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CECÍLIA DOS ANOS OITENTA

  CECÍLIA DOS ANOS OITENTA   − Ruan, o que é isso? − Meu pau duro te querendo. − Ruan. −Cecília. − A gente deve isso um ao outro desde 1988. − Já passou, Seu Ruan. − E esse riso em seu rosto, Ciça. − Não tem riso nenhum. − Moro sozinho aqui, Ciça, não vem ninguém me ver. Só você. − Não vim aqui para isso. Vista-se. − Tá bom, Cecília. − Isso nunca me passou pela cabeça. − Cecília, só em olhar para você enfiada nesse vestido verde cana sedoso, dá para perceber que está com as paredes da boceta derretendo. − Pára, Ruan. − Olhe só meu pau sessenta anos mais velho e ainda te querendo, Cecília. − Ruan vim para conversar sobre seu amigo Antonio Eduardo, meu marido e muito seu amigo. − Tá doente, Antoninho? − Não. −Então o que é, Cecília? − Agora... − Agora, o que? − Fiquei desconfiada de você. − Oxe, Ciça. Só porque eu disse que ainda temos tesão desde 1988? − Rum, você adquiriu umas falas que não lembro serem assim. − Estou velh...

SER INFERIOR

  Quando atendi a chamada do telefone naquele trigésimo terceiro dia de quarentena, não me sentia sozinha, como nos dias em que fazia meus atendimentos em motéis. Naqueles dias meus sentimentos principais eram minhas dúvidas, seria eu essencial à sociedade? A hipocrisia social ia sucumbir ao coronavírus? Tinha quase certeza que não. Dessa forma, sabia que do outro lado da linha estava Gabriel. Havia no ar nossa energia, ele ia aparecer, só não sabia como. Nem quando. Não nos víamos há quase um ano, depois que ele mesmo decidiu amar a mulher com quem casou. Ou, como ele próprio disse, tentar amar aquela criatura que depenava as sobrancelhas com pinça e ar de mulher comum, criando uma imagem espantosa para os olhos dele ‒ depois comecei a notar que só falava assim quando havia discutido com Cássia sobre alguma coisa que ela queria impor com arrogância‒. Gabriel tinha uma dificuldade nefasta e sinistra ao tentar descrever a própria mulher. Até o dia que nos separamos, ele não sabia ...

OS SEIOS DE MARISE

  OS SEIOS DE MARISE   1 Enquanto a chuva caía, no início de outono, Crizan pensava em Jamile. Nos últimos dois anos, eles dormiram juntos e se agarravam durante a madrugada quando os pés se batiam na cama. Uma insônia o tomou depois da separação. Às vezes, se masturbava entre os lençóis, enquanto ouvia Easy Skanking. E depois, dançava como se estivesse num coito dancing. Achava que estava sozinho, talvez, sim. Desde a juventude que o homem era para passear entre todas as mulheres. −Fodida afirmação. Era o que Jamile dizia. −É claro, todos se amando. Mas só eu poderia te amar, Jamile. −Você que pensa. A cama, em frente ao espelho do armário, ela olhava o umbigo fundo onde Crizan adorava colocar o dedo indicador. −Era o melhor umbigo do mundo. Crizan dizia. Jamile esquecida de tudo e envolta na querença e fissura, alisava a pele de veludo, segundo ela, que envolvia as mãos de Crizan. A chuva havia parado. Ele já não tinha nas mãos os seios fartos de aureolas g...

A SOMBRA DA AMENDOEIRA -texto original e definitivo

  A obra de arte é a criação de um novo mundo. Onde não há necessidade de explicar onde os lugares estão assentados, só a imaginação de cada um explica, ou não, o tudo e o todo. Ainda assim, sem metonímia. E assim, entremos nos ares da Praça Manuel Querino. Ou Largo dos Paranhos. Já houve algumas vezes discussões a respeito da mudança do nome. Manuel Querino era negro e vivia sempre vestido de arte, de educação, de desenho. Participou da criação da Academia de Belas Artes e do Liceu de artes e ofícios da Bahia. Talvez incentivado pelo Liceu de Aristóteles. Por outro lado, depois de pesquisas investigativas, nada foi encontrado sobre a família Paranhos. Só que era rica. Muito rica. De fato, talvez, mereça questionar tal mudança. Mesmo porque onde estão os Paranhos? Moro por ali a sessenta anos e não conheci ninguém com esse nome. No entanto, lá pelos 1980/81 conheci um Antonio Paranhos. Estudamos juntos e ele morava na Barra. É só o que tenho. Faz pensar que já não existia – e nun...

ABAIXO DO VENTRE

    ... e agora Ruan Bocage vai viver com essas indagações pífias sobre a vida    como um filósofo de padaria que deseja pão farofa   nessa larica de maconha palha    homem velho    Aja de acordo aos seus sessenta anos    Sim   com sessenta anos batia punheta todos os dias   Imaginava meio mundo de mulheres fogosas que tive nunca tivera como Sílvia por exemplo   Imaginava a gigantesca   Mariana Imaginava a negra Lúcia que fazia serviços de limpeza pelas casas só não fazia na minha    Lúcia tinha seios duros e bicudos parecia sempre excitada    Imaginava Helena   Helena   Helena    muxoxo    E Sílvia que conheci na internet   Nem tinha tantos atrativos como Helena mas fiquei com um tesão da porra por aquela mulher     Morava nos cambau de Goiás   Era triste   Sem nenhum traço de safadeza   Mas sensual   e não acreditava que...