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CASAMENTO NO SUBÚRBIO

  T ito só se casou com Isabela porque o pai lhe deu um ultimato. − Ou você aparece aqui com uma mulher ou vai cair no cacete − seu Luís disse, balançando o braço com os punhos cerrados. Semanas depois, Isabela adentrava a casa, de mãos da­das com Tito, que suava em bicas. A família morava em Ita­caranha, subúrbio ferroviário de Salvador. Seu Luís e dona Miriam fizeram gosto: a menina era agradável, bonita, em­bora tímida, de cabelos escorridos. Ria para se defender. Tito, por sua vez, sempre fora vistoso, numa mistura de claro e escuro − o claro da mãe com o escuro do pai. Seus cabelos eram cacheados. Filho único. Era uma época difícil para o casal Luís e Miriam. Seu Luís trabalhava numa concessionária na Avenida Fernan­des da Cunha, perto dos Mares, na Cidade Baixa, para sus­tentar a mulher e o filho. Mas então os pais de Miriam mor­reram em um acidente na Avenida Suburbana, nas imedia­ções do Lobato. Um acidente horrível, com uma carreta de cimento Aratu. Por isso, seu Luí...

O RISO IRÔNICO DE CHUCK BERRY EM FRENTE AO RELÓGIO DE SÃO PEDRO

  J á é carnaval cidade, dizia a canção dos anos oitenta em Salvador. Na época, as máscaras caiam na foliam e era liberação geral. É lamentável, mas muito dificilmente haverá novos carnavais. Há quem acredite... Bernard só acreditava no seu amor por Laura Caroline que dançava extasiada em cima de um trio elétrico. Confira B ernard não gostava de azeite de dendê. Comia fei­jão, arroz, bife ao molho e ovo frito. Misturava tudo, jogava farinha e molho de pimenta em cima. Quando comia macarrão ao alho e óleo, pedia também bife de caldo ou bisteca de porco assada, sem farinha. Não be­bia nada durante o almoço. No entanto, antes de comer, e também algumas horas depois, adorava beber vinho seco, escutando uma boa música − Blues, Jazz, Rock’n Roll . Co­meçou a ouvir aquilo com Dilton, seu pai, e jamais procu­rou outro tipo de música, o que o transformava num ser estranho aos olhos de grande parte das pessoas que vivia na Baía de Todos os Santos, onde a cerveja, o axé e o dendê imperavam. U...

LAVAGEM DO BONFIM

  Quinta feira, 14 de janeiro, seria a Lavagem do Bonfim. Tradicional festa da Bahia. É praticamente a Lavagem do Bonfim que dá início ao carnaval de Salvador. Infelizmente não iremos agradecer ao Senhor do Bonfim com nossa peregrinação. Não faremos os oito quilometros a pé até a Colina Sagrada, o vírus não deixou. Mas, ainda assim, ele,nosso Santo Sagrado, nos protegerá como sempre protegeu. Em homenagem ao Nosso Senhor publico o conto LAVAGEM DO BONFIM. Escrito em 2011 e que faz parte do livro BACULEJO E ra a segunda quinta-feira do ano novo. Um janeiro de sol escaldante queimava as pestanas e o couro ca­beludo dos mortais na Bahia, na cidade do São Sal­vador. Afonso Henrique vinha de uma noitada regada a pó e Red Label, além de conversas e conjecturas furtivas sobre a existência. Achava a discussão sobre a vida, sobretudo a alheia, sempre inútil, mas era o que escutava nas ruas. Tinha dúvidas se em outros lugares, dentro de uma acade­mia literária, por exemplo, as pessoas també...

ZUCO & ZUCA

  Z uco completou cinquenta e quatro anos na última semana. Há cinco, tornou-se alcoólatra, depois de encontrar a mulher debaixo de um jovem universi­tário que estagiava sob sua égide. Naquele dia, a vida aca­bava, mesmo com os trinta salários mínimos que ganhava: era coordenador de alguma coisa numa das empresas que compunham o Polo Petroquímico de Camaçari. Respeitado por todos, era, no fundo, um homem só. Até que se apaixonou por Edelzuíta, que carinhosamente pas­sou a tratar por Zuca. Conheceu-a no puteiro da Gamelei­ra, perto da Ladeira da Montanha e da Praça Castro Alves. Bonita, olhos tristes, que pareciam mel, e lábios carnudos, assim como sua vagina de clitóris estufado. Prostituta de porte, esguia, com ancas empinadas e remelexo tentador, além de olhar fatal de quimera. A devoradora de homens prometeu amor eterno e fidelidade. Zuco acreditou. Cons­truiu uma casa com tijolos de vidro entre as paredes que dividiam a sala de visitas da cozinha americana, dois an­dares, cin...

DOZE VEZES

  C onheci Joel numa aula do curso de Eletrotécnica. Ele tinha uma testa saliente e um olhar perscruta­dor, sonso e esquivo. Tornamo-nos amigos e confi­dentes. Desde essa época, ele tinha a mania de estrangei­rismos em sua interlocução. Não raras foram as vezes em que, no meio de nossa conversa sempre filosófica, ele me saía com um “ hombre ” ou “ nosostros ”. Ou, quando estáva­mos contando o pouco dinheiro que nos restou para beber mais, e ele então misturava italiano e português ao já co­nhecido espanhol: “ Hombre, andiamo , a beber uma birra questo ”. Eram hilárias aquelas situações. Havia, também, a sedução do seu inglês fajuto: “ What a beautiful woman , hein boy? !” Joel era um grande amigo: se fazia de marrento, mas tinha um coração gigantesco. Certa feita, me contou que namorava duas de suas vizinhas, cada uma delas morando em uma extremidade da rua. Como ele mesmo dizia: – A federal no norte, a estadual no sul, Antoninho, para não ter briga, hombre . Não faço ideia ...