seios não eram fartos como os de
Leila, mas redondinhos e bicudos. A auréola devia ser eriçada. Pernas
curvilíneas e boca com beiços de beijo. Em seguida, torcia para que ele
esquecesse aquele diagnóstico que havia recebido de Leila. Para Uilton, Leila
sentia uma tentação por ele que cobria até o branco dos olhos, ele falou assim.
Zig não sentiu isso, também não sabia direito o que aquela frase significava.
Deduziu que aquela impressão do amigo era um sintoma límbico. Maluquice, como
diziam. Leila era uma profissional séria que naturalmente tinha um leve ar
sexual quando olhava para as pessoas. Foi Uilton que disse essa frase. E surtou:
um, aquele diagnóstico que o fazia ter dificuldade social, dois, apaixonado
pelo olhar súbito da médica. Que na verdade não estava nem aí para o
esquizofrênico. Maluco beleza levou aquela paixão encharcada de dúvidas gravemente
depois que beijou Betina assim que entrou em casa. Beijo repentino como ventos
de um canion. Pediu desculpas a moça que riu. Betina era acompanhante de Dona
Milu, mãe de Uilton, nas sessões de hemodiálise. Moça bacana, educada, tinha ar sexy e fazia
fumaça ouvindo Easy Skanking, quando estava de folga, na Baixa do Tubo. De
fato, lembrava Leila. Betina amava homens de dread. Ou grandões como Uilton,
mesmo que fossem carecas, como ele. Leila, por sua vez, não se sabe como, no
segundo ano de faculdade, sem saber direito onde o ego, o id e o superego se
encaixavam. Moça quase virgem e sedenta de liberdade. Notou Zito, um
estranhamento seguido de um giro curioso. Riu e caiu. O rasta Zito mergulhado
na beleza negra, falante dono da cantina da faculdade, feio como o cão, riu e
ela caiu. O amor tem dessas coisas aparentemente inexplicáveis. O movimento
estudantil fervia e ela não sabia de que lado ficar. Direita, esquerda. Centrão
de justiça própria. Resolveu dar a Zito bem empinadinha apoiada no fogão da
cantina. O rasta bruto penetrou sem carinho. Foi derrotada, Zito trocou Leila
por Elsa, uma louraça belzebu que falava italiano. Zito aprendeu a língua e foi
sambar na Itália. O amor é uma incógnita. O amor é passageiro. O amor é uma
linguagem. O amor é uma miragem. Quando sentiu a rejeição de Zito teve certeza
que seria psiquiatra.
Tiara Beijava
Uilton com sofreguidão e ria muito dentro da casa dela forrada de pedaços de
porcelanato catados no entulhos das obras dascasas dos barões. E ele tão voraz
quanto, mas ria pouco, olhava os olhos marrons e curtinhos de Tiara enquanto se
divertia. Os olhares é que o faziam girar.
− Fumei a
massa agora, nego gostoso. Queria foder.
− Vamos.
Girou novamente a mente diagnosticada e olhou Tiara com tesão. Fodeu-lhe a
boceta, depois o cu. Inertes ficaram um ao lado do outro no chão de catados de
porcelanato. Enquanto Zig alheio ao que acontecia enrolava um baseado de Skank,
que ele próprio chamava de:.
−
Kankinho.
História sem pé nem cabeça.
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