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LAVAGEM DO BONFIM

  Quinta feira, 14 de janeiro, seria a Lavagem do Bonfim. Tradicional festa da Bahia. É praticamente a Lavagem do Bonfim que dá início ao carnaval de Salvador. Infelizmente não iremos agradecer ao Senhor do Bonfim com nossa peregrinação. Não faremos os oito quilometros a pé até a Colina Sagrada, o vírus não deixou. Mas, ainda assim, ele,nosso Santo Sagrado, nos protegerá como sempre protegeu. Em homenagem ao Nosso Senhor publico o conto LAVAGEM DO BONFIM. Escrito em 2011 e que faz parte do livro BACULEJO E ra a segunda quinta-feira do ano novo. Um janeiro de sol escaldante queimava as pestanas e o couro ca­beludo dos mortais na Bahia, na cidade do São Sal­vador. Afonso Henrique vinha de uma noitada regada a pó e Red Label, além de conversas e conjecturas furtivas sobre a existência. Achava a discussão sobre a vida, sobretudo a alheia, sempre inútil, mas era o que escutava nas ruas. Tinha dúvidas se em outros lugares, dentro de uma acade­mia literária, por exemplo, as pessoas també...

ZUCO & ZUCA

  Z uco completou cinquenta e quatro anos na última semana. Há cinco, tornou-se alcoólatra, depois de encontrar a mulher debaixo de um jovem universi­tário que estagiava sob sua égide. Naquele dia, a vida aca­bava, mesmo com os trinta salários mínimos que ganhava: era coordenador de alguma coisa numa das empresas que compunham o Polo Petroquímico de Camaçari. Respeitado por todos, era, no fundo, um homem só. Até que se apaixonou por Edelzuíta, que carinhosamente pas­sou a tratar por Zuca. Conheceu-a no puteiro da Gamelei­ra, perto da Ladeira da Montanha e da Praça Castro Alves. Bonita, olhos tristes, que pareciam mel, e lábios carnudos, assim como sua vagina de clitóris estufado. Prostituta de porte, esguia, com ancas empinadas e remelexo tentador, além de olhar fatal de quimera. A devoradora de homens prometeu amor eterno e fidelidade. Zuco acreditou. Cons­truiu uma casa com tijolos de vidro entre as paredes que dividiam a sala de visitas da cozinha americana, dois an­dares, cin...

DOZE VEZES

  C onheci Joel numa aula do curso de Eletrotécnica. Ele tinha uma testa saliente e um olhar perscruta­dor, sonso e esquivo. Tornamo-nos amigos e confi­dentes. Desde essa época, ele tinha a mania de estrangei­rismos em sua interlocução. Não raras foram as vezes em que, no meio de nossa conversa sempre filosófica, ele me saía com um “ hombre ” ou “ nosostros ”. Ou, quando estáva­mos contando o pouco dinheiro que nos restou para beber mais, e ele então misturava italiano e português ao já co­nhecido espanhol: “ Hombre, andiamo , a beber uma birra questo ”. Eram hilárias aquelas situações. Havia, também, a sedução do seu inglês fajuto: “ What a beautiful woman , hein boy? !” Joel era um grande amigo: se fazia de marrento, mas tinha um coração gigantesco. Certa feita, me contou que namorava duas de suas vizinhas, cada uma delas morando em uma extremidade da rua. Como ele mesmo dizia: – A federal no norte, a estadual no sul, Antoninho, para não ter briga, hombre . Não faço ideia ...

O MAÇO DE CIGARROS

  E nquanto o sargento Glober bebia, de um gole só, a dose de conhaque servida pelo garçom, André, do bar no Largo dos Paranhos, o apelidado Gordo, cliente contumaz, que sempre andava com cabelo preso num rabo de cavalo e le­vava consigo um maço de cigarros tipo boxe recheado de baseados, observava-o da sua mesa, curioso e, ao mesmo tempo, hesitante. Escamoteava, por trás de uma vitrine, uma estufa de salgados, que ficava em cima do balcão. A viatura estava parada ao lado do estabelecimento, virada no sentido para sair da Rua Cosme de Farias. Um dos policiais estava dentro do carro; os outros dois, con­versando do lado de fora, encostados no paralamas, um de­les fumando nervosamente. Aquela dose era a terceira do sargento durante a ronda que faziam. Gordo mirava e ria cinicamente, arquitetava um flagrante no policial que be­bia em serviço. Manuseou o telefone celular cheio de apli­cativos, procurando um ângulo para registrar a fotografia. A estufa de salgados, logo à frente, difi...

ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE

    E ra véspera de Sexta-Feira Santa. Oyá queria ser no­tada de qualquer forma, trovões e raios enlouqueci­dos subiam, ou desciam, naqueles dias de Páscoa. Nos últimos tempos, algo revitalizava o comércio da Baixa dos Sapateiros. As pessoas andavam e pesquisavam desde o Largo do Aquidabã até a Barroquinha. Em tempos em que os shopping centers determinavam as ofertas, deman­das e promoções, as pequenas lojas, que serviam a pobres e desfavorecidos, criavam saídas para a crise: ofereciam pro­moções de ovos de chocolate e brinquedos frágeis e fajutos para as crianças, além de lingeries baratas para as moças. Sem estoque de material, mas com esperança na base da pirâmide social. Todos circulavam, iam, vinham. Um pano­rama difícil. E o sistema nunca foi definido. − O verdadeiro ladrão é eleito pelo povo e assume car­gos de confiança, diz que acredita em Deus e o esnoba en­tre as paredes... É aplaudido, ou vaiado, tanto faz para ele, durante um tempo indeterminado. Às vezes, ...

BACULEJO

  F im de tarde de um novembro calorento, lá pelas seis horas: a hora do bicho. Marivaldo mijava e escorava, com a testa, a parede do banheiro imundo de Dona Maria, na Favela da Rocinha, nos confins do Pelourinho, Centro Histórico de Salvador. De dentro do mictório, ouvia Gil Macedo e Jorge Elias conversarem: − Não acredito em porra nenhuma disso aí − Gil falou. − Pois acredite. Depois de tudo, ainda ouvi uma risada maligna da porra! Sei lá, algo do além, como se tirasse sar­ro da minha cara. − Você deve ter fumado tanta maconha que começou a ouvir vozes... − Porra nenhuma, rapaz! Dia desses, uma mulher, que nunca vi na vida, me parou na rua e falou um monte de coisas! − Você é um otário, vive comendo pilha de macumbeiro, de Alan Kardec... Morreu, fodeu, meu irmão! − Não acho, não... − Talvez Jorge tenha razão − Marivaldo comentou, amarrando na cintura a calça de algodão que vestia para jogar capoeira sobre as pedras portuguesas do Pelourinho. − E quem disse a você ...