A SOMBRA DA AMENDOEIRA -texto original e definitivo

 

A obra de arte é a criação de um novo mundo. Onde não há necessidade de explicar onde os lugares estão assentados, só a imaginação de cada um explica, ou não, o tudo e o todo. Ainda assim, sem metonímia. E assim, entremos nos ares da Praça Manuel Querino. Ou Largo dos Paranhos. Já houve algumas vezes discussões a respeito da mudança do nome. Manuel Querino era negro e vivia sempre vestido de arte, de educação, de desenho. Participou da criação da Academia de Belas Artes e do Liceu de artes e ofícios da Bahia. Talvez incentivado pelo Liceu de Aristóteles. Por outro lado, depois de pesquisas investigativas, nada foi encontrado sobre a família Paranhos. Só que era rica. Muito rica. De fato, talvez, mereça questionar tal mudança. Mesmo porque onde estão os Paranhos? Moro por ali a sessenta anos e não conheci ninguém com esse nome. No entanto, lá pelos 1980/81 conheci um Antonio Paranhos. Estudamos juntos e ele morava na Barra. É só o que tenho. Faz pensar que já não existia – e nunca existiu mesmo− mecenas por aqui. A arte, e o artista, sempre são tentados a serem empurrados abismo abaixo − ainda que seja um paradoxo, no máximo é uma aliteração− tudo e o todo que nada sabem, nem procuram saber, sempre tentam empurrá-los por simplesmente não entender o ofício da arte e do artista. Mas o tempo não pára e não envelhece. Manuel Querino me encontrou e aqui dou crédito que ele nunca morreu, estava esquecido. Valorizava muito mais o lugar que é cheio de histórias, na sua grande maioria, histórias de pobres, de memórias. Ainda assim, permanece a dúvida, Praça Manuel Querino ou Largo dos Paranhos? Sabe-se sem nenhuma certeza que a residência desses ricos moradores do Lugar fincava-se onde hoje está, muito mal tratado por sinal, o campo do SEAM. Gostaria que algum desses Paranhos reclamasse.    

Nos idos de 1940, surgiu a Casa de Ferragens e Armazém Santa Bárbara. Hoje é só o Bar dos Paranhos. Tudo muda conforme o tempo. E o tempo, como um dos donos do mundo, é quem faz a metamorfose. É ele quem sopra nos ouvidos a filosofia, a literatura, a arte e a cultura, sobretudo de quem já bebeu meia dúzia no bar dos Paranhos. No entanto, nem tudo são flores, o bar que já foi muito frequentado por jogadores profissionais de Bahia e Vitória, no anos 1970. Aos domingos servia à comunidade de todo bairro de Brotas, sempre com eventos esportivos no campo do SEAN, campeonato disputado onde até boleiros profissionais de Galícia, Ypiranga, Redenção entre outros eram escalados nas diversas agremiações que disputavam o torneio. As pessoas dividiam-se entre o bar e a barraca ao lado, tão tradicional quanto tudo era na Praça Manuel Querino. Lamentavelmente, hoje o bar sofre uma administração pífia. Os clientes são obrigados a afogar-se sob músicas grotescas que tocam em volume estrondoso. Sem contar com a decisão infame e hedionda de fechar aos domingos. Mas ainda há quem incomode inteligentemente, em dias da semana enquanto o volume da música não é acionada, encontram-se resenheiros do futebol, além de, escritores, poetas e filósofos. São esses que ouvem o vento que sugerem a cultura, o folclore e a arte em geral. Mas, novamente para lamentar, enquanto as mentes provocam as vozes para se encherem de prazer e a discussão vai chegando próximo à catarse, a administração do bar ao que parece propositalmente, sem conhecimento de nada, e sem interesse de saber do que se trata sofistas, estoicos, niilistas, semana de 22, Guerra e paz ou Odisseia, dá o play no volume e como um dos ciclos do inferno da comédia de Dante, aparece a música grotesca.

O melhor ficou para o final. Mas não há como ignorar a religiosidade. Imponente, insurgindo certeza aos fiéis. Nelson Rodrigues, torcedor fluminense, cronista e dramaturgo dos melhores já produzido nessa decadente terra brasilis, disse um dia “toda unanimidade é burra”. Eu que estou muito longe de Rodrigues, digo ao vento: toda certeza é soberba. A igreja está ao lado oposto do bar dos Paranhos. Acolhe uma boa parte das beatas e religiosos tementes a Deus, como um mito filosófico, da aréa do Matatu, Galés, Cosme de Farias e iniciozinho da Barros Falcão, até da Vila Laura também. Paróquia que estranhamente cortou uma árvore adulta e frondosa que dava sombra ao ponto de táxi e aos taxista à espera dos clientes. Dizem que se foi a igreja Deus perdoa. Há controvérsias e pobres contendas envolvendo a nave de Deus, mas ninguém se atreve a contestar. Quando mata-se uma árvore, mata-se um homem também. Por quem os sinos dobram? Isso é passado e nada vai mudar, só a direção do vento. O melhor ficou para o final. Ao centro da Praça Manuel Querino, duas mesas e quatro bancos de cimento que precisam ser reformadas e a amendoeira plantada para substituir o busto de Cosme de Farias onde ali ficava. Foi levado para ser pinchado e achincalhado no fim de linha da Rua Cosme de Farias. A amendoeira é o que há de melhor na Praça.  Dá sombra para quem frequenta um ou outro lado. Ou o decrépito bar dos Paranhos ou a soberba igreja católica Bom Jesus dos Milagres. Dependendo sempre de qual sede a espiritualidade esteja desejosa.

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