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QUANDO O UNIVERSO GOZA

  Enquanto Trovão, um pinche de meia idade, subia por trás do sofá para surpreendê-la alegremente e para seu deleite, Sofia conversava sobre encontros com Antoninho. A ideia era verem-se para conversar, muito provavelmente confortáveis numa cama de casal em algum interior, ou na beira de algum extenso litoral praieiro. Há anos só se viam pela tela dos aparelhos através de um aplicativo. E estavam distantes um do outro mais de mil quilômetros. Antoninho numa cidade da Bahia, Sofia no interior de Minas Gerais. E assim, desafiando a relatividade do espaço conquistaram-se. No entanto, Sofia era dona de um pudor quase hermético desde cedo na infância que transbordava religião. Nunca houve quem a pegasse, ou jamais se deixou pegar. Ela própria não definiu essa situação. Antoninho imaginava e as vezes dizia a ela com a cara de jacarandá que lhe era iminente que queria mesmo era comê-la. Parecia Macabéa, mas era mais esperta. Ainda assim, Sofia pensava livremente que talvez não fosse n...

CHEYENNE OLHOS MARRONS

  CHEYENNE OLHOS MARRONS   Nada tinha importância, era o que eu pensava enquanto olhava a rua, sentado numa mesa de plástico, no bar de Azia. Quando girei minha cabeça meus olhos encontraram outros olhos bem marrons que me fitavam curiosos. Eu já os conhecia de algum tempo. Não os via há anos. E parece que aquele foi o momento que não sei como um canal abriu em minha mente. Cheyene Olhos Marrons estava séria enquanto me olhou naqueles rápidos instantes. − Ainda vai? Abri os olhos como estivesse assustado, num leve movimento de cabeça procurando uma direção. − Hein? − Quer um raio? − Quero. Cheyene Olhos Marrons me entregou um pequeno pino amarelo com o pó branco pela metade. Azia era grosseiro e estúpido. Não gostava de ninguém, principalmente de maconheiro e de cheirador de pó. O problema era que mais da metade que frequentava o bar era dessa estirpe. O careta então resolveu desafiar a malucada, colocou divisórias menores, mais ou menos abaixo dos ombros, nos ...

O LADRÃO

  O LADRÃO   Eu não tinha nada, só a vontade e o sangue que deixavam meus olhos em brasa. Tinha que escolher e não podia errar, não podia perder. Talvez se entrasse em um ônibus, o serviço fosse melhor, mais fácil. Essa fome que não passava. Quando minha mãe ainda era viva, me dava bons conselhos e fazia mingau de cachorro que matava a fome. Até então, minha maior felicidade foi o primeiro e único bolo de chocolate que ela fez quando completei cinco anos. Prometeu fazer outro, ainda maior, quando eu completasse dez. Mas ela se foi quando eu tinha sete anos. Quando completei dez anos, não mais esperava bolo, levei uma surra de meu pai que era um desalmado. Até hoje não sei o motivo. Uma vez, antes de me decidir pelo crime tentei me aproximar dele. Levei outra surra. Desisti. Herdei os maus-tratos e sucumbi à violência. Havia algo que me corroía por dentro, tinha um gosto amargo, e dúvidas se as outras pessoas também sabiam e sentiam aquele sabor que me consumia. Ao ver a fe...